El Niño mais intenso faz seguradoras reforçarem prevenção e reverem preços
A possibilidade de intensificação do El Niño no segundo semestre de 2026 já mudou a estratégia das seguradoras no Brasil, com reflexos também em Minas Gerais. Diante da previsão de eventos climáticos mais extremos, as empresas estão reforçando o monitoramento meteorológico, ampliando estruturas de atendimento, orientando clientes sobre prevenção e revendo critérios de aceitação e precificação de riscos.
Segundo o presidente do Conselho Empresarial de Seguros da ACMinas, Sérgio Frade, os preços dos seguros já acumulam altas, não só em função do El Niño, mas também do aumento da frequência de eventos climáticos. “O preço dos seguros aumentou, bem como as franquias e o maior rigor na aceitação dos riscos. Podemos estimar um aumento na faixa de 20%”, comenta.
O alerta ganhou força com as projeções dos órgãos federais de monitoramento climático. O Painel El Niño, resultado de ação conjunta entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), confirmou em junho a configuração do fenômeno e apontou probabilidade superior a 90% de permanência até, pelo menos, o início de 2027.

O boletim também indica alta probabilidade de um El Niño muito forte, com anomalias de temperatura da superfície do mar superiores a 2°C no Pacífico Equatorial entre a primavera e o verão.
Dados compilados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) mostram que a média anual de registros de eventos climáticos no País passou de cerca de 2,5 mil, entre 2015 e 2019, para aproximadamente 4,5 mil, entre 2020 e 2024.
O presidente da Comissão de Riscos Patrimoniais Massificados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Jarbas Medeiros, explica que as seguradoras começaram a se preparar desde os primeiros alertas sobre a possibilidade de um El Niño mais intenso. “As seguradoras monitoram as condições, esperam a ocorrência de mais sinistros e tentam fortalecer as estruturas físicas, digitais e os aplicativos. Também procuram entender as carteiras e estimular os clientes mais vulneráveis a ampliar a proteção”, afirma.

Segundo ele, o setor trabalha com a perspectiva de aumento dos sinistros, mas reconhece que os efeitos serão diferentes nas regiões do País. “Sabemos que não vai impactar de maneira igual. Temos previsão de secas fortes no Centro-Oeste, chuvas no Sul e ondas de calor no Sudeste. Dessa forma, atuaremos de forma diferente, mas de forma preventiva, reduzindo riscos ou minimizando os prejuízos”, diz.
Para Frade, a perspectiva de eventos extremos aumenta a pressão sobre as seguradoras porque amplia a possibilidade de indenizações simultâneas em uma mesma região. “Há, de fato, uma preocupação enorme por parte das seguradoras em função do potencial de danos a serem cobertos”, afirma. A resposta passa pela revisão dos modelos de precificação, pelo aumento das taxas e das franquias e por maior rigor na aceitação de determinados riscos.

O movimento atinge especialmente os chamados seguros massificados, como residenciais e automotivos, além do seguro rural e das apólices empresariais. O excesso de chuvas pode aumentar ocorrências envolvendo imóveis e veículos, enquanto a seca e as ondas de calor podem provocar perdas no campo e elevar a demanda por indenizações no seguro agrícola.
No agronegócio, o risco é particularmente relevante porque a atividade está diretamente exposta à variação de chuva e temperatura. O próprio Painel El Niño aponta que temperaturas mais elevadas e menor precipitação podem aumentar a deficiência hídrica em áreas produtoras, enquanto o excesso de chuva no Sul pode favorecer doenças nas lavouras e dificultar operações agrícolas.
Medeiros, pontua, nesse sentido, que a experiência adquirida com a tragédia climática do Rio Grande do Sul, em 2024, mudou a atuação do mercado. Segundo ele, as seguradoras passaram a trabalhar com maior capacidade de resposta e aperfeiçoaram a avaliação da concentração de riscos. “Em 2024, poucas seguradoras ofereciam proteção para alagamento e inundação. Hoje, a maioria, cerca de 80%, oferece essas opções para residências e empresas. O mercado entendeu que é uma necessidade”, afirma.
Apesar da ampliação da oferta, a contratação ainda é baixa, e o entrave é fazer com que a proteção avance na mesma velocidade dos riscos. “Atualmente, somente cerca de 5% dos clientes optam por essas coberturas. O maior desafio é ampliar essas coberturas, e o corretor tem um papel essencial nisso”, afirma.
Seguradoras reforçam prevenção
Entre as seguradoras que estão se prevenindo e já adotaram mudanças, Frade afirma que são inúmeras e cita a Mapfre e a Zurich. “A seguradora Mapfre está voltada para a mitigação de riscos e não apenas para o pagamento de indenizações. A companhia produz estudos e relatórios sobre eventos climáticos justamente para permitir que segurados e corretores se antecipem aos impactos provocados pelas mudanças do clima, numa iniciativa de começar antes da indenização, de forma a comunicar o segurado, a avaliar sua exposição aos riscos e verificar se ele está devidamente protegido para enfrentar um evento climático”, diz.
Já a Zurich, segundo ele, oferece o Zurich Resilience Solutions, serviço de engenharia e consultoria de riscos para orientar corporações a aumentarem sua resiliência contra eventos extremos. “A companhia atua no combate aos efeitos climáticos transformando o modelo de seguros. Em vez de apenas pagar indenizações após os danos, a empresa foca na prevenção, usando dados avançados para antecipar riscos, reduzir emissões próprias e apoiar comunidades”, finaliza.
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