Exportações de Minas Gerais aos EUA caem 26%, com perda de US$ 769 milhões
As exportações de Minas Gerais para os Estados Unidos encolheram 26% entre janeiro e julho de 2026, um recuo de cerca de US$ 769 milhões na comparação com o mesmo período de 2025. Nos sete primeiros meses deste ano, o Estado embarcou US$ 2,2 bilhões para o mercado norte-americano, ante US$ 2,9 bilhões um ano antes. Os dados são do Painel de Medidas Tarifárias da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).
Ainda segundo o levantamento, a retração em Minas Gerais ficou 13,8 pontos percentuais acima da queda de 12,2% registrada pelas exportações brasileiras para os Estados Unidos no período.
Tarifaço pode aprofundar retração
Para o economista e professor do Centro Universitário Uni-BH, Fernando Sette, a queda dos embarques mineiros para os Estados Unidos indica uma perda de dinamismo que começou em 2025 e se intensificou em 2026.
“Há uma combinação de fatores, como menor demanda por alguns produtos, redução efetiva dos volumes embarcados e um ambiente de maior incerteza comercial, que pode levar importadores a postergar compras ou buscar fornecedores alternativos”, destaca.
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Ele reforça, porém, que é preciso ter cautela ao atribuir o resultado diretamente ao tarifaço norte-americano, imposto pelo presidente Donald Trump em diferentes etapas desde o ano passado. Conforme Sette, a retração já vinha ocorrendo antes das medidas mais recentes, que, portanto, não explicam isoladamente o desempenho das exportações no período.
“O tarifaço funciona, sobretudo, como um fator adicional de incerteza e pode aprofundar essa tendência nos próximos meses, especialmente se provocar reorganização dos fluxos comerciais e perda de competitividade dos produtos brasileiros”, explica.
Café é o principal produto afetado
Os números da ApexBrasil também mostram que, em Minas Gerais, o café não torrado foi o produto que registrou a maior perda de receita nas exportações para os Estados Unidos. Nos primeiros sete meses deste ano, os embarques somaram US$ 716,7 milhões, queda de 32,4%, ou US$ 344,2 milhões, em comparação com o mesmo período de 2025. Houve ainda retração de 33,6% no volume exportado. (Mais detalhes no infográfico abaixo.)
À frente da produção cafeeira da Fazenda Gaúcha, em Presidente Olegário, no Noroeste de Minas, a produtora rural Karina Seibt observa o cenário com preocupação. Segundo ela, os Estados Unidos são um mercado importante para o café mineiro e brasileiro. “Uma queda de mais de 33% no volume exportado mostra que estamos falando de uma retração significativa, que acaba sendo sentida em toda a cadeia”, destaca a agricultora. Só neste ano, ela já colheu 28 mil sacas nos 517 hectares da propriedade dedicados ao cultivo.

A produtora reforça a importância de os produtores não dependerem de um único mercado e de investirem continuamente em qualidade, sustentabilidade, rastreabilidade e relacionamento com os compradores.
“No caso dos cafés especiais, acredito que temos uma oportunidade importante. O consumidor quer conhecer cada vez mais a origem, a história e a forma como aquele café é produzido. Minas Gerais tem qualidade, tradição e produtores fazendo um trabalho muito sério dentro das propriedades. “Precisamos transformar esses diferenciais em valor e ampliar nossa presença no mercado internacional”, diz. Segundo Karina Seibt, o cenário atual exige cautela, mas também estratégia.

Retração vai além dos preços
A retração nas exportações de café, segundo Fernando Sette, não reflete apenas uma oscilação de preços, mas também uma forte redução da quantidade embarcada para os Estados Unidos.
“Isso pode refletir postergação de compras, utilização de estoques e mudanças na estratégia dos importadores diante de um cenário comercial mais incerto”, analisa.
Ao mesmo tempo, o especialista avalia que não é possível concluir, apenas com base nesses números, que o consumo norte-americano de café tenha caído na mesma proporção, uma vez que os compradores podem ter recorrido a estoques ou a outros fornecedores.
“Para Minas Gerais, esse movimento é relevante porque o café possui grande peso na pauta exportadora e na geração de renda em diversas regiões do Estado”, completa o economista.
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Sette acrescenta que uma redução persistente das vendas para os Estados Unidos pode afetar produtores, exportadores e toda a cadeia associada, incluindo beneficiamento, armazenagem, transporte e logística.
Colheita atrasada e gargalos nos portos freiam exportações de café
Para o presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Márcio Ferreira, a retração das vendas de café para os Estados Unidos pode ser atribuída ao atraso na colheita no País e à continuidade dos gargalos logísticos nos portos brasileiros e em seus entornos.
“Aguardávamos uma evolução expressiva nos embarques no mês retrasado, principalmente com a chegada do café arábica, mas a ocorrência de chuvas em importantes regiões produtoras dessa variedade retardou os trabalhos de colheita, impactando as exportações”, explica.
Segundo Ferreira, a infraestrutura defasada nos principais portos de exportação do Brasil continua dificultando o embarque das cargas e gerando custos extras aos exportadores com armazenagem adicional.

O dirigente também afirma que as incertezas em torno da política comercial dos Estados Unidos, diante da imposição e da retirada de tarifas sobre produtos brasileiros, como o café, dificultaram a retomada dos embarques para o mercado norte-americano no primeiro semestre.
Cooxupé vê retomada das vendas aos EUA com nova safra
O superintendente comercial da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), Luiz Fernando dos Reis, avalia que o principal fator por trás do cenário apontado pela ApexBrasil foi o tarifaço vigente entre agosto e novembro de 2025, que reduziu as compras dos importadores norte-americanos no mercado brasileiro.
“Com 50% de acréscimo no preço em um momento em que as cotações do café nas bolsas já estavam altas, a indústria norte-americana direcionou as compras para outras origens, como por exemplo, os países da América Central e Colômbia”, diz.
Outro ponto, segundo Reis, é que, mesmo com o fim do tarifaço, os importadores de café dos Estados Unidos não estavam confortáveis em assumir grandes volumes de compras do Brasil, diante das incertezas e da possibilidade de novas tarifas. Por isso, segundo ele, o primeiro semestre de 2026 também foi afetado.
Com a chegada da safra 2026/27, Luiz Fernando dos Reis afirma que os negócios começaram a avançar e espera recuperar o mercado perdido nos últimos meses.
“O café brasileiro é extremamente importante para formação dos blends que o consumidor americano tanto gosta. Temos volume, qualidade e preços competitivos. E, com tudo isso, teremos um trabalho árduo, que é recuperar mercado, mas com grandes possibilidades de acontecer”, destaca.
Fim do tarifaço abre espaço para recuperação das vendas aos EUA
Assim como o dirigente da Cooxupé, Márcio Ferreira tem perspectivas otimistas para os próximos meses e espera que as exportações alcancem um bom nível no acumulado de 2026. Segundo ele, sinais de recuperação já começam a ser observados na transição de agosto para setembro.
“Um ponto que deve favorecer o crescimento das exportações é uma eventual retomada de importações substanciais por parte dos Estados Unidos, que, até julho, registravam queda acumulada de 30% nas aquisições neste ano ante 2025”, revela.
Ainda segundo o presidente do Cecafé, um trabalho conjunto da entidade com a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e a norte-americana National Coffee Association (NCA) contribuiu para a retirada das tarifas dos Estados Unidos sobre os cafés brasileiros.
“Considerando que a vigência do tarifaço começou em agosto passado, a não existência dessas tarifas a partir deste mês deve estimular o avanço das exportações ao nosso principal mercado importador, os EUA”, conclui.
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