A cadeia produtiva se desestruturou devido à pandemia da Covid-19, que paralisou indústrias e provocou escassez de capital de giro | Crédito: Divulgação

Nos últimos tempos, a alta do preço do arroz foi amplamente divulgada e discutida. No entanto, não é somente o segmento que tem visto os números dispararem consideravelmente. A indústria têxtil também tem enfrentado altas expressivas e até mesmo escassez de matéria-prima.

Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem no Estado de Minas Gerais (Sift-MG), Rogério Mascarenhas, o avanço no preço do algodão, nos últimos dois meses, foi de cerca de 22%, e o do fio do algodão, no mesmo período, foi de algo em torno de 50%.

“O algodão recuperou um pouco da paridade internacional. Por se tratar de uma commodity internacional, essa é a tendência”, diz ele. Além disso, destaca, o Brasil é um grande exportador e produtor de algodão e a safra cresceu muito nos últimos anos. Dessa forma, diz o presidente do Sift-MG, a oferta do produto, em especial, continua tranquila no mercado nacional.

O que tem realmente mexido mais com o setor é o fio de algodão. A pandemia do Covid-19 trouxe uma série de efeitos, que vêm sendo sentidos intensamente em diversas empresas.

“Houve uma desestruturação da cadeia de produção do fio. Muitas indústrias pararam, várias ficaram sem capital de giro para movimentar a planta”, ressalta Mascarenhas.

Mas não foi só isso, segundo o presidente do Sift-MG. O auxílio emergencial, medida do governo federal para aqueles que mais precisavam de ajuda financeira durante a pandemia, também ajudou a aquecer a demanda, pressionando os preços. Além disso, as importações diminuíram, por causa do aumento do dólar.

Demanda – Presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Minas Gerais (Sindivest-MG), Luciano Araújo também ressalta que o auxílio emergencial foi um dos fatores que contribuíram para o aumento da demanda. A descontinuação dele, aliás, transformará um pouco o cenário atual, pois diminuirá o poder de compra na ponta. Além disso, outras situações também deverão voltar ao que eram antes da pandemia.

“A indústria está se reestruturando. Todos estão voltando ao trabalho. A nossa expectativa é de que até dezembro comece a entrar em uma normalização”, diz o presidente do Sindivest-MG.

Mascarenhas acredita em um prazo semelhante para que os preços parem de acelerar. Para ele, em três ou quatro meses a situação estará resolvida.

Consumidor deve sentir elevação nos preços finais

No entanto, enquanto os valores da matéria-prima permanecerem elevados, os consumidores poderão sentir também a elevação dos preços. Para o presidente do Sift-MG, Rogério Mascarenhas, entretanto, esses avanços não deverão ser tão expressivos assim.

“A fiação é o primeiro elo da cadeia têxtil. Até chegar à loja de vestuário, esse aumento do preço do fio vai se dissipando ao longo da cadeia. Se tiver alta, será algo temporário e pequeno. Na hora em que normalizar a entrega do fio, os preços retornarão aos patamares de antes”, pontua.

O presidente do Sindivest-MG, Luciano Araújo, acrescenta que a alta no preço dos produtos vai depender muito do valor agregado do item – naqueles em que ele é maior, o tecido representa menos em relação ao custo. “Quanto menor for a participação da matéria-prima no produto final, menor será o impacto para o consumidor”, enfatiza.

Escassez generalizada – A questão do fio do algodão realmente tem movimentado o setor. Entretanto, não é somente ele que está escasso. De acordo com Araújo, está havendo uma falta generalizada de produtos. Já tem, inclusive, indústrias têxteis que não estão aceitando pedidos para dezembro.

“É algo complicado. Houve a paralisação por causa da pandemia, explosão da demanda e falta de matéria-prima”, salienta. “Às vezes tem matéria-prima, mas vai faltar embalagem, por exemplo”, relata.