Agronegócio

Dependência externa e falta de planejamento desafiam agro brasileiro em cenário global

Especialistas discutem a vulnerabilidade do setor com foco na importação de fertilizantes e a necessidade de fortalecer a comunicação do agro brasileiro
Dependência externa e falta de planejamento desafiam agro brasileiro em cenário global
Foto: Diário do Comércio/Michelle Valverde

O agronegócio brasileiro enfrenta um cenário de desafios significativos, que foram agravados com os conflitos globais. Apesar de ser uma das maiores potências agrícolas e pecuárias do mundo, o País ainda depende fortemente de um dos principais produtos que sustentam a atividade: os fertilizantes. Essa dependência traz maior vulnerabilidade ao agronegócio, que enfrenta aumentos de preços como os vistos recentemente devido à guerra no Oriente Médio, desencadeada pelo conflito entre Irã e Estados Unidos.

Durante o Alagro Summit, evento que reuniu representantes do setor agropecuário nacional, em Belo Horizonte, especialistas discutiram os desafios e defenderam que o Brasil precisa investir em alternativas nacionais para suprir a demanda pelos fertilizantes e também fortalecer a imagem do agronegócio no mundo através da melhor comunicação.

O presidente da Academia Latino-Americana do Agronegócio (Alagro) – entidade organizadora do Alagro Summit -, Manoel Mário de Souza Barros, destacou que o receio que o setor vive frente à alta dependência da importação de fertilizantes é grande. Segundo ele, o Brasil importa quase 90% do insumo total utilizado nas lavouras. O fechamento do Estreito de Ormuz, por exemplo, é visto como um fator de risco para o setor e a geoeconomia global.

“A dependência do Brasil de fertilizantes importados, com 90% do total, é um ponto de grande preocupação. O fechamento do Estreito de Ormuz criou um cenário gravíssimo na geoeconomia global, ou seja, um estrangulamento da economia global. Este ano, a projeção é de uma safra recorde de grãos no Brasil, que segundo a Conab pode chegar a quase 360 milhões de toneladas. Esse crescimento contrasta com a preocupação de uma possível redução da produtividade na próxima safra, devido à exaustão dos solos e à dificuldade de acesso a fertilizantes. Então, são situações difíceis e, até hoje, eu não vi o governo discutir esses impactos que o Brasil vai sofrer”, explicou.

O professor sênior e coordenador do centro “Insper Agro Global”, Marcos Sawaya Jank, explicou que a crise geopolítica mudou para uma crise geoeconomica, caracterizada pela bipolaridade entre Estados Unidos e China, pelo retorno do protecionismo e a valorização da segurança nacional em detrimento do livre-comércio.

“Essa fragmentação global impacta diretamente o agronegócio, com o Estreito de Ormuz, por exemplo, afetando o fornecimento de petróleo, gás natural e fertilizantes. A situação atual apresenta um risco de desabastecimento e uma incerteza sem precedentes”.

Ainda conforme Jank, as commodities, incluindo as agropecuárias, estão no centro das disputas globais e o Brasil, com 75% das exportações sendo commodities, tem uma posição estratégica. No entanto, há vulnerabilidades, como a dependência de fertilizantes e a falta de refinarias para produzir diesel, apesar de ser exportador de petróleo. “Apesar dos desafios, o Brasil possui uma grande oportunidade nesse momento para se posicionar como líder em agricultura sustentável, bioenergia renovável e minerais críticos”.

Brasil avançou em tecnologia e inovação, mas ainda falta planejamento, gestão e comunicação

O diretor do Centro Global Agroambiental da Fundação Dom Cabral (FDC), Marcello Brito, explica que o Brasil avançou fortemente na evolução agronômica nos últimos 50 anos, mas, faltam estratégia e gestão no agronegócio brasileiro.

“O Brasil no agronegócio é quase imbatível em termos agronômicos, mas ainda está no século passado em gestão econômica, financeira e ambiental. O Brasil ainda precisa de uma estratégia robusta. A questão dos fertilizantes é um exemplo. O Plano Nacional de Fertilizantes, que deveria ter sido implementado em 2010, só saiu em 2022 e foi revisado em 2023, prevendo que até 2050 o País ainda terá 50% de dependência externa”.

Segundo Brito, há um potencial não explorado para reduzir a dependência, como a produção de biometano para diminuição do uso de diesel e a produção de fertilizantes a partir de dejetos de aves e suínos. “Mesmo com o potencial, não existe política pública para tal, não existe o sistema de financiamento. A falta de uma política de fertilizantes no Brasil contrasta com a existência de políticas nos Estados Unidos, Europa e China, sendo que a China, inclusive, bloqueia a exportação de produtos de interesse do Brasil”, analisou.

O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, ressaltou que a questão da comunicação e do “orgulho nacional” em relação ao agro é falha, assim, é preciso investir em campanhas de marketing para mostrar o potencial e a importância do setor, inclusive para garantir o abastecimento global, combater a fome e ser instrumento da paz.

“A maioria dos brasileiros não reconhece a importância do agronegócio para o País e, consequentemente, não sente orgulho. Essa falta de orgulho impede a valorização do setor e a transformação desse sentimento em ação concreta. Quando a população se orgulha do que fez, você transfere isso ao governo que vai agir para defender, como acontece na França. Isso é o que nos falta. Eu quero ser campeão mundial da paz através do agro”, defendeu o ex-ministro.

Para o conselheiro da Alagro, José Luiz Tejon, a incompetência de comunicação do Brasil, que não consegue transmitir a grandeza e a tecnologia embarcada em sua produção agrícola, é um gargalo. “Existe um déficit brutal entre o tamanho da nossa realidade e a nossa percepção e esse déficit é resolvido com a estratégia de propaganda, com estratégia de comunicação inteligente, carinhosa, empática, humana. Precisamos fazer a comunicação brasileira com carinho, com empatia e jamais retaliar os agricultores de outros países”, concluiu.

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