Crédito: Jonathan Ernst/Reuters

A briga comercial entre Estados Unidos (EUA) e China, que se intensificou no início desta semana, pode beneficiar o Brasil pontualmente. Entretanto, caso se prolongue, nenhum país escapará do prejuízo. Essa é a análise de especialistas sobre o tema. Ontem, a China informou que vai impor tarifas mais altas a uma série de produtos norte-americanos.

O Ministério das Finanças da China disse que vai ajustar as tarifas sobre uma lista revisada de produtos dos Estados Unidos avaliados em US$ 60 bilhões, com taxas adicionais de 20% a 25%.

O anúncio foi feito após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarar, na sexta-feira (10), que vai elevar as tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses, alegando que a China havia quebrado compromissos anteriores.

Conforme o economista e professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, a guerra comercial entre Estados Unidos e China, com troca de farpas de lado a lado, tem produzido efeitos no Brasil desde o ano passado.

Em 2018, a ameaça feita pela China de elevar as alíquotas de importação da soja foi suficiente para pressionar os preços para cima. E, com as barreiras impostas pelos chineses ao produto norte-americano, o Brasil foi favorecido, vendendo mais soja ao país asiático.

No cenário atual, o mesmo pode ocorrer, com alguns produtos brasileiros sendo beneficiados. Mas Rochlin pondera que a escalada da guerra comercial pode, no limite, causar sérios danos ao crescimento econômico mundial. “Aí prejudica todo mundo. Todo mundo vai exportar menos, inclusive o Brasil”, alerta.

Minas Gerais – Consultor de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Alexandre Brito acredita que o acirramento da guerra comercial entre EUA e China pode beneficiar o Brasil e ter impacto positivo inclusive em Minas. Isso pode ocorrer principalmente se as barreiras tarifárias impostas aos Estados Unidos pelo país asiático incluírem itens do agronegócio. Nesse caso, com o desvio de comércio, aumentam-se as chances de a China comprar produtos brasileiros.

“Você não consegue substituir a matéria-prima com muita facilidade. Então, há tendência de os chineses comprarem mais do Brasil, principalmente os produtos agrícolas”, explica.

Já no caso das exportações brasileiras aos Estados Unidos – com o país norte-americano impondo maiores tarifas aos produtos do país asiático –, o impacto não será tão sentido no Brasil. Nesse caso, segundo Brito, os produtos brasileiros teriam que disputar espaço com o de outros países fornecedores dos Estados Unidos, como México e os da União Europeia.

Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Ibmec, Adriano Gianturco reforça que, de forma geral, a guerra comercial não é positiva para ninguém. Mas a disputa atual entre EUA e China pode ter repercussão para outros países, sendo que o Brasil pode se aproveitar da situação. “Se a China diminuir as importações de produtos norte-americanos, o Brasil pode vender mais para o país asiático”, diz.

Gianturco pondera que um cenário negativo pode ocorrer se o Brasil acompanhar a atitude de confrontar a China. Segundo o Ministério da Economia, o país asiático é o maior destino das exportações brasileiras. “A guerra comercial não é boa para ninguém. Mas um país rico e grande como os EUA sofre menos o impacto”, destaca.

Trump deve se reunir com Xi Jinping em junho

Washington/Pequim – O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, disse ontem que se encontrará com o presidente chinês, Xi Jinping, no mês que vem, e que espera que suas discussões sejam “muito proveitosas”, conforme a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo se intensifica.

Ontem, a China anunciou tarifas de importação mais altas a uma série de produtos norte-americanos, incluindo vegetais congelados e gás natural liquefeito, um movimento que seguiu a decisão de Washington de elevar suas próprias alíquotas sobre US$ 200 bilhões em importações chinesas. Trump havia alertado Pequim para não retaliar.

O presidente dos EUA disse que se encontrará com Xi em uma cúpula do G-20 no Japão, no fim de junho. “Estamos lidando com eles. Temos uma relação muito boa”, disse Trump em comentários na Casa Branca. “Talvez algo aconteça. Vamos nos reunir, como vocês sabem, no G-20, no Japão, e será, eu acho, uma reunião produtiva”.

Trump, que abraçou o protecionismo como parte de uma agenda “EUA Primeiro”, acrescentou que ainda não decidiu se vai avançar com as tarifas sobre cerca de mais US$ 325 bilhões em importações vindas da China.

A China, por sua vez, disse ontem que planeja estabelecer taxas de importação variando de 5% a 25% sobre 5.140 produtos dos EUA, em uma lista que soma US$ 60 bilhões. Pequim afirmou que as tarifas entrarão em vigor em 1º de junho.

“O ajuste da China nas tarifas adicionais é uma resposta ao unilateralismo e ao protecionismo dos EUA”, explicou o Ministério das Finanças do país asiático. “A China espera que os EUA voltem ao caminho certo do comércio bilateral e das consultas econômicas e se encontrem com a China no meio do caminho”.

A perspectiva de que Estados Unidos e China estejam entrando em uma disputa sem barreiras que poderia inviabilizar a economia global tem abalado os investidores e levou a uma forte liquidação nos mercados de ações na semana passada.

“Está claro que há muito nervosismo nas negociações comerciais entre os EUA e a China e preocupação de que esteja realmente se deteriorando significativamente, e isso está impactando todas as áreas dos mercados”, disse Kristina Hooper, estrategista-chefe de mercado global da Invesco.

Entenda – Trump acusou a China de rejeitar compromissos assumidos durante meses de negociações comerciais, algo negado por Pequim.

Segundo os EUA, a China tentou excluir, de um acordo prévio, compromissos de alteração de suas leis que criariam uma nova política sobre temas que variam desde propriedade intelectual até transferências forçadas de tecnologia. Isso causou um grande revés nas negociações.

No meio das negociações da semana passada, Trump elevou as tarifas sobre produtos chineses de 10% para 25%. A mudança afetou 5.700 categorias de produtos do país asiático, incluindo modems de acesso à internet, roteadores e dispositivos similares.

Pequim disse ontem que “nunca se renderá” à pressão externa e a mídia estatal chinesa manteve um ritmo firme de comentários, reiterando que a porta para as negociações estava sempre aberta, mas afirmando que a China defenderá seus interesses nacionais e sua dignidade.

Em um comentário, a TV estatal disse que o efeito das tarifas norte-americanas sobre a economia chinesa era “totalmente controlável”.

A China também afirmou ontem que as políticas dos EUA estão ameaçando a existência da Organização Mundial do Comércio, estabelecendo uma série de queixas em uma “proposta de reforma” da OMC publicada pela organização em seu site.

Trump disse que não tem pressa para finalizar um acordo com a China. Ele novamente defendeu a elevação das tarifas pelos EUA e disse que não havia razão para os consumidores norte-americanos pagarem os custos.

Economistas e consultores do setor, no entanto, afirmam que são as empresas dos EUA que pagarão os custos e, provavelmente, os repassarão aos consumidores. Os gastos do consumidor respondem por mais de dois terços da atividade econômica norte-americana. (Reuters)