Editorial

Entre Nova Lima e Ladainha

Índice de Progresso Social (IPS Brasil 2026) expõe a persistente desigualdade em Minas Gerais e no País
Entre Nova Lima e Ladainha
Nova Lima | Foto: Reprodução Adobe Stock

Os números do IPS Brasil 2026 não surpreendem quem acompanha os indicadores sociais do País, mas seguem incomodando pela persistência do padrão. Pela terceira vez consecutiva, as melhores posições do ranking de qualidade de vida pertencem ao Sul e ao Sudeste. As piores, ao Norte e ao Nordeste. O Brasil que avança e o Brasil que espera continuam separados por uma distância que o crescimento do PIB, sozinho, nunca foi capaz de encurtar.

Minas Gerais aparece nesse cenário em uma posição ambígua, que merece leitura cuidadosa. Nova Lima figura entre as 20 cidades com melhor desempenho do País, com 71,22 pontos, e Belo Horizonte registra 69,66 entre as capitais, ocupando a 5ª colocação nesse recorte. São resultados que revelam capacidade institucional, infraestrutura consolidada e acesso a serviços que boa parte do território nacional ainda não conhece de perto.

Mas Minas é também Ladainha, que aparece entre os 20 municípios com pior desempenho do ranking, com 47,58 pontos. Um Estado que abriga simultaneamente Nova Lima e Ladainha não pode se contentar com as médias. A distância entre essas duas realidades, dentro de um mesmo território, é em si uma denúncia. Significa que o desenvolvimento mineiro chegou fundo em alguns pontos e mal arranhou a superfície em outros.

O IPS (Índice de Progresso Social), vale lembrar, não mede riqueza produzida. Mede condições reais de vida: saúde, educação, saneamento, segurança, meio ambiente, inclusão. São 57 critérios que, juntos, respondem a uma pergunta simples e exigente: as pessoas vivem bem onde moram? Em Ladainha, a resposta que o índice devolve é dura. Em Nova Lima, é encorajadora. Em Belo Horizonte, é mediana para uma capital com o peso econômico que a cidade carrega.

O desafio mineiro não é, portanto, celebrar os bons resultados nem lamentar os ruins. É reconhecer que ambos convivem no mesmo Estado e que essa convivência tem custo político, social e econômico. Municípios com baixo IPS drenam mais recursos públicos em saúde emergencial, segurança e assistência. Têm menor capacidade de gerar receita própria, maior dependência de transferências e menos atratividade para investimentos privados. O subdesenvolvimento localizado não é problema apenas de quem está nele. É um freio coletivo.

A média nacional de 63,40 pontos em 2026, ligeiramente acima dos 63,05 do ano anterior, indica que o País avança, mas em passos que não empolgam. Para Minas Gerais, o recado do ranking é preciso: os instrumentos existem, a capacidade técnica também. O que falta é decisão política de levar qualidade de vida a quem ainda não tem, antes que a desigualdade interna do Estado se torne, ela mesma, um dado permanente do mapa.

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