Com tarifa zero para exportações, acordo Mercosul-Singapura abre novo mercado para móveis de Minas

Tarifa zero para exportações abre novas rotas comerciais e impulsiona a cadeia moveleira mineira, especialmente o polo de Ubá, em busca de mercados alternativos aos EUA
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Com tarifa zero para exportações, acordo Mercosul-Singapura abre novo mercado para móveis de Minas
Foto: Reprodução Adobe Stock

Os Estados Unidos são os principais compradores de produtos do polo moveleiro de Minas Gerais e do Brasil. Somente no primeiro semestre de 2026, o país da América do Norte importou US$ 596 milhões (cerca de R$ 3 bilhões) em móveis e produtos derivados, segundo a Associação Brasileira de Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), mantendo a liderança na parceria comercial.

Todavia, com mais um tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump, os produtores mineiros e nacionais estão sendo forçados a ampliar seu leque de clientes e encontrar novos mercados. Um acordo que entrou em vigor no dia 1º de agosto pode gerar novos negócios e uma nova rota para os produtos do Estado.

O Mercosul, bloco de livre comércio da América do Sul, assinou um acordo com Singapura, país do sudeste da Ásia, para ser mais um parceiro comercial do bloco continental. E os móveis mineiros e brasileiros terão uma vantagem importante para enviar seus produtos a Singapura: tarifa zero para exportações.

A expectativa é que o volume de negócios cresça em larga escala com os asiáticos. Somente no primeiro semestre deste ano, as exportações do segmento para Singapura alcançaram US$ 83,3 milhões, salto de 12.290% frente ao mesmo período de 2025, com importações de US$ 677 mil.

A evolução também se destaca em uma perspectiva mais ampla. No primeiro semestre de 2024, as exportações para Singapura haviam somado US$ 16,3 milhões, equivalentes a 0,9% do total. Dois anos depois, o valor exportado é mais de cinco vezes superior, e a participação do mercado singapuriano avançou para 4,7%.

Minas e Ubá de olho

Em processo de recuperação econômica, social e estrutural devido às fortes chuvas do início do ano, Ubá, na Zona da Mata Mineira, pode ser uma das grandes beneficiadas com o acordo Mercosul-Singapura. O município é um dos principais polos moveleiros de Minas Gerais, com mais de 500 empresas do setor, com produção para os mercados interno e externo.

Para a gerente executiva do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Marcenaria de Ubá (Intersind), Heliane Martins de Souza Hilário, o acordo abre uma oportunidade para Ubá e região.

“Singapura é um mercado de alto poder aquisitivo e também um importante centro comercial e logístico da Ásia. Com o acordo, temos melhores condições de acesso a esse mercado e, consequentemente, a possibilidade de ampliar a presença dos nossos produtos no continente asiático. Para um polo como Ubá, que tem uma indústria moveleira forte, diversificada e com capacidade de produzir móveis com qualidade e design, essa abertura pode representar novos negócios e novos mercados”, disse Heliane Martins, ao apostar que os consumidores de Singapura podem gostar dos produtos de Ubá.

“Temos potencial para exportar principalmente móveis de madeira para dormitórios, salas e cozinhas, além de móveis corporativos e outros produtos de maior valor agregado. Também existe oportunidade para componentes e produtos ligados à cadeia moveleira”, assinala.

De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias do Mobiliário e de Artefatos de Madeira no Estado de Minas Gerais (Sindimov-MG), Maurício de Souza Lima, o acordo tem potencial duplo: expandir a indústria moveleira mineira, com geração de novos empregos, e possibilitar que mais empreendimentos tenham acesso ao mercado de Singapura.

“Este acordo traz nova perspectiva e representa grande oportunidade de ampliação para a indústria moveleira mineira no mercado internacional, visto que Minas tem aproximadamente 3,2 mil indústrias de móveis e colchões, gerando cerca de 38,8 mil empregos. Hoje apenas 2,8% das empresas mineiras exportam, e com este acordo, que garante tarifa zero para exportações brasileiras, acreditamos que mais empresas podem começar neste importante nicho de exportação”, disse.

Alternativa ao tarifaço

A abertura do sudeste da Ásia para os móveis mineiros pode não substituir os EUA como principal comprador dos produtos feitos por aqui. O setor foi fortemente impactado pelo tarifaço, visto que os norte-americanos são o principal mercado para o setor moveleiro do Brasil e atualmente estão com a tarifa de 37,5% para a cadeia de produtos de móveis.

Entretanto, o acordo com Singapura pode contribuir para que não haja estagnação na distribuição da produção das indústrias do Estado.

“O acordo pode contribuir para a redução de tarifas, facilitar o comércio e dar mais segurança para as empresas que querem exportar. Mas existe um benefício ainda maior: a possibilidade de diversificarmos nossos mercados. Não podemos depender apenas dos mercados tradicionais. Precisamos buscar novos destinos, e a Ásia é uma região estratégica”, explica Heliane Martins.

“Para o polo de Ubá, isso pode significar aumento das exportações, novos investimentos, geração de empregos e fortalecimento da nossa indústria”, completa a gerente executiva do Intersind.

Tábua de salvação

A consciência de que o acordo Mercosul-Singapura não é uma “tábua de salvação” da indústria mineira de móveis é um consenso no meio. Entretanto, há o entendimento de que o fortalecimento geral e a recuperação da economia de Ubá podem ser acelerados com essa nova rota moveleira mineira e nacional.

“Eu não colocaria o acordo como uma solução isolada para a recuperação de Ubá ou de qualquer outra região. A recuperação depende de várias ações e investimentos. Mas certamente ele pode fazer parte de uma estratégia de retomada econômica. Quando abrimos novos mercados, aumentamos a possibilidade de nossas empresas venderem mais, produzirem mais, investirem e gerarem empregos”, comenta Heliane Martins.

“E Ubá tem uma vantagem muito importante: temos uma indústria moveleira consolidada, empresas com experiência, mão de obra especializada e uma cadeia produtiva estruturada. Portanto, se soubermos aproveitar essa oportunidade, o acordo pode contribuir para fortalecer ainda mais a economia da nossa região”, finaliza a gerente executiva.

Sobre o autor

Anderson Gonçalves

Jornalista desde 2002, especialista em Projetos Editoriais e campanhas políticas. Desde 2025 é repórter de economia e negócios no Diário do Comércio.

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