Agronegócio

Estiagem, custos e incertezas globais desafiam produtores de milho em Minas Gerais

Incertezas climáticas e geopolítica pressionam rentabilidade, exigindo planejamento rigoroso
Estiagem, custos e incertezas globais desafiam produtores de milho em Minas Gerais
No Triângulo, grande parte das lavouras é de sequeiro e dependência climática é fator crítico | Foto: Wenderson Araujo / Trilux / CNA

A combinação de fatores como incertezas climáticas, alta de custos e impactos da geopolítica internacional tem reduzido as margens e elevado o nível de atenção no campo, especialmente em regiões estratégicas como o Triângulo Mineiro, deixando em alerta os produtores mineiros.

Quem chama atenção para o fato é o produtor mineiro e diretor da Maizall/Abramilho, Pedro Ottoni, que participou do 4º Congresso da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), em Brasília, na quarta-feira (13).

Segundo Ottoni, o cenário atual exige cautela e planejamento rigoroso. “O desafio hoje é mais apertado. A gente já sabe manejar bem a lavoura, tem tecnologia, mas o custo está muito alto, e isso está comprimindo a margem do produtor”, afirmou.

Em Minas Gerais, o principal problema, segundo Ottoni, vem do clima. A segunda safra de milho, a chamada safrinha, foi impactada por um atraso no plantio e pela falta de chuvas em abril. “A janela ideal de plantio é fevereiro, mas, como choveu muito, houve atraso. Plantar em março aumenta o risco”, explicou Ottoni.

A estiagem de abril registrou apenas 30 milímetros de chuva, agravando o quadro. As lavouras sofreram estresse hídrico justamente no período de desenvolvimento e o impacto já aparece nas projeções. “O nível de produtividade já foi revisado para baixo, e isso vai afetar a produção e a recuperação do produtor mineiro deste ano”, disse.

O Triângulo Mineiro é a região mais afetada, conforme acrescentou Ottoni, devido à combinação de altas temperaturas e à escassez maior de chuvas. “Como grande parte das lavouras é de sequeiro, a dependência climática se torna um fator crítico”, revelou.

Pedro Ottoni
Pedro Ottoni: produtor tem que fazer “muita conta” | Foto: Diário do Comércio / Juliana Sodré

Apesar da expectativa inicial de aumento na produção nacional, a revisão para baixo não foi suficiente para impulsionar os preços. De acordo com Ottoni, o mercado internacional segue abastecido, especialmente com uma safra forte nos Estados Unidos. “A lógica seria reduzir oferta e subir preço, mas isso não aconteceu. O mercado ainda não precificou essa queda”, analisou.

Com isso, o produtor enfrenta um cenário de rentabilidade menor. “Ele vai ter lucro menor e margem mais apertada”, comentou.

Geopolítica ganha atenção dos produtores

Outro fator de peso ressaltado por Ottoni para o produtor este ano é o aumento dos custos de produção, impulsionado por fatores internacionais. Fertilizantes, diesel e insumos agrícolas sofreram forte elevação, pressionando ainda mais o caixa do produtor.

Segundo o diretor da Maizall, os fertilizantes são um dos principais pontos de preocupação. O encarecimento está ligado não apenas à guerra e ao petróleo, mas também a movimentos estratégicos de grandes produtores globais. “A China está segurando enxofre para produção de bateria, e isso afeta diretamente o fosfatado, que é base da adubação do milho”, revelou.

Além disso, a Rússia já sinalizou redução nas exportações de fertilizantes, o que pode agravar a escassez global. Empresas do setor também alertam para possível falta de fosfatados no mercado internacional.

A forte volatilidade do diesel ao longo da safra tem sido outro desafio: “Eu pagava R$ 5,36 no litro, chegou a R$ 7,49 e agora está em torno de R$ 5,96. Ainda assim, houve aumento, e isso impacta diretamente o custo da produção”.

Milho brasileiro em alta

Em uma visão mais ampla, Ottoni esclareceu que no cenário externo, o milho brasileiro ganhou protagonismo nos últimos anos. O País passou de importador a um dos três maiores exportadores do mundo, ao lado de Estados Unidos e Argentina. Hoje, mercados como Irã e China são destinos relevantes e as incertezas políticas acabam virando pauta dos produtores.

No entanto, o crescimento da produção de etanol de milho abre novas perspectivas internas. A expectativa de aumento na mistura de biocombustíveis na gasolina pode elevar a demanda doméstica, reduzindo a dependência das exportações. “A gente produz milho mais do que consome e o biocombustível é uma oportunidade interna relevante”, diz.

Para Ottoni, discutir geopolítica no setor é essencial: “O milho virou uma cultura estratégica. A gente precisa entender o cenário global para tomar decisão dentro da fazenda.”

Diante desse conjunto de desafios, a palavra de ordem, segundo o diretor da Abramilho, é planejamento. A safra atual pode até não trazer perdas generalizadas, mas já sinaliza um cenário mais complexo para o agronegócio mineiro, em que eficiência, gestão e leitura de cenário serão determinantes para manter a competitividade. “Com custos elevados, clima imprevisível e mercado instável, o produtor tem que ficar esperto e fazer muita conta”, resumiu Ottoni.

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