Macaúba ganhará escala em Minas para virar combustível sustentável de aviação
O aquecimento global vem exigindo cortes urgentes nas emissões globais de gases de efeito estufa. Dentre os setores econômicos, a aviação é um dos que geram grandes emissões, pelo alto volume de combustível utilizado, e que tem desafiado as empresas a buscarem alternativas para substituir o querosene por um combustível sustentável. Nesse contexto, a Acelen Renováveis, empresa de energia criada pelo fundo Mubadala Capital, tem investido no uso da macaúba – planta brasileira de alto potencial energético, capaz de produzir de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare do que a soja – como matéria-prima para a fabricação do Combustível Sustentável de Aviação (SAF, em inglês) e diesel renovável.
A estimativa é que a Mubadala Capital invista até US$ 13,5 bilhões no País ao longo dos próximos anos. O projeto será dividido em cinco fases e a primeira já está em desenvolvimento. Até 2029, o aporte previsto é de US$ 3 bilhões. Com parte do recurso, cerca de R$ 314 milhões, foi construído e inaugurado, há um ano, o Centro de Inovação Tecnológica Agroindustrial (Acelen Agripark), em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. A unidade tem papel fundamental no desenvolvimento da macaúba.
Os US$ 3 bilhões também serão aplicados em uma biorrefinaria (em construção na Bahia), pesquisas e aquisição de fazendas para o plantio comercial da macaúba. A partir da macaúba, a Acelen Renováveis vai produzir 1 bilhão de litros por ano de biocombustíveis totalmente drop in, com potencial de reduzir em até 80% as emissões de CO₂ em relação aos combustíveis fósseis, sem considerar ainda o sequestro de carbono proporcionado pelo cultivo.
O diretor de Agronegócios da Acelen Renováveis, Victor Barra, explica que o projeto da macaúba abrange desde a pesquisa agrícola até o abastecimento da biorrefinaria planejada para iniciar as operações em 2029.
“O Agripark é uma estrutura que foi idealizada e construída para ser o centro de inovação e tecnologia da macaúba. Dentro do nosso site, temos aproximadamente 300 funcionários e o nosso foco é desenvolver a tecnologia para a cadeia de macaúba, desde os processos de produção de fruto, extração de óleo e todos os produtos acabados, sementes, mudas e protocolos (manejo agronômico, de nutrição, de colheita, de produtividade) que vão ser utilizados para cultivar essa planta”.
A projeção é que todas as mudas que irão abastecer o projeto da Acelen Renováveis saiam da unidade. O objetivo é plantar mais de 144 mil hectares com macaúba e, assim, alimentar a biorrefinaria, em construção na Bahia e que representa a primeira fase do projeto.
“O projeto será dividido em cinco fases e, em cada fase, vamos construir uma biorrefinaria, onde o investimento total pode chegar a US$ 13,5 bilhões, conforme informado pelo nosso acionista Mubadala. Então, é a Acelen trazendo o desenvolvimento, potencializando a economia regional e gerando não só emprego, mas conhecimento para que a gente possa, de fato, fortalecer essa agricultura regional e fortalecer também o Brasil como líder na economia verde”, confirma.
Com um ano de operação, Agripark permitiu avanços significativos
Um dos maiores desafios para o plantio comercial da macaúba é o baixo índice de germinação na natureza. Com pesquisa e inovação, a Acelen conseguiu acelerar o processo. Enquanto na natureza apenas cerca de 5% das sementes da palmeira conseguem germinar, a Acelen, em parceria com a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), conseguiu alcançar taxas de germinação superiores a 80%.
O avanço aconteceu com a instalação de uma biofábrica no Agripark. Em 1,5 mil metros quadrados, a Acelen conseguiu robotizar o processo de escarificação, que antes era manual, e, agora, tem capacidade de escarificar até 1,7 milhão de sementes por mês e produzir 10,5 milhões de mudas por ano. O ritmo é considerado fundamental para a produção de mudas em escala comercial.
A supervisora do Laboratório de Germinação da Acelen Renováveis, Maria Tereza Assis Batista, explica que um dos grandes pilares da empresa é a tecnologia. Assim, foi desenvolvida uma linha robotizada e aplicada inteligência artificial (IA) com a função de identificar e realizar a escarificação da semente de forma precisa.
“É um corpo cirúrgico em alta escala, ou seja, em escala comercial. Nós temos embarcadas nos robôs 16 inteligências artificiais com a função de garantir, no final do dia, toda a qualidade e produtividade da semente de macaúba. É um procedimento bem preciso, onde desenvolvemos uma ferramenta para, de fato, chegar no cenário ideal e não danificar o embrião, que é o grande objetivo nosso”, revela.

Maria Tereza Assis explica ainda que, segundo dados científicos, a semente de macaúba tem baixo potencial de germinação na natureza, ficando entre 3% e 5%: “Com os nossos protocolos e procedimentos, conseguimos chegar a resultados acima de 80%. Dentro da escala comercial, sem toda essa tecnologia embarcada, os processos, as melhorias, não seria possível alcançar os nossos objetivos”.
Além da escarificação automática, a Acelen também mantém um time responsável por fazer o processo manual. Com um bisturi, a equipe, altamente treinada, faz uma incisão na semente, extremamente cirúrgica para não danificar o embrião.
“Além de ter as 16 inteligências artificiais, o grande desafio do processo é treinar essas IAs. Então, toda vez que a gente precisa treinar a IA, nós submetemos uma série de sementes para ajustar e ter maior precisão. Como a gente precisa trabalhar com um volume de produção muito grande, definimos uma faixa de operação de trabalho para as IAs operarem e tudo que excede essa faixa, para mais ou para menos, a gente direciona o processo manual”, explana a supervisora.
Pesquisas contínuas
Mesmo com os avanços já alcançados, as pesquisas para estimular a maior germinação das sementes de macaúba não param e estudos já mostram avanços na germinação sem a necessidade de escarificação. Conforme o diretor de Agronegócios da Acelen Renováveis, Victor Barra, a técnica em desenvolvimento combina temperatura e umidade.
“As pesquisas são constantes e estamos conseguindo avançar em uma técnica que amplia o índice de germinação da semente da macaúba sem a escarificação. Isso é importante porque reduz os risco de doenças, fungos e de perdas”.
Utilizando técnicas inovadoras, hoje, a Acelen conseguiu reduzir o tempo de germinação de cerca de 90 dias, sem a escarificação, para 30 dias. A redução do tempo é importante para acelerar o plantio da macaúba, que deve somar cerca de 144 mil hectares. Hoje, são cerca de 640 hectares já plantados e, até o final do ano, a projeção é alcançar 2,2 mil hectares cultivados.
Os avanços também abrangem a produção de mudas e o plantio. A empresa utiliza tubetes biodegradáveis e sistemas de rastreabilidade que permitem o acompanhamento individual de cada planta. Há ainda o viveiro capaz de produzir 10,5 mil mudas de macaúba ao ano. O espaço conta com tecnologia de ponta, sendo capaz de controlar as condições climáticas e garantir o pleno desenvolvimento das mudas.
“Recentemente, nós desenvolvemos um novo protocolo de produção de mudas, chamado Viveiro 2.0, e, com isso, em termos de produtividade operacional, vamos revolucionar. São mudas que vão ficar prontas com qualidade muito superior em um tempo muito mais curto e vão permitir a mecanização do plantio. Isso vai dar potencial de escala a esse projeto. Que a gente possa plantar milhares de hectares utilizando máquinas e não somente a mão de obra manual”, disse Barra.
Todas as etapas de produção são avaliadas constantemente no LabNext, laboratório responsável pelo controle de qualidade, pesquisas e desenvolvimento. A unidade tem capacidade de realizar 160 mil análises por ano e conta com 87 equipamentos de alta tecnologia. O laboratório é capaz de realizar 93 tipos de análises que vão desde a água utilizada, passando pelo solo, sementes, frutos, óleo até os efluentes.
Do óleo de macaúba ao combustível de aviação
Dominando do plantio à extração, o Agripark também abriga a única extratora de óleo de fluxo contínuo de macaúba do mundo. “A extração do óleo de macaúba no Agripark, em Montes Claros, é uma operação que a gente iniciou em dezembro de 2024 e vem se aperfeiçoando dia após dia. Nós temos duas linhas de extração, uma linha que lembra muito a linha de extração de óleo de palma e uma outra linha que lembra muito a extração de azeite de oliva”.
Ainda segundo Barra, as duas linhas são estudadas e o objetivo é entender quais equipamentos vão melhor performar, quais serão os melhores rendimentos, o menor custo e a melhor qualidade de produto.
“Esse óleo extraído da macaúba vai virar combustível de aviação. O nosso foco com a macaúba é sair da semente ao combustível de aviação ou diesel renovável. A gente fala muito do combustível de aviação porque é um setor mais difícil de descarbonizar e de fazer um substituto. O combustível que a refinaria de Mataripe, em São Francisco do Conde (BA), produzirá é drop-in, ou seja, é a mesma molécula do querosene de origem fóssil utilizado hoje. Então, não tem que fazer nenhum ajuste na aeronave, nenhum ajuste no fluxo do logístico de abastecimento. É simplesmente colocar o combustível no tanque e voar”.
*A repórter viajou para Montes Claros a convite da Acelen Renováveis
Ouça a rádio de Minas