Após entrada na B3 em fevereiro, a incorporadora Mitre Realty Empreendimentos já teve desvalorização de 39% em seus papéis | Crédito: Amanda Perobelli/Reuters

São Paulo – Poucas semanas atrás, misturadores de cimento, guindastes, escavadeiras e trabalhadores em pelo menos quatro diferentes obras residenciais e comerciais tumultuavam uma estreita rua próxima à Faria Lima, a mais movimentada via empresarial de São Paulo.

Em um dos vários canteiros de obras de São Paulo, a atividade – juntamente com uma longa fila de empresas que queriam levantar cerca de R$ 10 bilhões em ofertas públicas iniciais de ações – sugeria que o mercado imobiliário brasileiro finalmente se recuperava de uma longa crise.

Embora as obras prossigam em muitas das ruas agora esvaziadas pela pandemia de coronavírus, ao menos uma dúzia de listagens de ações de construtoras foi cancelada ou adiada.

As ações da Mitre Realty Empreendimentos, que, em fevereiro, tornou-se a primeira incorporadora a listar ações na bolsa paulista em mais de dez anos, despencaram cerca de 39%, superando a queda de 35% do Ibovespa.

“Quando se olha para a bolsa de valores, vemos movimentos de venda por investidores que querem se proteger das incertezas, então não é um bom momento para IPOs”, afirmou Luiz Antonio França, presidente da Associação Brasileira das Incorporadoras (Abrainc).

A indústria da construção civil desempenha papel crucial na economia brasileira, respondendo atualmente por cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e mais de 5% dos empregos com carteira assinada. Mas o setor foi um dos que mais sofreu com a recessão que atingiu o País a partir de 2014.

Marcada por inadimplência recorde, distratos e custos de financiamento altíssimos, a mais recente crise vivida pela construção civil levou duas incorporadoras a pedir recuperação judicial e outras a reestruturar suas dívidas.

Agora, mesmo com a taxa de juros em um nível historicamente baixo de 3,75%, o que normalmente encorajaria financiamentos imobiliários, brasileiros devem adiar a compra de imóveis em meio a alertas de aumento do desemprego, à medida que empresas são forçadas a suspender atividades, segundo agentes do mercado.

“O mercado imobiliário costuma ser um refúgio em tempos de crise, mas cancelamentos ou adiamento das vendas podem ocorrer se o desemprego subir”, disse Basilio Jafet, presidente do Sindicato da Habitação (Secovi) de São Paulo, centro financeiro do Brasil.

Há pouco mais de um mês, o Secovi-SP projetava alta de 10% nas vendas de novos imóveis residenciais na cidade de São Paulo em 2020 em meio a expectativas de avanço em importantes reformas econômicas.

Mas esses números devem ser revisados para baixo após o surto de coronavírus, apesar dos esforços de construtoras para prosseguir com as vendas por meio de canais digitais enquanto os stands e showrooms seguem fechados por determinação de autoridades para conter a epidemia.

“Parecia um cenário perfeito para o setor imobiliário, com baixas taxas de juros, atividade econômica se recuperando e vendas começando a crescer”, disse Guilherme B. Netto, sócio na RBR Asset Management, especializada em ativos imobiliários. “Agora está tudo incerto”. (Reuters)

Mercado imobiliário adota cautela em lançamentos

São Paulo – Apesar das regras de isolamento social adotadas por decretos municipais e estaduais e de algumas interrupções no transporte coletivo, as obras não foram paralisadas, dado que os trabalhos ocorrem a céu aberto.

Um esquema de rodízio para refeições também vem sendo adotado para reduzir o risco de contaminação pelo coronavírus, acrescentou o presidente do Sindicato da Habitação (Secovi) de São Paulo, Basilio Jafet.

“Somos a locomotiva, então se nós pararmos os vagões também param”, disse o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins, lembrando que outros 62 setores, incluindo o varejo, são impactados pela construção civil.

Embora as obras em andamento continuem, incertezas sobre a duração da crise colocam em risco os lançamentos de novos projetos. “Não vamos lançar nada do jeito que as coisas estão”, disse Raphael Horn, co-presidente da Cyrela, em teleconferência recente com analistas sobre os resultados do quarto trimestre.

O desemprego, que deve disparar com a epidemia do coronavírus, é a principal preocupação, afirmou o gestor de ativos da Ace Capital, Gabriel Trebilcock. “As taxas de juros baixas são importantes para o setor, mas não são tudo. O desemprego precisa cair para impulsionar as vendas”.

Ainda assim, participantes do setor seguem cautelosamente otimistas, destacando sinais de esperança na China, epicentro inicial do coronavírus. “A China conseguiu controlar o coronavírus, então só podemos esperar que o resto do mundo também o fará e não tenho dúvidas de que o mercado imobiliário se recuperará na mesma velocidade com a qual caiu”, disse o presidente da Associação Brasileira das Incorporadoras (Abrainc), Luiz Antonio França.

Outros se esforçam para manter o cronograma de lançamentos enquanto for possível. “Por enquanto, nossa decisão foi lançar os novos projetos planejados para março e abril também”, contou Eduardo Fischer, copresidente da MRV, a maior construtora de imóveis econômicos da América Latina. “Mas, em momentos como esse, a decisão de segunda-feira pode não ser a mesma da terça”, alertou o executivo. (Reuters)

Incerteza muda estratégia de carteiras de investimento

São Paulo – Abril começa com incertezas persistentes sobre os efeitos da pandemia de coronavírus nas economias no exterior e no Brasil, referendando cautela nas estratégias para as ações brasileiras, conforme carteiras compiladas pela Reuters.

“Embora o Ibovespa tenha sofrido um colapso de 30% em março, o impacto da crise nos preços dos ativos brasileiros ainda não está claro”, afirmou a equipe do BTG Pactual.

“Com um cenário incerto à frente, nós decidimos aumentar a qualidade e o perfil defensivo do nosso portfólio, além de deixá-lo mais diversificado”, escreveram Carlos Sequeira e Osni Carfi, em relatório a clientes.

O Ibovespa contabilizou uma queda de 29,90% no mês passado, maior declínio percentual mensal desde agosto de 1998, ano marcado pela crise financeira russa, o que fez o Ibovespa acumular queda de 36,86% no ano.

Para a equipe da BB Investimentos, o mercado financeiro está vivendo momentos de pânico, apoiados no cenário recessivo da economia global, cujos impactos começam a ser calculados, mas ainda sem uma clara definição do real choque econômico.

“Olhando para frente, acreditamos que os ativos devem continuar voláteis, pois entendemos que atuação dos bancos centrais deverá chegar ao seu limite em determinado momento, com o mercado ficando à espera da eficácia das medidas adotadas”.

A equipe da XP Investimentos, que classificou o momento como “tempos de guerra” em relatório recente, afirmou que optou em aumentar a exposição a nomes com receitas mais defendidas no curto prazo.

“Isso inclui principalmente ações de grupos multinacionais e exportadoras, com receitas dolarizadas e grande exposição de receitas para a China, dado os sinais de início de um processo de normalização da economia por lá”.

Nesse contexto, a equipe liderada por Fernando Ferreira reduziu exposição a setores ligados à atividade doméstica, citando os impactos operacionais negativos no curto prazo pelo fechamento de lojas e restrição de circulação de pessoas. (Reuters)