Consultoria cara não substitui conhecimento do negócio

Sem imersão, escuta e adaptação ao contexto da empresa, a entrega pode ser superficial
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
Consultoria cara não substitui conhecimento do negócio
Foto: Reprodução Adobe Stock

Há uma ideia que se consolidou no mundo corporativo nas últimas décadas: diante de um problema complexo, chama-se uma consultoria. A lógica parece impecável. Trazer gente de fora, com método, repertório e visão ampla, deveria acelerar decisões e qualificar a estratégia. Nem sempre é o que acontece.

O que se observa, com alguma frequência, é um descolamento entre o que é apresentado e o que de fato pode ser executado. Projetos bem embalados, com linguagem sofisticada e modelos importados, mas que não dialogam com a realidade da empresa. Falta chão de fábrica, falta compreensão do cliente final, falta entendimento da cultura interna. Sobra, em muitos casos, uma sensação de que se pagou caro por algo que pouco muda o resultado.

Não se trata de desqualificar o papel das consultorias. Elas têm valor e, quando bem utilizadas, podem fazer diferença. O ponto é outro: conhecimento técnico, por si só, não resolve problema de negócio. Sem imersão, sem escuta e sem adaptação ao contexto, a entrega tende a ser superficial.

Há um risco adicional, menos evidente. Ao recorrer de forma recorrente a consultorias para pensar o futuro, empresas podem acabar terceirizando decisões que deveriam ser construídas internamente. Isso enfraquece a capacidade analítica das equipes e cria uma dependência que, no longo prazo, custa caro. Não apenas financeiramente, mas em autonomia.

Também é preciso reconhecer que parte dessa distorção nasce dentro das próprias empresas. Muitas vezes, a contratação ocorre com escopo amplo demais, objetivos difusos e pouca participação das áreas operacionais. Nesse cenário, abre-se espaço para diagnósticos genéricos e recomendações igualmente genéricas.

O debate, portanto, não é sobre usar ou não consultorias. É sobre como usar. Empresas mais maduras já começam a ajustar essa relação. Cobram entregas mais específicas, exigem envolvimento direto das equipes internas e, sobretudo, condicionam o pagamento a resultados concretos.

Em um ambiente de pressão por eficiência, gastar mal deixou de ser um detalhe. E consultoria, quando não entrega valor, entra nessa conta.

No fim, a equação é simples, ainda que nem sempre praticada: estratégia precisa fazer sentido para quem executa. Caso contrário, vira apenas mais um documento bem diagramado, arquivado em alguma pasta, longe da realidade do negócio.

Luciana Montes
Sobre o autor

Luciana Montes

Jornalista e editora executiva do Diário do Comércio

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas