Empreendedorismo cresce entre mães atípicas diante da sobrecarga do cuidado
O silêncio da madrugada virou rotina para Paula Simões, de 48 anos, de São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Entre uma pausa e outra nos cuidados com o filho, ela encontrou tempo para estudar, reorganizar a própria trajetória e transformar uma ruptura em ponto de partida. “Pela primeira vez, percebi que não estava apenas sobrevivendo, mas conseguindo construir algo meu”, observa.
A cena, repetida em diferentes casas, traduz um movimento que ganha força no Brasil: mães de crianças atípicas encontram no empreendedorismo uma estratégia de sobrevivência econômica, reorganização da vida e retomada da autoestima. Às vésperas do Dia das Mães, celebrado neste domingo (10), histórias como essa ajudam a dimensionar um fenômeno ainda pouco mensurado, mas cada vez mais visível.
Entre o cuidado integral e a reinvenção
A virada na trajetória de Paula não foi planejada. Instrumentadora cirúrgica, ela interrompeu a carreira há cerca de três anos, após o diagnóstico de autismo e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) do filho Miguel, de 10 anos. “Não foi uma escolha planejada, foi uma pausa que a vida me impôs”, relata. O afastamento do mercado formal trouxe também um deslocamento subjetivo: “Entrei em um lugar de dedicação total e, ao mesmo tempo, de perda de mim mesma.”
Foi nesse intervalo que ela criou o projeto “Escutar com afeto”, iniciativa voltada ao acolhimento emocional de outras mulheres. O negócio nasceu de forma gradual, impulsionado pela formação em saúde mental e, posteriormente, estruturado com apoio técnico. “Entendi que não bastava vontade, eu precisava de estrutura”, comenta.
A experiência de Paula dialoga com um padrão identificado pela pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Patrícia Carla Gonçalves Salvatori em um estudo publicado em 2023. Segundo o levantamento, 69% das mulheres afirmaram que a situação profissional mudou após se tornarem mães atípicas. Dessas, 59% deixaram o trabalho e 27% alteraram a carga horária ou migraram para atividades autônomas.
A principal razão é objetiva: 68% citaram a falta de tempo para acompanhar terapias, consultas e rotinas intensivas dos filhos. Na outra ponta, entre as que empreendem, 93% apontam a flexibilidade de horários como fator determinante.
Flexibilidade como condição, não escolha
Na prática, a flexibilidade deixa de ser um diferencial e passa a ser condição mínima para manter alguma atividade remunerada. É o que relata Caroline Vianne, de 38 anos, que atua na área de estética em Belo Horizonte. Ela é mãe de Antônio, de 5 anos, e Murilo, de 2.
Com dois filhos e uma rotina marcada por consultas, exames e terapias, Caroline reorganiza diariamente a agenda de atendimentos. “Meu horário é mais voltado para a rotina de Murilo”, conta sobre o filho mais novo, que tem síndrome de Down. A instabilidade de saúde da criança impõe ajustes constantes e, em alguns momentos, coloca em xeque a continuidade do trabalho.
“Já pensei várias vezes em parar de atender para focar totalmente nele, dar a atenção que ele precisa e não ter essa preocupação. Então, fico nesse conflito: penso se é melhor dar um tempo e focar nele, mas não consigo ficar sem trabalhar. Isso me faz mal”, pondera.
O relato evidencia uma tensão recorrente: a tentativa de equilibrar autonomia financeira, identidade profissional e cuidado intensivo. “Ao mesmo tempo, sou muito responsável com meus atendimentos. Desmarcar é difícil para mim, é um sofrimento. Sei que, às vezes, é necessário, quando o filho está doente ou acontece alguma situação, mas existe uma responsabilidade com o cliente”, acrescenta a esteticista.
Sobrecarga estrutural e ausência de rede
Esse equilíbrio instável está inserido em um contexto mais amplo de sobrecarga feminina. De acordo com a analista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), Arielle Alexandria, a jornada dessas mulheres “vai além da tripla”.
“Basicamente, a responsabilidade de cuidar de um filho atípico recai quase 100% sobre a mãe”, afirma. A rotina inclui múltiplos atendimentos, terapias, fisioterapia, acompanhamento do sono e consultas médicas, que exigem disponibilidade integral e flexibilidade de horários.
O impacto sobre o vínculo com o mercado formal é direto. “Quando essas mulheres têm um emprego com carteira assinada, não conseguem permanecer nele devido à rotina intensa com o filho”, explica.
O cenário é percebido por Caroline Vianne. “Hoje, meu marido é quem sustenta a casa financeiramente. Tenho o apoio dele, o que é fundamental. Muitas mães não têm esse suporte, nem financeiro nem emocional. Por isso, o que a mãe atípica puder fazer para trabalhar em casa e gerar renda ajuda mais do que ter um trabalho fixo, com horário rígido, que depende de outras pessoas para levar o filho a terapias e consultas”, detalha.
A ausência ou fragilidade da rede de apoio agrava o cenário. O Brasil tem cerca de 11 milhões de mães solo, segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Capacitação e tentativa de estruturar o caminho
Diante da crescente demanda, o Sebrae Minas estruturou uma trilha de capacitação voltada especificamente para mães atípicas. A iniciativa integra o programa Sebrae Delas e será lançada neste mês de maio, com 21 horas de formação distribuídas em quatro módulos, além de mentorias individuais.
A proposta inclui conteúdos sobre gestão do tempo, produtividade, ferramentas digitais e uso de inteligência artificial, além de comunicação e marketing. “O objetivo é oferecer suporte técnico e emocional, respeitando a realidade dessas mulheres”, afirma Arielle Alexandria. “A construção de rede de apoio é um dos pontos centrais”, completa.
A primeira edição do programa, realizada em 2025, reuniu 23 participantes. Segundo o Sebrae, empreendedoras que já tinham negócios registraram aumento de faturamento e maior engajamento nas redes sociais ao final da jornada.
“À medida que recebem o diagnóstico dos filhos, muitas mães não sabem como agir ou por onde começar. Diante da necessidade de acompanhamento mais próximo, acabam migrando para o empreendedorismo. Surge, então, uma série de dúvidas: como empreender, o que fazer, quanto cobrar e onde divulgar. É uma demanda crescente, o que levou à criação de trilhas mais específicas, considerando que essas mulheres têm pouco tempo disponível para estudar e estruturar o negócio”, comenta a analista.
Trabalho possível, não ideal
Para Paula, o aprendizado mais relevante não foi apenas técnico, mas estrutural. “Não concilio tudo, mas negocio com a realidade dos meus dias”, afirma. A frase sintetiza uma lógica comum entre mães atípicas empreendedoras: a construção de modelos de trabalho adaptáveis, em vez da adesão a padrões tradicionais.
“Hoje, priorizo o essencial e deixo de lado o que não me cabe. Acredito que disciplina sem respeito se transforma em culpa, e a culpa não sustenta ninguém. Há dias em que o trabalho flui e outros em que tudo gira em torno do meu filho. Aprendi a não lutar contra isso. O que me sustenta não é a perfeição, mas a adaptação. Meu trabalho me permite isso”, relata.
Apesar do avanço de iniciativas de capacitação e da ampliação do debate público, a maternidade atípica ainda carece de dados consolidados. O próprio estudo de Patrícia Salvatori aponta limitações estatísticas decorrentes de mudanças metodológicas em pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), especialmente pela ausência de dados sobre crianças de zero a dois anos com deficiência.
Ainda assim, os indicadores disponíveis sinalizam uma transformação em curso: a reconfiguração do trabalho feminino a partir das exigências do cuidado.
Nesse cenário, histórias como as de Paula e Caroline deixam de ser exceção e passam a compor uma nova narrativa sobre maternidade, renda e autonomia. Não como escolha ideal, mas como resposta possível a uma estrutura que ainda não absorve plenamente essas mulheres.
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