Indústria e comércio enfrentam preços mais altos para recontratar um terço de sua energia
Grandes indústrias e comércios que compram energia elétrica no mercado livre brasileiro estão enfrentando preços bem mais altos para recontratar um terço de seu consumo para os próximos anos em meio a uma piora de liquidez das transações, com potenciais impactos inflacionários e na competitividade do país, de acordo com comercializadores e consumidores.
Essa é uma das dimensões da discussão sobre os modelos de precificação de energia e operação do setor elétrico no Brasil que deverá ser avaliada pelo governo este mês. Há uma reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) marcada para esta quarta-feira (13), embora integrantes do segmento tenham pedido um adiamento para o dia 20, para que o assunto seja avaliado com maior segurança.
Quase 10 gigawatts médios de energia, ou 32,6% de todo o volume contratado no mercado livre, estão atrelados a contratos com prazos de 6 meses a 2 anos, segundo um levantamento da associação de comercializadores Abraceel feito com base em dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
Esse volume, que a indústria já começa a recontratar com antecedência, será negociado agora a preços quase duas vezes maiores que os de dois anos atrás, de acordo com a Comerc, uma das maiores comercializadoras de energia do país, controlada pela Vibra.
“Os nossos clientes, dois anos atrás, compravam energia para 2027 pagando R$ 123 (por megawatt-hora). Hoje, estão pagando R$ 258, mais do que o dobro do preço. A indústria vai começar a sentir de fato agora essa pressão, porque ela sempre se contrata com alguns anos de antecedência”, disse a CEO, Clarissa Sadock, à Reuters.
A disparada dos preços no mercado livre está associada principalmente a um ajuste de parâmetros dos modelos de precificação de energia que entrou em vigor no início do ano passado.
Agentes do setor elétrico, sobretudo comercializadores e entidades de consumidores, estão pedindo ao governo uma mudança na aversão ao risco do modelo, com efeitos a partir de 2027.
Segundo eles, a aversão ao risco atual — que torna o modelo mais “conservador” e dá um peso maior aos piores cenários de escassez hídrica, visando à segurança energética — está mal calibrada.
Isso faz com que a energia tenha preços artificialmente mais altos, sem trazer benefícios proporcionais, como um aumento substancial dos níveis dos reservatórios das hidrelétricas, defendem.
Sadock afirma que há espaço para uma diminuição do nível de aversão ao risco sem comprometer a segurança energética do país. A comercializadora defende reduzir de 40% para 30% o peso atribuído aos 15 piores cenários hidrológicos.
“O governo tem na mão uma oportunidade para reduzir o preço da energia em pelo menos 30%. Quem está perdendo com tudo isso é a indústria brasileira, é a inflação, é a nossa competitividade internacional”, afirmou a executiva da Comerc, que tem na indústria mais da metade de seus clientes de gestão e varejo.
Além da alta de preços, a indústria também tem visto mais dificuldade de comprar energia devido a uma escassez de contratos futuros, com as comercializadoras mais retraídas em montar posições em um cenário de preços considerados imprevisíveis.
“Se antes uma grande indústria, quando ia cotar para comprar, recebia 10 propostas, agora ela recebe 2 ou 3… e com valores altos”, disse Victor Iocca, diretor de Energia Elétrica da associação de grandes consumidores Abrace.
Rodrigo Ferreira, presidente da Abraceel, defende que o governo dê atenção ao segmento de comercialização de energia, ainda que esse mercado esteja baseado em operações bilaterais entre empresas que não são supervisionadas pelo poder público.
“Não dá para achar que o mercado é livre, e por isso vale tudo. Não vale tudo. A gente precisa ter um cuidado com os custos setoriais que viram preço.”
Impacto no mercado cativo
O mercado regulado, no qual as distribuidoras atendem milhões de consumidores residenciais e de pequeno porte, também sofre impactos dos preços mais elevados pela maior aversão ao risco.
De acordo com a Abraceel, quase metade dos reajustes tarifários de distribuidoras já processados em 2026 foi causada por custos de energia acima dos previstos, em meio à alta do preço spot (PLD).
Segundo os cálculos da associação, o peso desse sobrecusto nos reajustes já é maior que o da CDE, principal encargo pago por consumidores e apontado como o vilão do aumento da conta de luz nos últimos anos.
A versão de uma alta “artificial” de preços de energia no Brasil é contestada, porém, por outra parte do setor elétrico, principalmente grandes geradores hidrelétricos, como Axia e Copel.
Na avaliação dessas empresas, que estão obtendo ganhos expressivos com a volatilidade e a alta de preços, a precificação agora está mais aderente aos desafios operativos do sistema elétrico brasileiro, que cresceram com a forte penetração das fontes renováveis na matriz. Elas alegam que a restrição de liquidez vem de problemas de crédito e reputação no mercado de comercialização.
Conteúdo distribuído por Reuters
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