Desenrola 2.0 é programa ‘paliativo’ e não soluciona inadimplência, dizem especialistas
O Novo Desenrola foi lançado na segunda-feira (4) com uma novidade: o uso de até 20% do FGTS para pagar dívidas. A proposta é simples e direta: aliviar o bolso do brasileiro em meio aos altos índices de endividamento, por meio de renegociações.
De acordo com o governo, poderão ser negociadas dívidas de cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal, entre outras. Os descontos no valor da dívida ficarão entre 30% e 90%, e os juros serão de, no máximo, 1,99% ao mês.
A inadimplência tem sido um problema crescente para a população brasileira. Só em Minas Gerais, mais de 7 milhões de pessoas estão com contas em atraso, segundo levantamento do Serasa.
Uma das condições para aderir ao programa também mira uma das grandes causas do endividamento dos brasileiros: os gastos com apostas, as chamadas bets. Quem aderir ao Novo Desenrola Brasil ficará bloqueado por um ano em todas as plataformas de apostas on-line.
Paliativo
Segundo o professor de Finanças e pró-reitor do Ibmec BH, Eduardo Coutinho, mesmo com a boa intenção do programa, cujo objetivo é facilitar que pessoas cumpram suas obrigações junto a instituições financeiras e quitem seus débitos, o Desenrola 2.0 não representa uma melhora real na saúde financeira da população.
“Eu não coloco isso como um avanço, porque, na verdade, está sendo criado mais um instrumento paliativo para resolver um problema que daqui a pouco vai surgir de novo. Isso vai facilitar que as pessoas saiam do cadastro negativo, limpem seus nomes e possam retornar ao mercado consumidor via crédito”, afirma.
Educação financeira e bets
Para Eduardo Coutinho, o problema da inadimplência precisa ser atacado de outra forma: com educação financeira. Mas esse processo é mais longo e não gera impacto imediato.
“É algo pontual essa nova medida. O próximo passo deveria ser, talvez, um processo de reeducação financeira. Porém, a educação financeira é uma questão de longo prazo. Você não resolve isso com um programa de governo. É uma questão mais estrutural, resolvida com tempo e com um nível educacional melhor”, explica.
Outro ponto que o governo busca enfrentar é a relação entre bets e endividamento, e como o Desenrola pode absorver essas dívidas indiretamente. Segundo o especialista em finanças e CEO da Plano Fintech de Educação Financeira, Ricardo Hiraki, essa relação é preocupante.
“O Desenrola não foi desenhado para cobrir diretamente dívidas geradas pelas bets, mas pode absorvê-las indiretamente, já que o apostador endividado frequentemente recorre ao cartão de crédito e ao cheque especial para cobrir os gastos com jogos, e essas modalidades estão no escopo do programa. Para tentar fechar esse ciclo, o governo estabeleceu que quem aderir ao Novo Desenrola ficará bloqueado por um ano em todas as plataformas de apostas online. A medida é inédita, mas sua eficácia depende da capacidade de fiscalização, especialmente diante dos milhares de sites ilegais que ainda operam no país”, comenta.
Impacto no sistema financeiro e no varejo
O Desenrola pode ter impacto direto no varejo e no sistema financeiro brasileiro ao permitir que as pessoas voltem ao mercado consumidor e retomem o consumo a prazo, gerando bem-estar no presente.
“No curto prazo, o Desenrola é bom para o sistema financeiro. Pessoas que antes tinham baixa probabilidade de quitar suas dívidas vão quitá-las, ainda que com desconto. O sistema financeiro vai receber uma injeção de receita fruto dessas renegociações, o que é bom para ele. O comércio varejista também sai ganhando, porque um grande grupo de pessoas vai retornar ao mercado consumidor”, diz Eduardo Coutinho, professor do Ibmec.
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