Custo da aviação dispara e reduz movimento em aeroportos do interior de Minas Gerais
A crise nos terminais, influenciada pela escalada no preço do querosene de aviação (QAV),já impacta a malha regional do interior de Minas Gerais. Entre janeiro e maio deste ano, os dez principais aeroportos mineiros transportaram 759.747: 2,9% a menos quando comparado aos 737.343 registrados no mesmo período do ano passado. Os dados são da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
O recuo, no entanto, é ainda mais acentuado em terminais de médio porte que historicamente concentravam volume relevante de operações. Uberaba, no Triângulo Mineiro, apresentou queda de 35,6% em 2026, saindo de 44.078 passageiros para 28.385.
O aeroporto Regional do Vale do Aço (Santana do Paraíso) também apresentou retração expressiva entre 2025 e 2026, com queda de 27,4%. No mesmo período, o fluxo de passageiros caiu de 63.188 para 45.898.
Montes Claros, na Região Norte de Minas Gerais também enfrenta desafios na aviação regional. Entre janeiro e maio deste ano, o terminal registrou queda 15,2% na comparação com o mesmo período de 2025, recuando de 139.245 para 118.120 passageiros.
Também registraram queda os aeroportos de Governador Valadares (-16,2%), Patos de Minas (-89,5%), Araxá (-77,5%) e Teófilo Otoni (-17%).
Esse cenário ocorre no mesmo período em que a Anac divulgou que o valor médio dos bilhetes passou a custar R$ 632,53: 11,2% a mais que os R$ 568,96 registrados no ano passado. Somado a isso, o preço do querosene de aviação (QAV) quase dobrou entre fevereiro e maio de 2026, registrando alta de 87,3%. A alta está atrelada à Guerra no Oriente Médio, que segue pressionando o mercado internacional de petróleo.
O economista e conselheiro de política econômica Stefan D’Amato, avalia que a retração da aviação regional em Minas Gerais não parece ser um fenômeno uniforme, mas um resultado da combinação entre fatores econômicos nacionais e características produtivas de cada região.
“As quedas mais intensas observadas em aeroportos como Patos de Minas e Araxá sugerem que mercados regionais menores tendem a ser mais sensíveis ao aumento do custo das viagens e aos ajustes realizados pelas companhias aéreas”, destaca.
Segundo D’Amato, em cidades com maior restrição de demanda e menor variedade de atividades econômicas, qualquer redução na oferta de voos ou aumento das tarifas produz impactos proporcionalmente maiores sobre o fluxo de passageiros.
Além disso, o aumento dos custos operacionais das companhias aéreas provavelmente detém papel relevante na retração observada nos aeroportos regionais, mas dificilmente explica todo o comportamento registrado em Minas Gerais. “Quando os custos de operação aumentam, as empresas tendem a revisar suas malhas aéreas, priorizando rotas com maior taxa de ocupação, maior frequência de passageiros e melhor retorno econômico”, explica.
A revisão, no entanto, fragiliza de forma mais acentuada a competitividade dos aeroportos regionais menores, que passam a contar com menos opções de voos, menor frequência e, muitas vezes, conexões menos atrativas. Para o economista, a tendência é de efeito dominó.
“A menor oferta reduz a atratividade do aeroporto, levando parte dos passageiros a optar pelo transporte rodoviário ou a embarcar em aeroportos maiores da região. Assim, parte da queda observada pode decorrer muito mais de uma reorganização da oferta de voos do que propriamente de uma deterioração da economia local”, argumenta.
Uberlândia nada contra a maré
Em meio ao cenário de retração generalizada, Uberlândia se consolida como exceção isolada na aviação regional de Minas Gerais. O aeroporto da segunda maior cidade do Estado registrou alta de 12,1% entre janeiro e maio deste ano frente ao ano anterior, passando de 412.365 para 462.121 passageiros transportados.
O resultado contrasta com o desempenho do restante da malha aérea do interior mineiro, consolidando a operação como uma das principais do interior do País.
Para D’Amato, Uberlândia é a principal exceção justamente por ocupar uma posição estratégica no contexto urbano nacional, funcionando como centro logístico e de serviços para o Triângulo Mineiro, o Alto Paranaíba e parte do Centro-Oeste. A economia, considerada altamente diversificada, contribui para esse cenário, combinando agronegócio de elevada produtividade, indústria, comércio atacadista, logística, saúde e ensino superior, atividades que geram intensa circulação de empresários, técnicos, estudantes e profissionais especializados.
“Essa combinação entre localização geográfica privilegiada e maior densidade econômica contribui para sustentar uma demanda por transporte aéreo mais resiliente, mesmo em um contexto de retração observado na maior parte dos aeroportos do interior mineiro”, pontua o economista.
Para os próximos meses, a evolução do setor dependerá principalmente da trajetória dos custos da aviação e do comportamento da atividade econômica. “Caso os preços do combustível permaneçam elevados e as passagens continuem em patamar alto, a tendência é de manutenção da pressão sobre os aeroportos menores, que possuem mercados mais restritos e menor frequência de voos. Por outro lado, uma eventual redução dos custos operacionais, combinada com melhora da atividade econômica e da renda das famílias e empresas, tende a favorecer a recuperação gradual da demanda aérea”, finaliza D’Amato.
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