Bares e restaurantes de Minas têm alta de 9,9% nas vendas em julho, mas Copa influencia resultado

Apesar do bom resultado, especialistas alertam para a importância da análise de contexto e da eficiência operacional
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Bares e restaurantes de Minas têm alta de 9,9% nas vendas em julho, mas Copa influencia resultado
Um dos fatores apontados para o crescimento nas vendas em julho é a realização da Copa do Mundo | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

As vendas no setor de bares e restaurantes em Minas Gerais cresceram 9,9% em julho deste ano na comparação com igual mês do exercício anterior, quando a atividade registrou recuo de 2,2%, segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) com a Stone Pagamentos, que geram o Índice Abrasel-Stone, um relatório mensal divulgado pelas duas empresas para mensurar o setor.

Na comparação com junho deste ano, o incremento nas vendas é ainda maior, pois o último mês do semestre teve apenas 0,9% de alta. O volume alto de julho pode ser creditado ao movimento da Copa do Mundo de Futebol, disputada no período, o que incentiva as pessoas a irem aos bares e restaurantes.

Para o fundador e CEO da consultoria Donos de Restaurantes e ex-dono de pizzaria e bares em BH, Marcelo Marani, o resultado de julho deste ano, em comparação com julho do ano passado, precisa ter uma leitura de contexto para não ficar focado apenas no número em si.

“Em julho do ano passado não teve Copa do Mundo, ou seja, parte desse crescimento é em comparação com uma base mais fraca, não necessariamente um salto estrutural de consumo. E ainda temos que descontar a inflação. Isso não invalida o resultado, mas muda a leitura. Quem administra restaurante não pode comemorar um número inflado por calendário como se fosse ganho de eficiência ou de demanda”, disse Marcelo Marani.

Bar Tatu Bola
Torcedores do Brasil foram aos bares para assistir aos jogos da seleção | Foto: Reprodução Instagram Tatu Bola

O dono do Fita Bar, no bairro de Santa Tereza, em BH, Alexandre Santos, teve sensação parecida com a do consultor, pois, em sua avaliação, houve sim mais movimento nos bares, incluindo o seu, porém em dias específicos, como as partidas do Brasil no Mundial, o que gerou cautela em sua análise do período.

“Minha percepção foi que a gente teve um aumento em alguns dias específicos, dias de jogos, um público que está mais voltado para o futebol. Porém, a minha expectativa para esse período era de ter um pouco mais de clientes. E não superou a expectativa, a gente teve só… teve um leve aumento, não foi nada absurdo, não. Em comparação com 2022, que foi o ano em que a gente abriu e teve um movimento maior para assistir aos jogos. Jogos da seleção deram muito movimento, e os outros nem tanto — alguns paravam poucas pessoas para assistir”, contou.

A presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Minas Gerais (Abrasel-MG), Karla Rocha, também destaca que o resultado foi bom, mas houve situações diferentes em relação a 2022 nos dados de comparação e diz que o setor precisa ficar atento.

“Os dados de julho do índice Abrasel-Stone mostram um cenário positivo para o setor de bares e restaurantes em Minas Gerais. Tivemos um crescimento de 9,9% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado. É claro que precisamos considerar alguns fatores nessa comparação, como o impacto da Copa do Mundo. Ainda assim, o resultado mostra a força e a capacidade de adaptação do nosso setor. Os números trazem confiança, mas seguimos atento aos desafios, principalmente aos juros altos, o aumento dos custos e as margens ainda mais apertadas dos empresários”, observou.

Força do setor

Segundo o economista e pesquisador da Stone, Guilherme Freitas, o desempenho do setor em julho reforça a resiliência de bares e restaurantes, mesmo diante de um ambiente econômico ainda desafiador. “O mercado de trabalho continua sustentando a renda e o consumo, contribuindo para que o setor mantenha um desempenho superior ao observado no ano passado. Ao mesmo tempo, o custo elevado do crédito e a pressão da inflação sobre o orçamento das famílias seguem como importantes limitadores do consumo”, pontuou.

Para Freitas, a continuidade do crescimento dependerá da evolução das condições financeiras nos próximos meses. “O resultado de julho é bastante positivo, com avanço tanto na comparação mensal quanto anual, e o décimo mês consecutivo em patamar superior ao do ano anterior. Esse desempenho mostra uma demanda ainda consistente, mas será importante acompanhar as próximas leituras para entender o quanto esse avanço representa uma consolidação do nível de atividade do setor”, disse.

Mais trabalho e conselho

O fundador e CEO da consultoria Donos de Restaurantes, Marcelo Marani, levantou uma percepção sobre o desempenho de Minas Gerais, sempre considerada uma das terras com mais adeptos a bares e restaurantes, que merece atenção: o Estado, segundo ele, terá de repensar alguns formatos e trabalhar mais.

Ele destacou que o Sudeste liderou o Índice Abrasel-Stone em julho, com 14,3%, puxado por Rio, Espírito Santo e São Paulo, todos acima de 15%. “E Minas Gerais? Cresceu 9,9%, sólido e positivo, mas visivelmente abaixo da média da própria região. Isso é motivo de atenção. Se o dono de restaurante mineiro está crescendo menos que o vizinho capixaba ou carioca, ele precisa se perguntar se está sendo carregado pela maré do setor ou se está realmente performando. Porque, quando a maré sobe, todo barco sobe. O problema é quando ela baixa e você descobre quem estava nadando de verdade e quem só estava boiando. Minas precisa de mais trabalho em tíquete médio, engenharia de cardápio e eficiência operacional para não ficar dependente só do embalo nacional”, analisou.

Marcelo Marani
Marcelo Marani diz que o faturamento não deve ser analisado de forma isolada | Foto: Reprodução Instagram Marcelo Marani

“O recado prático que eu deixo para quem administra bar ou restaurante é o seguinte: aproveite o momento de faturamento em alta para rever sua margem, não só para celebrar a receita. Faturar mais com juros altos e insumo caro só é bom se essa venda extra estiver convertendo em lucro de verdade. Quem não está de olho no CMV [custo de mercadoria vendida], na ficha técnica, no fluxo de caixa, linha por linha, corre o risco de fechar o ano vendendo recorde e lucrando menos que no ano passado”, disse.

Marcelo Marani, que dá um conselho ao empreendedor do setor: “crescimento de faturamento, se olhado de forma isolada, é vaidade. Crescimento de margem e caixa é evidência de saúde financeira. E é isso que separa o dono de restaurante que está prosperando de verdade daquele que só está sendo levado pela maré do setor. Esse índice é uma boa notícia, mas boa notícia com responsabilidade, não com euforia”, finalizou Marani.

Sobre o autor

Anderson Gonçalves

Jornalista desde 2002, especialista em Projetos Editoriais e campanhas políticas. Desde 2025 é repórter de economia e negócios no Diário do Comércio.

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