Antes mais caros, ultraprocessados se aproximam do preço de alimentos saudáveis, mostra estudo da UFMG
Entre 2018 e 2024, os preços dos alimentos processados e ultraprocessados recuaram no Brasil, enquanto os de alimentos considerados saudáveis, como os in natura e minimamente processados, permaneceram relativamente estáveis, com períodos de alta sobretudo durante e após a pandemia de Covid-19. Com isso, a diferença de preços entre os grupos praticamente desapareceu. A conclusão é de um estudo divulgado recentemente pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os dados mostram que o preço médio dos alimentos in natura e minimamente processados, juntamente com o dos ingredientes culinários processados, manteve-se relativamente estável no período. Já os alimentos processados e ultraprocessados apresentaram tendência de queda ao longo da série histórica.
Os pesquisadores, coordenados pelo professor Rafael Moreira Claro, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem, analisaram as tendências e projeções dos preços dos alimentos no País entre 2018 e 2024, além das limitações de acesso à alimentação adequada. Com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo constatou que os preços dos alimentos cresceram acima da renda familiar nominal, reduzindo o acesso a dietas mais saudáveis.
Líder do estudo, a pesquisadora Thaís Caldeira, do mesmo departamento, explica que o aumento dos preços dos alimentos saudáveis é uma tendência global que intensifica as desigualdades sociais e agrava a fome e a desnutrição. Segundo ela, fatores como mudanças climáticas, variações econômicas e tensões geopolíticas dificultam a produção suficiente de alimentos, o acesso à educação alimentar e a disponibilidade de opções sustentáveis.
“A pandemia de Covid-19 reforçou as alterações na dinâmica do sistema agroalimentar, que vem afetando a produção, a distribuição, a disponibilidade, os preços e a qualidade dos alimentos. Essas interrupções agravaram as tendências já existentes de aumento da pobreza e da insegurança alimentar moderada ou grave”, alerta.
Preços dos dois grupos se aproximaram
Os resultados do estudo também mostram uma aproximação dos preços médios por quilo entre os grupos analisados. Segundo os pesquisadores, em 2018, o preço dos alimentos ultraprocessados era de R$ 22,20 por quilo, ante R$ 18,90 dos alimentos in natura e minimamente processados. Em 2024, os valores chegaram a R$ 18,80 e R$ 18,60 por quilo, respectivamente.
De acordo com a pesquisa, entre as principais razões apontadas para esse fenômeno estão a desvalorização cambial, a alta dos preços das commodities, como soja e milho, e os eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. Além disso, a desregulamentação da publicidade de produtos ultraprocessados e a elevada carga tributária sobre alimentos saudáveis também influenciaram os preços.
Alimentação saudável fica menos acessível: o que fazer?
Para o professor Rafael Moreira Claro, os resultados reforçam a preocupação com o aumento do custo relativo das dietas saudáveis no Brasil e suas potenciais consequências para a segurança alimentar e nutricional.
“O aumento dos preços dos alimentos saudáveis, sem um crescimento correspondente da renda, comprometeu a qualidade da dieta e contribuiu para a piora dos indicadores de saúde, dificultando o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Esses resultados ressaltam a necessidade urgente de medidas estruturais para tornar as dietas sustentáveis financeiramente acessíveis e viáveis para todos os grupos sociais”, declarou.
Para enfrentar a situação, os pesquisadores defendem programas e estruturas complementares, como bancos de alimentos, cozinhas comunitárias e restaurantes populares. Segundo eles, essas iniciativas promovem o acesso a alimentos saudáveis para populações vulneráveis, reduzem o desperdício, geram empregos, ampliam a renda e fortalecem a articulação com outras políticas sociais.
“Diante do atual contexto de incerteza econômica, mudanças climáticas e risco de futuras crises sanitárias e geopolíticas, o monitoramento e a previsão contínuos dos preços dos alimentos são essenciais para subsidiar políticas públicas oportunas que promovam a segurança alimentar e nutricional. Essas políticas incluem subsídios para frutas, verduras e outros alimentos frescos, bem como a tributação de produtos ultraprocessados com base em seus impactos negativos à saúde. Além disso, o apoio à agricultura familiar e o fortalecimento dos sistemas alimentares locais são fundamentais para garantir o fornecimento de alimentos frescos, culturalmente adequados e ambientalmente sustentáveis”, completa Thaís Caldeira.
O estudo foi desenvolvido pelo professor Rafael Moreira Claro e pelas pesquisadoras Thaís Cristina Marquezine Caldeira e Bruna Barbosa Furtado, da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); por Ramon Torres, da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG; e pelas pesquisadoras Ana Maria Thomaz Maya Martins e Laís Amaral Mais, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
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