Para Meirelles, o aumento da produtividade está relacionado à melhoria da educação | Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Aumento da produtividade. Olhando para frente, esse deverá ser um dos principais desafios a serem enfrentados pelo Brasil, de acordo com o ex-ministro da Fazenda e hoje secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles, que participou ontem do webinar “Encontro de Finanças com Henrique Meirelles – Cenários e Perspectivas Macroeconômicas”.

O evento foi promovido pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef-MG), com a Faculdade Fipecafi e a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).

Apesar de esse já não ser um assunto novo, Meirelles ressaltou a importância que se deve dar a ele, evidenciando números que comprovam como o País vem caindo em relação ao assunto. “Para se ter uma ideia, até o fim da década de 70, a produtividade brasileira estava aumentando e chegou a 50% da americana. Hoje, é 25% da americana”, disse.

Meirelles enfatizou que o caminho até esse ganho de produtividade passa por várias questões. Algumas delas são a reforma tributária, que está em tramitação no Congresso Nacional, e os investimentos em infraestrutura, que deverão vir, sobretudo, por meio das privatizações.

“O crescimento vai certamente ser liderado pelo setor privado. Não há recursos públicos suficientes para liderar o crescimento”, afirmou Meirelles.

Outro elemento importante apontado por ele para o aumento da produtividade está ligado à educação, que precisa ser melhor trabalhada no País. O ex-ministro da Fazenda frisou que um dos pontos fracos do Brasil é que apesar de o número de estudantes nas escolas e de os anos de permanência nas instituições de ensino, em média, terem crescido nas últimas décadas, a qualidade medida pelos critérios internacionais está caindo.

Pandemia – No entanto, embora o País tenha que superar o desafio da produtividade em um cenário de prazo maior, Meirelles lembrou que atualmente o Brasil precisa enfrentar a crise econômica provocada pela pandemia da Covid-19. Ele ponderou, ainda, que a saída desta crise está na vacina contra a doença.

Mesmo que ainda não se tenha chegado à imunização, porém, ele lembrou que está havendo uma melhora nas últimas semanas em relação ao que se previa em um primeiro momento. O auxílio emergencial, benefício do governo federal dado às pessoas de menor ou nenhuma renda, contribuiu para isso, na visão de Meirelles.

“Não há dúvida de que o auxílio emergencial, na medida em que colocou R$ 600 na mão de pessoas que estão desempregadas, deu um impulso muito importante para o mercado de consumo, principalmente o de baixa renda”, avaliou. “Evidentemente, o comércio se recuperou, portanto começa a comprar da indústria etc”, disse ele, frisando que houve um impulso importante na economia brasileira.

Nesse cenário, Meirelles fez um alerta: o auxílio emergencial foi reduzido para R$ 300. Além disso, pontuou, no momento em que ele cessar, haverá um certo ponto de interrogação em relação ao assunto.

Desafios – Para Meirelles, endividamento e imagem internacional também são desafios. Apesar de o País estar em uma situação melhor do que se previa no primeiro momento da pandemia da Covid-19, o Brasil sairá dela com alguns reflexos negativos. No webinar, o ex-ministro da Fazenda pontuou que “vamos sair com empresas e consumidores mais endividados”.

Meirelles lembrou que muitas empresas contraíram dívidas porque tomaram empréstimos durante a crise para manter o fluxo de caixa equilibrado, o que será um desafio para o momento de retomada.

Entretanto, não é só a pandemia que tem mexido com a economia brasileira. O ex-ministro da Fazenda defendeu que o País precisa trabalhar melhor a sua imagem internacional.

Ele lembrou que todas as incertezas, particularmente as questões atuais do Brasil, como as queimadas e desmatamentos, têm gerado preocupação nos investidores de outras partes do mundo. “Está havendo uma saída grande de fundos do Brasil”, destacou o ex-ministro da Fazenda.

Volatilidade do real deve continuar alta

São Paulo – A volatilidade na taxa de câmbio brasileira permanecerá alta no quarto trimestre, e o real deverá se desvalorizar e ter desempenho pior que seus pares até o fim do ano, afetado por persistentes incertezas fiscais e pelo ruído a ser gerado pelas eleições norte-americanas, avaliaram analistas do Barclays em relatório divulgado ontem.

Os profissionais recomendam a venda de uma cesta de moedas composta por real e peso chileno contra o peso mexicano. O real é a moeda mais volátil do mundo, considerando as principais divisas, e em 2020 caiu 27,9%, em termos nominais  -pior desempenho global.

No começo de 2021, o Barclays vê uma «janela de oportunidade» para moedas emergentes e ativos de risco, passada a eleição nos Estados Unidos. Nesse momento, com o debate sobre o Orçamento finalizado e a esperada retomada de discussão das propostas de reformas já apresentadas, o real pode ter performance melhor que seus rivais.

“Mas esperamos que o otimismo do mercado então se esvaia até o fim do ano (de 2021), à medida que a agenda política se tornar mais influenciada pelas eleições de 2022 (no Brasil) e preocupações com sustentabilidade da dívida e limite de gastos provavelmente ressurjam”, disseram os analistas, que seguem posicionados em uma estrutura de opção para proteção contra riscos fiscais de curto prazo e riscos globais.

Os profissionais do Barclays avaliaram ainda que os agentes de mercado deverão “ignorar” o “forward guidance” do Banco Central – ferramenta de política monetária que pretende influenciar as expectativas do mercado via comunicação.

Selic – Com investidores dando de ombros para a sinalização do BC de que não elevará a Selic, o Barclays entende que o mercado vai manter nos preços expectativas de aumentos de juros já no início de 2021.

“No entanto, poderia haver espaço para achatamento na ponta curta da curva se o regime fiscal não se deteriorar (ou seja, o teto de gastos permanecer em vigor), com o início das altas de juros podendo ser precificado para depois”, disseram.

No cenário-base do Barclays, o teto de gastos não será revogado, mas respeitado por meio de promulgação de alguns mecanismos corretivos, incluindo redução na indexação do Orçamento.

Apesar do cenário de volatilidade para o câmbio e de pressão na curva de juros, o banco privado acredita que os spreads de dívida do Brasil estão muito elevados e justificam recomendação “overweight” (acima da média do mercado).

O Barclays cita o spread entre os CDS de Brasil e México, que subiu para 85 pontos-base, de 20 pontos-base no fim de abril. “Achamos que esse diferencial de spread é injustificado pelos fundamentos da dívida externa brasileira e riscos políticos contidos. Recomendamos venda tática de CDS de cinco anos do Brasil e compra de CDS de cinco anos do México», afirma o relatório. (Reuters)