Mercado em transformação exige atenção para oportunidades de trabalho
Evento reuniu profissionais da engenharia, que falaram para uma plateia formada especialmente por estudantes e profissionais recém-formados - Crédito: SME/Divulgação

Há 30 anos, o desejo de alguém que começa o curso de engenharia era apenas um: conseguir um emprego em uma empresa de engenharia e lá fazer carreira. Hoje, três décadas depois, o Brasil viveu o boom da engenharia e depois a crise. Nesse meio tempo, ocorreu outro boom, o das novas tecnologias.

No cenário atual, há 400 mil engenheiros que se formaram, mas não conseguiram trabalho. Há também uma busca desenfreada por uma saída. Um sinal disso é a mudança no perfil do engenheiro, que hoje está presente nos canteiros de obras, mas também na área comercial de empresas de engenharia e, até mesmo, nos departamentos de recursos humanos.

A dica para que estudantes e profissionais em início de carreira diversifiquem suas buscas por trabalho ou emprego foi dada pelos profissionais que participaram, recentemente, na Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), do debate sobre “Perspectivas para a engenharia em 2020”.

Um exemplo concreto foi dado pela psicóloga Mariana Coelho, diretora de Recursos Humanos da Arcelor Mittal. Segundo ela, na área comercial da companhia, as últimas contratações foram todas de engenheiros. No próprio setor de recursos humanos, o último estagiário contratado também é da área de engenharia.

“A gente tem que mudar e olhar quais são as outras perspectivas que não apenas as tradicionais que a gente costumava olhar”, afirmou Mariana Coelho. Segundo ela, a tendência, para a próxima década, é uma empresa como a Arcelor Mittal contratar engenheiros para áreas as mais diversas, como a de recursos humanos.

“O psicólogo não sabe olhar para os números”, afirmou Mariana Coelho. De acordo com ela, as áreas não convencionais são as mais promissoras para o engenheiro até que a economia reaja e retome o crescimento com vigor, algo que, segundo ela, ainda não está presente no cenário. O conselho que Mariana Coelho deixou para a plateia, formada principalmente por estudantes e engenheiros recém-formados: “Fiquem atentos”.

Essa mesma orientação foi passada pelo engenheiro Guilherme Garcia, CEO da Garc Engenharia. Segundo ele, o estudante ou profissional que está em busca de emprego precisa olhar o mercado da engenharia com outros olhos, não apenas com o daqueles que ficam dizendo o tempo todo que há no País 400 mil engenheiros desempregados.

Para afirmar isso, ele se apoia em dados do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura de São Paulo (Crea-SP), que aponta a existência de 2.760 tipos de responsabilidades técnicas que podem ser assumidas pelo engenheiro em inúmeras atividades, além da engenharia civil, como nas indústrias naval e de aeronáutica, no setor têxtil, na área ambiental e na indústria de alimentos.

“E você vai ficar querendo fazer o quê atrás da argamassa e do cimento?”, indagou Guilherme Garcia. “No Brasil, pode não ter emprego, mas trabalho você vai arrumar”, afirmou o CEO da Garc Engenharia, que, como exemplo, cita o dele próprio. “Eu tenho uma empresa e, se não me levantar cedo e correr atrás do trabalho, o telefone toca cobrando.”

Para reforçar seu argumento de que há no Brasil um mercado de trabalho ainda não descoberto para o engenheiro, ele cita dados internacionais, segundo os quais, nos países desenvolvidos, o percentual da população que trabalha em áreas ligadas à tecnologia é da ordem de 25%.

No Brasil, segundo Guilherme Garcia, esse percentual não passa de 3%. Segundo ele, o mercado de trabalho do engenheiro é muito amplo. “O engenheiro pode atuar em qualquer área. Ele não precisa atuar só como engenheiro raiz, que faz cálculos na mão. A gente precisa é de tecnologia”, afirmou o CEO da Garc Engenharia.

Transformação – O que ocorreu no mercado da engenharia foi que os profissionais que entraram para o mercado há 30 anos evoluíram na hierarquia das empresas, saltando para níveis superiores, movimento que não foi acompanhado pela entrada, na mesma proporção, de novos engenheiros.

As faixas iniciais se reduziram porque o mercado da engenharia diminuiu de tamanho ao longo desse tempo, o que obrigou os novos profissionais a migrarem para outras áreas, indo trabalhar no sistema financeiro e na área comercia de diversas empresas, fato que Guilherme Garcia não interpreta como de todo ruim. “O engenheiro se reinventou e hoje trabalha bem dentro de várias outras áreas. É um ser mutante”.

Quem também experimentou a transformação pela qual passou a engenharia nas últimas décadas foi a engenheira Marita Tavares, que formou-se na turma de 1962 da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e hoje faz parte da diretoria da SME. Segundo ela, diferentemente de hoje, nos primeiros anos depois de formada quem escolhia a empresa eram os engenheiros, tamanha a escassez de profissionais para um país cuja economia estava em franco crescimento.

“Era a gente que entrevistava a empresa”, afirmou Marita Tavares, que também recomendou aos presentes no debate um olhar mais cuidadoso sobre as oportunidades oferecidas pelo mercado. “Vocês têm que se reinventar, serem criativos e criar oportunidades. Isso vai despertar em vocês habilidades que vocês nem sabiam que tinham”.

Como exemplo do que defendeu Marita Tavares, o engenheiro Márcio Trindade, ex-presidente da SME, citou um episódio ocorrido há algumas décadas, quando era empresário de engenharia e recebeu um profissional que se aposentou, queria continuar trabalhando, mas não sabia como. Para ajuda-lo, Márcio Trindade contou que começou a conversar com ele para analisar as possibilidades de trabalho.

Ao final da conversa, chegaram a 21 atividades que ele poderia desempenhar. “É preciso saber explorar as possibilidades. Isso acontece em todas as áreas. Às vezes, o exercício da profissão é monótono, chato, mas a inovação é importante. A essência da engenharia é sua capacidade de criar o tempo todo”, afirmou Márcio Trindade.

Um exemplo de mercado a ser conquistado está, segundo ele, nas prefeituras, especialmente as menores, que normalmente não dispõem de mão de obra especializada para a elaboração dos projetos necessários à captação de recursos federais.

Se as prefeituras de unirem, poderiam montar uma espécie de consórcio só para a elaboração de projetos, o que poderia ser feito por uma equipe multidisciplinar da qual os engenheiros fariam parte. Trata-se de uma iniciativa que, segundo Márcio Trindade, poderia ser incentivada pelos engenheiros. (Conteúdo produzido pela SME)

Responsabilidades técnicas da engenharia

Metrologia                             17

Segurança                             49

Geografia                               58

Agrimensura                          61

Aeronáutica                           72

Indústria naval                     74

Indústria de alimentos         74

Meio ambiente                     77

Indústria têxtil                    144

Geologia                             216

Química                              224

Elétrica                               268

Mecânica                            278

Engenharia civil                 645

Total de responsabilidades   2.760

Fonte: Crea-SP