Apesar das vantagens, acordo com União Europeia também oferece riscos para indústria local
O acordo comercial entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE), válido desde a última sexta-feira (1º), representa uma grande oportunidade para alguns setores da economia mineira, como a agroindústria. No entanto, ele também aumenta os riscos de entrada de produtos europeus mais competitivos no mercado interno, impactando alguns segmentos presentes em Minas Gerais.
Um relatório da Apex Partners aponta que o Estado exportou US$ 7,5 bilhões para o bloco ao longo de 2025, o equivalente a 16,45% do valor total de exportações no ano passado. A agroindústria foi o setor com maior participação, com 77% do total ou R$ 5,782 bilhões. Em seguida, aparecem a indústria de transformação e a extrativa mineral, com 20,4% e 2,4% do montante exportado, respectivamente.
O diretor econômico da Apex, Orlando Caliman, avalia que o acordo oferece uma relação de ganha-ganha para ambos os envolvidos, apesar de também conter alguns pontos que merecem maior atenção. “Na soma de ganhos e perdas, o resultado é positivo para os dois lados”, afirma.
- Leia também: Acordo Mercosul-UE beneficia Minas entre as Onças Brasileiras e fortalece exportações de café
Ele explica que o acordo possui uma série de salvaguardas, principalmente para proteger a indústria automobilística da Europa, o que pode impactar, em algum grau, o mercado mineiro. O grupo dos motores de pistão e suas partes está entre os destaques de Minas no estudo, com US$ 71 milhões exportados no ano anterior, 2,8% de tarifa média e expectativa de eliminação dessas taxas no decorrer da duração do acordo.
No entanto, esse é o segmento em que, segundo Caliman, as eliminações de tarifas deverão levar mais tempo para serem implementadas. “A liberação mais ampla só vai chegar, praticamente, em 17 anos”, projeta.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que mais de 5 mil produtos passaram a ter tarifa zero no mercado europeu assim que o acordo entrou em vigor, o equivalente a 80% das importações da União Europeia de bens brasileiros em 2025. Entre eles, alguns já são livres de alíquotas de importação, enquanto outros 2.932 itens passaram a ter redução imediata, sendo a maioria (93% ou 2.714) bens industriais. Quanto aos setores, os destaques são:
- Máquinas e equipamentos (21,8%);
- Alimentos (12,5%);
- Produtos de metal (9,1%);
- Máquinas, aparelhos e materiais elétricos (8,9%);
- Químicos (8,1%).
Novas oportunidades para Minas Gerais

De acordo com dados da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), o Estado respondeu por cerca de 15% das exportações do País para a UE no último ano. Minas também registrou o segundo maior superávit na balança comercial com a União Europeia, com saldo positivo de US$ 4 bilhões no período.
O analista de negócios internacionais do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Fiemg, Felipe Ramon, explica que o acordo apresenta algumas frentes interessantes de oportunidades para a economia mineira, como no segmento de café industrializado e alimentos processados.
Além disso, ele relata que já existem algumas parcerias com a UE voltadas para mercados em que o Minas Gerais possui uma cadeia integrada e capaz de fazer o beneficiamento em território mineiro, como é o caso das rochas ornamentais.
“Nós temos algumas cadeias industriais que já estão muito bem integradas, como é o caso da de medicamentos, que possui empresas europeias importantes aqui em Minas, assim como do setor automotivo. Também temos uma parceria importante no setor de siderurgia e até no setor aeronáutico”, pontua.
Quanto à diversificação dos produtos, Ramon esclarece que vai depender do processo de industrialização de alguns segmentos no mercado mineiro. Ele avalia que a pauta exportadora de Minas segue concentrada nos itens básicos, mas, como foi apresentado anteriormente, ele lembra que também existem certo nível de comércio de bens mais trabalhados, que poderão ser melhor aproveitados.
- Leia também: Indústria mineira busca aumentar competitividade para se beneficiar do acordo Mercosul-EU
A assessora técnica do Sistema Faemg Senar Aline Veloso esclarece que o acordo não necessariamente criará um mercado livre, mas, sim, um ambiente marcado pela disputa por volume. Isso fará com que produtores rurais mais eficientes e integrados possam ter maiores ganhos.
Outra vantagem citada pela especialista é a atração de investimentos para o desenvolvimento de novas tecnologias em solo nacional. Ela ressalta que todo esse processo fará com que o País possa atingir outros mercados e firmar novos acordos comerciais, como já vem ocorrendo com muitos produtos mineiros.
Aline Veloso ainda destaca a necessidade de apostar em inteligência comercial e em competitividade para ingressar em nichos mais qualificados e premium. Além disso, também é importante que haja uma redução do chamado “custo Brasil”, melhorias na área de logística e no acesso ao crédito para inovação e inserção tecnológica.
Consolidação das exportações de bens primários
Já o pesquisador da Fundação João Pinheiro (FJP) Lúcio Barbosa acredita que a tendência para os próximos anos é de consolidação dos produtos que já possuem grande destaque. Ele relata que já há algumas trocas comerciais no mercado de peças de aeronaves, por exemplo, podendo ser uma cadeia produtiva de valor agregado com potencial de crescimento.
A expectativa é de intensificação da exportação de bens primários frente aos produtos de maior valor agregado. Além disso, o cenário atual, conforme o especialista, não oferece muitas possibilidades de abrir novos parceiros por meio deste acordo, já que a conjuntura ainda é muito refratária ao comércio.
“A tendência é de os países ficarem cada vez mais cautelosos em relação à abertura comercial e às trocas comerciais”, avalia.
Impacto reduzido do acordo Mercosul-União Europeia na economia

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) chegou a realizar um estudo em 2024 estimando os impactos macroeconômicos do acordo Mercosul–União Europeia. Ele aponta um possível aumento de 0,46% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil ao longo de 17 anos. Esse desempenho equivale a aproximadamente R$ 9,3 bilhões a preços constantes de 2023.
O pesquisador da FJP explica que os efeitos deverão ser levemente positivos, sem grandes avanços no PIB ou na economia brasileira. No entanto, o fato de o País e do Estado serem muito competitivos no agronegócio poderá gerar bons resultados, mas com a manutenção dos desafios envolvendo o setor industrial, como o segmento automobilístico.
“Nós importamos muitos veículos para a Argentina, mas com o acordo com a União Europeia, até que ponto pode haver uma substituição do que é importado em Minas Gerais pelo país vizinho e passar a comprar de países europeus”, questiona.
A assessora técnica do Sistema Faemg Senar pondera que nem todas as cadeias produtivas serão beneficiadas. Aline Veloso esclarece que o acordo também poderá causar efeitos negativos para alguns setores, como o risco de exclusão e uma forte pressão evolutiva. “Nós podemos não conseguir externalizar isso por causa de diversos aspectos, correndo o risco de sermos penalizados”, acrescenta.
Entre os segmentos que podem sofrer com a entrada de produtos europeus mais competitivos no mercado interno está a pecuária de leite. A especialista relata que muitos setores contam com subsídios na Europa, o que pode comprometer a competitividade no mercado nacional.
Segundo ela, isso pode influenciar o desempenho de algumas das nossas cadeias produtivas, criando situações que necessitam de políticas públicas internas para serem contornadas. “A importação de produtos tem gerado algumas questões muito difíceis e delicadas para os nossos produtores”, conclui.
Ouça a rádio de Minas