Economia

Acordo Mercosul-União Europeia amplia participação de europeus no comércio com Minas Gerais

Tratado comercial abre novas oportunidades e reconfigura a balança de exportações mineiras para o bloco europeu
Acordo Mercosul-União Europeia amplia participação de europeus no comércio com Minas Gerais
Crédito: Divulgação

O acordo comercial firmado entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE), em vigor desde a última sexta-feira (1º), abre uma nova janela de oportunidades para Minas Gerais reconfigurar a composição das exportações. Isso porque o tratado oferece alguns instrumentos para que novos mercados compradores, até então com menor relevância na balança comercial, possam ampliar sua participação.

De acordo com dados do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), o Estado exportou cerca de US$ 573,95 milhões ao bloco europeu em março deste ano. Entre os principais destinos, Alemanha e Itália aparecem como destaques, com US$ 133,64 milhões e US$ 127,94 milhões, respectivamente. Em seguida, aparecem Bélgica (US$ 78,56 milhões) e os Países Baixos (US$ 70,27 milhões).

Já um relatório feito pela Apex Partners demonstra que Minas Gerais exportou US$ 7,5 bilhões para o bloco europeu no ano passado, o equivalente a 16,45% do valor total de exportações no período. Desse montante, a agroindústria é o setor com maior participação (77%), com R$ 5,782 bilhões. Em seguida, aparecem a indústria de transformação (20,4%) e a extrativa mineral (2,4%).

O diretor econômico da Apex, Orlando Caliman, avalia que o acordo Mercosul-União Europeia abre espaço para novos mercados e para novos parceiros comerciais de Minas. Ele menciona alguns setores que podem ser muito explorados a nível internacional: as áreas da mineração, como de terras raras; alguns segmentos do agronegócio, como café e a soja; e o setor de turismo.

Além destas, o especialista ainda cita as oportunidades no setor energético, principalmente no caso das fontes renováveis, na qual a região Norte de Minas Gerais está entre os destaques quanto à produção de energia solar fotovoltaica. As áreas de produção de açúcar e etanol também apresentam grande potencial nesse quesito.

“A Europa tende a acelerar o processo de substituição dos chamados combustíveis fósseis e Minas pode avançar neste aspecto”, diz.

Café não torrado domina exportações mineiras para a UE

De acordo com o estudo, o café não torrado foi o grande destaque mineiro no comércio com o bloco europeu, com US$ 5,569 bilhões exportados ao longo de 2025. A Apex Partners pontua que a previsão é de que o produto tenha uma eliminação imediata ou gradual de tarifas, que atualmente é de 4,2%, em média.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Café do Estado de Minas Gerais (Sindicafé-MG), Sérgio Meirelles Filho, acredita que o setor de café só tem a ganhar com esse acordo e ressalta que o Estado responde por cerca de 50% de toda a produção nacional de café, com destaque para os produtos especiais.

Além disso, ele avalia que países como Portugal podem ampliar as importações do grão plantado na região, e que o Brasil poderá ter uma vantagem frente à grande maioria dos demais produtores mundiais de café. “Nós vamos ter vantagens frente aos outros concorrentes em todos os países da comunidade econômica europeia”, afirma.

Demais destaques em Minas Gerais

Minério de ferro
Foto: Divulgação/Vale

Logo atrás do café aparece o grupo formado pelo ferro-gusa, spiegel, ferro-esponja, grânulos e pó de ferro ou aço e ferro-ligas, que registrou US$ 573 milhões em exportações para o bloco europeu no ano anterior. A tarifa média atual praticada para esses produtos é de 2,1%. A expectativa, assim como no caso do café não torrado, é de eliminação gradual ou imediata das tarifas, dependendo do produto.

“Essa é a linha que Minas é o maior produtor no Brasil”, pontua o diretor econômico da Apex Partners.

Além disso, Caliman menciona as oportunidades que o acordo oferece para o setor de celulose, em que o Estado ainda não possui um grande volume de exportações para a UE, com US$ 202 milhões no ano anterior. “Mas não significa que Minas não possa exportar, tendo em vista os benefícios relativos à questão da celulose”, acrescenta.

O levantamento aponta ainda que a carne bovina fresca, refrigerada ou congelada é a mais taxada, com uma média de 51%. Além disso, ela foi a que registrou o menor volume de exportações entre os destaques da pesquisa, com US$ 63 milhões em 2025. No entanto, o especialista avalia que o acordo comercial poderá trazer alguns ganhos para esse mercado.

A assessora técnica do Sistema Faemg Senar, Aline Veloso, relata que a carne bovina está saindo de um cenário com elevadas restrições para exportações e migrando para um ambiente mais favorável, com cotas tarifárias.

“Estamos saindo de uma questão de tarifas e impactos diretos e passando para um cenário de cotas. A negociação passa a ser diferenciada para manter ou ampliar o volume de exportações para esses países”, acrescenta.

Além deste, ela cita outros setores que também devem se beneficiar com o acordo. Entre eles, estão o segmento de carne suína e de aves, a pecuária, os produtores de óleos e gorduras vegetais, e a indústria açucareira, apesar das restrições para esta última.

A especialista ainda aponta para as oportunidades que o acordo oferece para o segmento de produtos certificados e alimentos processados. Esse mercado, segundo ela, poderá agregar ainda mais valor aos bens produzidos no Estado para atender a demanda da Europa e demais localidades.

Consolidação da União Europeia entre os principais parceiros de Minas

Navio de exportação
Foto: Reprodução Adobe Stock

Um estudo realizado pela Fiemg, demonstra que o Estado concentrou cerca de 15% de todas as exportações brasileiras destinadas ao bloco em 2025. Além disso, Minas é o segundo Estado com maior superávit comercial com a União Europeia, com saldo positivo de US$ 4 bilhões no ano passado. Lembrando que o bloco europeu é o segundo maior parceiro comercial dos mineiros, atrás apenas da China.

O analista de negócios internacionais do CIN/Fiemg, Felipe Ramon, afirma que o acordo Mercosul-União Europeia tem um viés muito positivo para Minas Gerais, devido à diversificação da pauta exportadora. Porém, ele também pondera que há questões que exigem cautela na análise dos impactos. Os setores mais pulverizados – como a indústria de vestuários, calçados e autopeças – podem sofrer com o aumento da concorrência no mercado interno.

“Existem alguns mecanismos no acordo que nós podemos utilizar para reverter essas tarifas caso exista uma comprovação de que houve um surto de importação que esteja prejudicando a indústria”, ressalta.

Vale lembrar que alguns membros do bloco europeu já estão entre os principais parceiros comerciais do Estado. Ramon acredita que o acordo oferece oportunidades para que Minas possa atender todos os países da UE, uma vez que o bloco econômico é bastante integrado, possibilitando a livre comercialização de produtos internamente. Isso faz com que os produtos mineiros que chegam em um porto dos Países Baixos, por exemplo, possam circular pelo território europeu.

Já o pesquisador da Fundação João Pinheiro (FJP) Lucio Barbosa destaca que a posição da União Europeia já é bem consolidada no portfólio de parceiros comerciais, mas ainda com possibilidades de expansão ao longo dos próximos anos. “Considerando que o comércio com os Estados Unidos está em queda, esse acordo pode fortalecer a posição da Europa como segundo maior parceiro comercial”, projeta.

Para Orlando Caliman, o acordo representa uma grande oportunidade para Minas reduzir sua dependência do mercado americano, mas sem perspectivas para superar o mercado chinês, que deverá seguir em franco crescimento. Ele avalia que o bloco tem capacidade para ampliar sua vantagem sobre os Estados Unidos, principalmente se considerar todo o imbróglio envolvendo o tarifaço, mas se o cenário no futuro for de pacificação nas relações, os EUA também poderão apresentar crescimento.

Ainda sobre o portfólio de parceiros comerciais, Aline Veloso pontua que não apenas Minas Gerais, mas todo o Brasil terá grandes possibilidades de ampliar as exportações para outros países que integram o bloco. Entre os setores de maior destaque ela cita as commodities, os produtos processados e aqueles com certificações e maior rastreabilidade.

“O mercado europeu é caracterizado por um público consumidor de renda mais elevada e com grande apetite por produtos diferenciados”, conclui.

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