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Prédios não foram feitos para cair. Mas caem. Foi o que ocorreu no dia 25 de janeiro de 2012, na cidade do Rio de Janeiro, com o edifício Liberdade, um prédio de 20 andares que ruiu como um castelo de cartas, arrastando dois prédios vizinhos.

Foi o que também ocorreu no dia 1º de maio de 2018, no centro da cidade de São Paulo, com o edifício Wilton Paes de Almeida. Em 15 de outubro do ano passado, a história se repetiu em Fortaleza, com o desabamento do edifício Andrea.

No desabamento do edifício Liberdade, 19 pessoas morreram; no Wilton de Almeida, foram sete mortes. No caso mais recente, de Fortaleza, nove pessoas perderam a vida.

Os três casos, além da destruição da edificação e das mortes, há outro fator em comum: a precariedade da manutenção ou a realização de obras fora do controle da administração do condomínio, fator que teria sido apontado com a causa do desabamento do edifício Liberdade.

No Liberdade, foram apontados como causa do colapso da estrutura do prédio a retirada de paredes em um dos andares e a construção de mais andares além do que suportaria a estrutura da edificação.

O edifício Wilton de Almeida, que estava ocupado por moradores sem-teto desde 2003, tinha infiltrações de água no subsolo e problemas na fundação, que teria sofrido deslocamento, além de uma infraestrutura de energia precária, com sobrecarga em vários pontos. Em um destes, na noite do desabamento ocorreu um incêndio que se alastrou pelos andares acima, desestabilizando a estrutura do prédio, que acabou, com isso, desabando.

No edifício Andrea, de Fortaleza, as ferragens da estrutura já estavam à mostra em vários pontos, como revelaram imagens em vídeo gravadas dias antes do desabamento.

Tais fatos mostram que qualquer prédio pode cair, mesmo que tenha sido projetado e construído segundo as mais rigorosas normas da engenharia e da construção. O segredo da longevidade de um edifício é determinado por sua manutenção. A importância da manutenção predial foi discutida em dezembro último, na Semana do Engenheiro, promovida pela Sociedade Mineira dos Engenheiros (SME).

Consciência – De acordo com o engenheiro civil Kleber José Berlando Martins, presidente da Comissão de Avaliações e Perícias da SME, a manutenção é fundamental para a segurança da edificação, embora a maioria dos síndicos não tenha consciência disso nem é cobrada pelos condôminos. “A manutenção é essencial para garantir a segurança do edifício”, afirma Kleber Martins.

Segundo ele, o brasileiro, infelizmente, não tem a preocupação com a prevenção. “O brasileiro tem a mania de deixar a prevenção de lado. Só que depois da tragédia, não há mais o que fazer. Acabou”, disse ele. “Se não formos capazes de fazer gestão de riscos, teremos que fazer a gestão de desastres, o que implica dor, prejuízo e responsabilidades”, afirma o coronel Waldir Figueiredo Vieira, subsecretário de Proteção e Defesa Civil da Prefeitura de Belo Horizonte.

De acordo com Kleber Martins, o correto é que seja feita uma vistoria quando da entrega do prédio aos seus moradores e, a partir daí, de tempos em tempos ou quando aparecerem problemas. O trabalho deve analisar toda a edificação, em todos os seus níveis de pavimento e garagem, com vistorias dos sistemas elétricos, hidráulicos e civis. Essa atitude, segundo ele, evita a deterioração precoce de algum sistema construtivo, o que depreciaria a construção e, consequentemente, reduziria seu valor.

Kleber Martins recomenda, também, que seja feita uma vistoria quando for feita uma construção ao lado, para que se avalie se esta causou dados à edificação vizinha. Para prédios com mais 15 anos de construção, ele recomenda que a vistoria seja feita pelo menos de cinco em cinco anos. Em todos os casos, a responsabilidade por eventuais problemas que possam ocorrer é do síndico da edificação, que não pode alegar desconhecimento.

“A ninguém é lícito ser imprudente, negligente ou imperito”, afirma o perito de engenharia Haydn Amaral Fernandes. Um exemplo concreto do desconhecimento da responsabilidade do síndico foi dado pelo engenheiro Jonhson Rigueira, diretor da Ribeiro Rigueira Engenharia e Consultoria, que também participou do evento na SME.

Ruptura – Ele contou que foi contatado por um síndico, que lhe pediu uma vistoria no prédio. Ao chegar ao local, constatou que a edificação estava em uma situação precária e próxima da ruptura. A sugestão que deu foi a realização de uma intervenção imediata, com a interdição da garagem para a realização da obra. A resposta do síndico que isso não iria ser feito da forma com havia sido proposto porque ele não iria ter onde guardar o carro.

Segundo, ele, nos últimos casos de desabamento de prédios ocorridos no Brasil, o determinante foi a falta de manutenção. O edifício do Ceará estava já condenado a cair, mas não tinha um só escoramento. De acordo com Kleber Martins, no Liberdade, do Rio de Janeiro, foram feitas várias reformas que alteraram a estrutura da edificação, inclusive com a abertura de janelas fora do projeto original, o que poderia ter comprometido a estabilidade da edificação. Por isso, Kleber Martins chama a atenção para a importância de o síndico ser consultado previamente em qualquer obra de reforma, pois pode ser que determinada mudança não possa ser feita, por razões de segurança.

Outra situação muito comum que, segundo Jonhson Rigueira, revela desleixo com a manutenção é a colocação de calhas para o escoamento de água que infiltra na laje. O problema foi detectado por ele em outra vistoria que fez. Na ocasião, o sindico explicou que foi feita uma obra para a correção do problema, mas as infiltrações não cessaram, tendo sido recomendada outra intervenção. Só que, segundo Jonhson Rigueira, em vez disso, o síndico optou por entrar na justiça contra a empreiteira e, até uma decisão, colocar as calhas para coletar a água que continuava infiltrando através da laje. “As pessoas não entendem que a Justiça não vai interromper a corrosão de um pilar”, afirma Rigueira.