Possível super El Niño acende alerta em supermercados para abastecimento e preços

Fenômeno climático pode impactar produção de alimentos, logística e preços, exigindo antecipação do varejo
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Possível super El Niño acende alerta em supermercados para abastecimento e preços
Supermercados devem se planejar para enfrentar os impactos do El Niño | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

A possibilidade de um super El Niño nos próximos meses coloca o setor supermercadista em estado de atenção diante dos potenciais efeitos do fenômeno sobre a produção de alimentos e produtos, a logística e os preços. Como elo final de uma cadeia que começa no campo, os supermercados podem sentir os reflexos de perdas agrícolas, dificuldades de transporte e redução da oferta, principalmente de produtos perecíveis.

O alerta é feito pelo economista e especialista em gestão de supermercados Leandro Rosadas, que defende a antecipação das empresas diante de um cenário de maior instabilidade climática. Segundo ele, eventos extremos têm deixado de ser uma ocorrência pontual e passado a integrar variáveis que precisam ser consideradas como riscos pelo varejo alimentar.

“Supermercados e atacadistas são a ponta visível da cadeia de abastecimento, mas toda a jornada começa lá atrás, muito antes desta mercadoria chegar às lojas. Por isso, quando ocorre uma quebra de safra, dificuldades de transporte por efeito de chuvas ou mesmo perdas de produção, o varejo precisa se antecipar, reorganizando fornecedores, revisando estoques e adotando outras medidas para manter suas reservas, sem comprometer a rentabilidade do negócio nem prejudicar o abastecimento”, afirma.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e pode alterar o regime de chuvas e temperaturas. No Brasil, os efeitos mais conhecidos incluem chuvas acima da média no Sul e períodos de estiagem no Norte e Nordeste, com possíveis consequências sobre a agricultura, o abastecimento de água e a geração de energia hidrelétrica.

A experiência mais recente reforça a preocupação. Entre 2023 e 2024, durante a última ocorrência do fenômeno, culturas como arroz, frutas, hortaliças e trigo foram afetadas por enchentes no Sul e por períodos de estiagem em outras regiões. A redução da oferta contribuiu para pressionar os preços dos produtos.

Leandro Rosadas
Supermercados devem se planejar para enfrentar os impactos do El Niño | Foto: Diário do Comércio / Leonardo Morais

O alerta feito por Rosadas encontra respaldo nos números do setor. Segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), em 2024, o setor supermercadista movimentou mais de R$ 1,06 trilhão, o equivalente a cerca de 9% do Produto Interno Brasileiro (PIB). Ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos geraram mais de R$ 730 bilhões em prejuízos entre 2013 e 2024, atingindo infraestrutura, produção agropecuária e logística e, consequentemente, a cadeia de abastecimento do varejo alimentar.

Para Rosadas, os produtos perecíveis estão entre os mais vulneráveis. Frutas, verduras, legumes, carnes e outros alimentos podem sofrer tanto com perdas na produção quanto com dificuldades de transporte e armazenamento. Dessa forma, a recomendação é combinar tecnologia e gestão para acompanhar os estoques, reduzir desperdícios e preservar as margens.

Outra alternativa que ele aponta é o relacionamento com produtores locais e a adoção de estratégias comerciais que também possam ajudar a escoar rapidamente produtos perecíveis quando houver risco de acúmulo.

“Em cenários como o que estamos vivenciando, mais do que dominar ferramentas de inteligência artificial, é crucial que os empreendedores, sobretudo os menores, adotem medidas simples, como rever constantemente seus níveis de estoque. Além de proteger as margens do negócio, essas medidas ajudam a reduzir o risco de ruptura nas gôndolas e fortalecem as operações, mesmo em cenários de falhas logísticas”, afirma.

Abras recomenda diversificação e planejamento

Para o vice-presidente da Abras, Márcio Milan, o possível agravamento do El Niño também exige atenção, mas ainda não permite dimensionar com precisão os impactos que poderão chegar ao varejo e ao consumidor.

Ele destaca que o supermercado é o ponto em que as alterações ocorridas ao longo da cadeia se tornam mais perceptíveis. “O supermercado é a ponta de contato com o consumidor e, por isso, é onde os efeitos de alterações na cadeia de abastecimento acabam se tornando mais visíveis, seja na disponibilidade dos produtos, seja nos preços”, assinala.

De acordo com Milan, um El Niño mais intenso deve impactar a agricultura, entretanto, não de forma homogênea. “Depende da região, da cultura, da intensidade e da duração do fenômeno”, explica.

Por isso, segundo ele, ainda não é possível antecipar a dimensão ou por quanto tempo os efeitos poderiam atingir o varejo e os consumidores. Mas sugere que façam planejamentos e acompanhem as condições climáticas e seus reflexos sobre produção, abastecimento e logística para ajustar as operações com antecedência. “A diversificação das fontes de abastecimento e a agilidade na reposição ganham ainda mais importância”, recomenda.

É o que tem feito o Hiper Comercial Monlevade, de João Monlevade, no Vale do Aço. Conforme pontua o diretor da empresa, Marco Antônio Leite, eles decidiram antecipar a compra de inseticidas diante da expectativa de aumento de temperatura e umidade.

Embora os impactos efetivos dependam da intensidade e da duração do fenômeno, Leite explica que já começam a incorporar as projeções climáticas ao planejamento. Segundo ele, as condições do clima influenciam diretamente categorias como frutas, hortifrutigranjeiros e açougue. No entanto, para os produtos perecíveis, não há como estabelecer estoques ou preços com muita antecedência, já que as condições de oferta mudam rapidamente.

“O impacto mais concreto, só saberemos quando o evento acontecer, porque o mercado é muito instantâneo. Quando se trata de hortifruti, produtos perecíveis, entre outros, o preço é quase que diário. Então, essas tratativas prévias não têm jeito de fazer, porque a gente não sabe o que vai acontecer”, explica.

Uma exceção encontrada pela empresa está nos inseticidas. A expectativa de maior umidade e temperatura, associada à possibilidade de aumento na incidência de mosquitos, levou o supermercado a reforçar o planejamento da categoria.

“Estamos fazendo uma compra 30% maior do que temos costume”, afirma Leite. Segundo ele, a decisão também considera o desempenho fraco das vendas no ano anterior, quando houve menor incidência de dengue e, consequentemente, menor procura pelos produtos.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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