Economia para Todos

Quem são os rentistas?

Figura pode estar mais próximo do povo do que o discurso político sugere no Brasil
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No debate econômico, poucas palavras carregam tanta carga moral quanto “rentista”. O termo deixou de descrever quem recebe rendimentos de aplicações financeiras e passou a definir, muitas vezes, alguém que torce contra o País, deseja juros elevados e ganha dinheiro quando a economia vai mal. De outro lado estaria o “povo”, supostamente prejudicado por esse grupo. A divisão é politicamente conveniente. Economicamente, porém, é complexa.

Os números ajudam a desfazer essa caricatura. Em junho, 31,76% da dívida pública estavam nas mãos de bancos. Outros 22% pertenciam a fundos de investimento e 22,52%, à Previdência. Outros 9,95% estavam com não residentes. Havia ainda recursos de seguradoras, do governo e de outros investidores.

Por trás dessas categorias, existem pessoas. Quando um trabalhador coloca dinheiro em um fundo, contrata um plano de previdência ou paga um seguro, seus recursos precisam ser aplicados. Parte deles pode estar em títulos públicos. O título pode estar registrado em nome de uma instituição, mas o dinheiro pertence a milhares ou milhões de indivíduos.

É por isso que a ideia de um conflito simples entre “rentistas” e “povo” é superficial. O trabalhador pode estar dos dois lados dessa relação. Ele paga impostos que ajudam a financiar a dívida pública e, ao mesmo tempo, pode receber rendimentos de uma aplicação que possui títulos do governo. Pode sofrer com o crédito caro e depender da remuneração de sua aplicação.
Isso não elimina conflitos de interesse. Um investidor pode preferir juros maiores, enquanto uma empresa ou uma família endividada prefere juros menores. O governo gostaria de reduzir o custo da dívida. São interesses distintos. Mas conflito econômico não é sinônimo de conflito moral.

Em seu sentido econômico, especular significa assumir riscos em busca de retorno. Quem empresta dinheiro ao Estado abre mão de consumi-lo hoje e espera uma remuneração compatível com os riscos percebidos. O debate legítimo é saber por que o Estado precisa pagar tanto, quem recebe esses recursos e quem suporta seu custo. Quanto maior a percepção de risco fiscal, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores. O mercado, portanto, não cria sozinho os juros elevados, ele reage às condições que encontra. Não existe um personagem único chamado “mercado”, decidido a prejudicar o País. Existem milhões de decisões de pessoas, empresas, fundos e instituições.

A pergunta essencial é por que o Estado precisa pagar tanto para se financiar. Essa é uma questão econômica e também moral, porque envolve decidir quem arca com o custo das escolhas presentes.

No fim, o “rentista” pode estar mais próximo do povo do que o discurso político sugere. Às vezes, ele é o próprio trabalhador que, por meio da previdência, de um fundo, de um seguro ou de uma aplicação financeira, ajuda a financiar o Estado. Antes de condená-lo, talvez fosse melhor compreender essa relação.

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Sobre o autor

Guilherme Almeida

Head de Renda Fixa na Suno. Sócio-fundador da Certifiquei, possui experiência como economista, atuando na gestão e elaboração de pesquisas e análises socioeconômicas. Mestre em Estatística pela UFMG.

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