Cenário econômico instável e guerra provocam pessimismo na pequena indústria
A pequena indústria brasileira atravessa seu pior momento desde a pandemia. É o que mostra o Panorama da Pequena Indústria (PPI), divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta segunda-feira (11).
O termômetro do setor marcou 43,7 pontos no primeiro trimestre de 2026, uma queda de um ponto em relação ao mesmo período de 2025. É o resultado mais fraco desde abril de 2020, quando a pandemia do coronavírus derrubou o indicador para 34,1 pontos. O número leva em conta produção, uso da capacidade instalada e geração de empregos.
O cenário apresentado pela CNI, em âmbito nacional, reflete um pessimismo geral do setor industrial brasileiro, incluindo Minas Gerais. Todavia, o “raio-x” da confederação tem um agravante: os negócios de menor escala estão sendo afetados. E os pequenos empreendimentos, que geram grande parte dos empregos do segmento, podem ser os mais sacrificados pela instabilidade econômica brasileira.
As incertezas internas da economia e o conflito no Oriente Médio seguem como grandes contratempos para o empresário de pequeno porte, que vê sua capacidade de produção cada vez mais pressionada.
O bolso das empresas também “sangra”
O índice financeiro do setor despencou 2,5 pontos e chegou a 39 pontos, o fundo do poço em cinco anos. Crédito difícil de acessar e lucro encolhendo explicam a deterioração do quadro.
“Os juros nas alturas fecham ainda mais as portas do crédito para quem já é visto como risco pelo mercado. Para piorar, os insumos ficaram mais caros no começo do ano por causa da guerra no Oriente Médio, espremendo ainda mais as margens”, avalia a analista de políticas e indústria da CNI, Julia Dias.
Matéria-prima vira dor de cabeça
Os impostos estão entre as queixas mais presentes das pequenas indústrias segundo o levantamento, mas perderam um pouco de força no primeiro trimestre de 2026. O peso da carga tributária caiu de 42,7% para 39,6% entre as indústrias de transformação, e de 44,7% para 42,2% na construção.
A grande novidade é o avanço da matéria-prima como problema. Entre as indústrias de transformação, o custo ou a falta do insumo pulou do sexto para o segundo lugar no ranking de entraves, com a fatia de empresários preocupados saltando de 20% para 34,1%. Mão de obra qualificada segue em terceiro, com leve recuo, de 29,2% para 26,5%.
Na construção, os juros altos seguem como segunda maior dificuldade e ganharam ainda mais peso, subindo de 30,9% para 37,1%. A falta de trabalhadores sem qualificação ficou estável, em torno de 31%. Mas o salto mais expressivo foi o da matéria-prima: a preocupação com o item cresceu 14 pontos percentuais, de 4,1% para 18,1%, alçando o problema do 13º para o 5º lugar no ranking do setor.
Empresários sem ânimo e sem grandes esperanças
A confiança das pequenas indústrias derrete em 2026. Em abril, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) do segmento caiu a 44,6 pontos, o menor nível desde junho de 2020. O desânimo não é pontual: o indicador está abaixo da linha de confiança há 17 meses consecutivos, sinalizando um pessimismo enraizado no setor.
As expectativas para os próximos seis meses também não empolgam. O índice de perspectivas marcou 47,4 pontos, refletindo cautela dos empresários quanto aos investimentos, demanda e contratações.
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