Economia

Café conilon avança em Minas e atrai produtores em busca de cultivo complementar

Crescimento é impulsionado pela indústria de café solúvel e pela adaptação da cultura a regiões mais quentes do Estado
Café conilon avança em Minas e atrai produtores em busca de cultivo complementar
Foto: Divulgação/Sítio Paraíso

O avanço do cultivo de café conilon em Minas Gerais tem sido impulsionado pela demanda da indústria de café solúvel e pela adaptação da cultura a regiões mais quentes do Estado. Em 2025, a produção mineira alcançou cerca de 584 mil sacas, alta de 50% em relação a 2024, enquanto a área plantada chegou a 11,1 mil hectares, com crescimento acumulado de 12% em cinco anos.

Embora ainda represente somente cerca de 2% da produção cafeeira estadual, o conilon registra a expansão proporcional mais rápida e avança para novas regiões produtoras.

Segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), o movimento ocorre em um contexto de maior procura global por café solúvel e bebidas prontas para consumo, segmento que demanda maior rendimento de sólidos solúveis, característica do conilon. No Brasil, as exportações do produto somaram 84,4 mil toneladas em 2025, com receita de US$ 1,1 bilhão, alta de 21% sobre 2024. Em Minas Gerais, os embarques atingiram 5,8 mil toneladas, aumento de 2%, com receita de US$ 68 milhões, avanço de 26%.

A expansão da cultura é mais evidente em áreas fora dos polos tradicionais do arábica, com ampliação em regiões como Norte de Minas, Vale do Jequitinhonha, Vale do Rio Doce e regiões de transição no Noroeste mineiro. Conforme a analista de agronegócios do Sistema Faemg, Ana Carolina Gomes, o perfil climático desses territórios favorece o cultivo. “Com temperaturas mais elevadas e menor altitude, essas áreas apresentam maior aptidão para o cultivo, especialmente com o uso de irrigação”, afirma.

Esforço na Zona da Mata

Além do movimento regional, produtores começam a adotar o conilon como estratégia de diversificação de renda. No Vale do Rio Doce, o produtor Leandro Junior, do Sítio Paraíso, em Governador Valadares, implantou dois hectares da cultura em uma propriedade voltada à pecuária leiteira. “Optei pela cafeicultura porque eu trabalho com gado de leite. Eu já tinha vontade de diversificar a produção aqui na propriedade e achei que a cafeicultura seria uma boa para poder aliar com a atividade leite”, relata.

Plantio de café conilon em Governador Valadares, projeto Leite com Café. Fazenda Paraíso
Plantio de café conilon em Governador Valadares Foto: Divulgação/Sítio Paraíso

O plantio foi realizado há oito meses, com previsão da primeira colheita para 2027. “Vai fazer oito meses que foi implantado aqui na propriedade, em dois hectares. Então, no caso, só ano que vem, 2027, vai ser a primeira colheita”, afirma. Segundo o produtor, a escolha pelo conilon foi técnica, considerando as condições climáticas da região. “O plantio de conilon foi aconselhado pelos técnicos da Faemg Senar. Eles fizeram uma análise aqui na minha região, no Vale do Rio Doce, e essa variedade é mais adaptável por causa das condições do clima e da altitude”, explica.”

A adoção integra um projeto Leite com Café voltado à diversificação produtiva em propriedades leiteiras. “Esse projeto foi desenvolvido para servir de referência, porque aqui na região se fala muito pouco em cafeicultura. Foi feita uma seleção de produtores que trabalham com leite e teriam vontade de entrar no projeto. A minha propriedade foi escolhida para ser o projeto piloto”, diz.

Mesmo sem colheita inicial, o produtor relata adaptação das plantas e expectativa de produtividade elevada nos ciclos seguintes. “Pelo desenvolvimento que está tendo, está sendo muito bom. As plantas estão se adaptando muito bem. A expectativa é que a primeira colheita seja mais baixa, mas, segundo os técnicos, a partir da segunda colheita a expectativa é de 100 sacas por hectare”, afirma.

Diversificação também no setor cafeeiro

A diversificação também tem sido adotada dentro das propriedades que já produzem café. “É importante destacar que o conilon não substitui o arábica, mas complementa a produção. Em muitas propriedades mineiras, produtores têm adotado sistemas híbridos, combinando as duas espécies para reduzir riscos climáticos e diversificar a renda. A estratégia também permite utilizar o conilon em áreas menos aptas ao arábica, fortalecendo a sustentabilidade econômica das fazendas”, diz Ana Carolina.

Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) indicam que o segmento de cafés canéforas, que inclui as modalidades conilon e robusta, cresce nas exportações brasileiras. No primeiro trimestre de 2026, os embarques somaram 780,9 mil sacas, alta de 11% na comparação anual, com participação de 9,2% do total exportado. Apenas em março, foram 368 mil sacas de conilon embarcadas.

Queda no volume total exportado pelo Brasil

Apesar do avanço do conilon, o volume total de café exportado pelo Brasil recuou no início do ano, refletindo o período de entressafra. Em março, os embarques de café somaram 3,04 milhões de sacas, queda de 7,8% frente ao mesmo mês de 2025, com receita de US$ 1,1 bilhão. No acumulado do primeiro trimestre, as exportações totalizaram 8,4 milhões de sacas, retração de 21,2%.

Segundo o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, o comportamento do mercado está associado ao calendário da safra e à estratégia dos produtores. “A nova safra começará a chegar ao mercado em abril para o caso dos cafés canéforas, nossos robusta e conilon, e mais para o final de maio quando o foco são os arábicas. Além disso, os cafeicultores se encontram capitalizados e analisando os melhores momentos para negociar seus cafés remanescentes. Assim, há menor disponibilidade do produto”, explica.

Apesar dos avanços, Minas Gerais ainda possui margem para ampliar a cultura. De acordo com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, mais de 660 municípios apresentam aptidão para o cultivo do conilon.

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