Com a valorização da açúcar no mercado internacional, o setor sucroalcooleiro tem um cenário indefinido | Crédito: Divulgação

O consumo de etanol hidratado, em Minas Gerais, segue em alta. De acordo com os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em janeiro, foram consumidos, no Estado, 264,5 milhões de litros de etanol hidratado, o maior volume registrado para o mês.

A comercialização do produto ficou 3,9% maior quando comparada com igual mês de 2019, quando as vendas tinham alcançado 254,6 milhões de litros.

Para 2020, as expectativas são positivas para o setor, apesar de, no momento, os preços do etanol não estarem tão competitivos em relação aos da gasolina devido ao período de entressafra da cana-de-açúcar e aos preços mais baixos do barril de petróleo. Apesar da competitividade menor do etanol, os preços do açúcar estão valorizados, o que equilibra o setor.

No ano passado, os preços do etanol mantiveram-se competitivos e, por isso, o volume consumido chegou a superar o da gasolina. O consumo de etanol vem apresentando volumes recordes no Estado. Para se ter ideia, em 2019, as vendas do biocombustível, em Minas Gerais, chegaram a 3,19 bilhões de litros sobre os 2,48 bilhões de litros comercializados em 2018. Assim, houve alta de 28,2%.

“Mesmo com a relação de preços entre o etanol e a gasolina aumentando, em janeiro, ainda tivemos um resultado muito bom no consumo do etanol hidratado. Foi um consumo expressivo de 264,5 milhões de litros. Isso mostra que o consumidor está atento e mais consciente em relação aos preços e também às questões ambientais, já que o etanol é um combustível limpo”, explicou o presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), Mário Campos.

Ainda segundo Campos, o aumento do consumo de combustível é um ponto positivo e mostra que a economia está retomando. “O consumo de etanol continua expressivo, já vemos isso nas usinas. O mercado de combustível, de maneira geral, está aquecido. Isso é muito bom, é um sinal de retomada da economia. Ainda não sabemos como será o comportamento nos demais meses, com a questão do coronavírus e a reação dos mercados. O fato é que o mercado de combustível em alta é sinal de retomada da economia”, disse Campos.

Cenário indefinido – Ele explica ainda que o cenário produtivo para 2020 está indefinido. Isso devido à valorização do açúcar no mercado internacional e da queda dos preços da gasolina em função dos preços mais baixos do barril de petróleo. Dessa forma, as usinas fecharam contratos para a venda de açúcar. Por isso, a tendência é de que a safra de cana-de-açúcar seja mais açucareira que a anterior.

“Os preços do açúcar ficaram em patamares interessantes para o setor durante janeiro e fevereiro. Muitas usinas aproveitaram o bom momento para precificar as suas futuras produções e, isso, influencia para um mix mais açucareiro. Estatisticamente, a safra começa em abril, por isso, ainda não tem como definir certo como ficará a produção”.

Os efeitos do coronavírus no mercado de petróleo, segundo Campos, causam preocupações no setor, porque é o concorrente e que baliza os preços da gasolina no Brasil. O preço do barril, que antes estava cotado acima de US$ 60, caiu para cerca de US$ 50 e, isso, compromete a competitividade do etanol. Por outro lado, o mercado do açúcar segue com preços interessantes para o setor.

“Nossa expectativa é de que 2020 seja mais açucareiro que os dois últimos anos, mas o quanto, ainda é uma incógnita. Isso pela recuperação do mercado de açúcar e pelos preços mais baixos do petróleo. Como a maior parte das usinas é de produção mista, conforme o mercado, podemos otimizar a produção e privilegiar o produto que tem maior rentabilidade”, disse Campos.

Produtor segue com exclusividade em cota

Rio de Janeiro – Um juiz federal da 1ª Região indeferiu mandado de segurança apresentado pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), que buscava garantir aos seus associados o uso de cota para compras externas de etanol anidro isentas de imposto de importação, de acordo com documento visto pela Reuters.

A ação foi movida em janeiro após a Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério da Economia, ter publicado, no fim do ano passado, uma resolução que limita o uso do benefício aos produtores do biocombustível, impedindo o acesso por distribuidores e importadores.

Na ocasião, a Abicom informou à Justiça ter optado pelo mandado diante de uma situação de urgência, uma vez que a cota, de 750 milhões de litros, iria vigorar por 12 meses e o prazo para a implantação dos pedidos de licença de importação teria início em 1º de fevereiro.

A associação alegou ainda no documento que, caso a liminar não fosse deferida, seus associados ficariam impedidos de importar etanol no mínimo pelo próximo ano.

No mês passado, a BR Distribuidora, maior distribuidora de combustíveis do País, pediu para ser admitida na ação na condição de amicus curiae, apontando que as distribuidoras estavam submetidas “a adquirir o etanol exclusivamente dos produtores e, por conseguinte, a mercê dos preços por eles praticados, em prejuízo aos consumidores”.

Na decisão, datada da última sexta-feira, o juiz federal substituto da 16ª Vara Gabriel Paiva afirmou que a medida da Camex visou a evitar a possibilidade de distorções por eventual obtenção de licença de importação por agentes que atuem com exclusivo intuito especulativo, “sem o real interesse de continuar exercendo a atividade de importação após finda a vigência da cota”.

“Conforme foi explicado nas informações prestadas, tais empresas adquiriam tais cotas apenas para revendê-las por um preço mais elevado, no mercado paralelo”, afirmou o juiz.
“Não se trata apenas de analisar da legitimidade da Resolução Camex nº1/2019 sob o prisma dos princípios da isonomia, da livre concorrência e exercício da atividade econômica, tendo em vista que vem justamente no anseio de corrigir distorções na economia decorrentes do livre mercado, o que foi devidamente apreciado na esfera administrativa”.

Diante da negativa da Justiça, o presidente da Abicom, Sérgio Araújo, informou à Reuters que já protocolou um recurso.

“É uma pena que a decisão do juiz mantenha a exclusividade do acesso às cotas para os produtores e, com isto, afaste a oportunidade de redução de custo para os consumidores de gasolina”, disse Araújo. (Reuters)