Finanças

Finfluencers mineiros ganham força com popularização da educação financeira

Com mais brasileiros dispostos a falar sobre dinheiro, criadores de conteúdo ampliam audiência e transformam experiência em orientação prática
Finfluencers mineiros ganham força com popularização da educação financeira
Foto: Diário do Comércio/ Montagem/ Reprodução/ Instagram

Mais que ditados populares, expressões como “de grão em grão, a galinha enche o papo” ou “o barato sai caro” mostram como o dinheiro sempre esteve presente no imaginário brasileiro. Essa relação, cada vez mais aberta, também aparece nos dados: levantamento recente do Itaú Unibanco em parceria com o Grupo Consumoteca, feito com cinco mil pessoas de 15 estados, mostra que 78% dos entrevistados já não sentem desconforto em falar sobre finanças. Oito em cada dez respondentes apontam o assunto como uma preocupação relevante.

Esse cenário tem impulsionado o crescimento dos chamados finfluencers, criadores de conteúdo voltados a finanças pessoais, investimentos e educação financeira. Dados do FInfluence 10, estudo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (Ibpad), indicam que, em pouco mais de cinco anos, a audiência desses perfis saltou de 74 milhões para 310,7 milhões de seguidores, alta superior a 300%. A pesquisa indica que o avanço é sustentado por consistência na produção de conteúdo, e não por picos isolados de viralização.

Com foco na gestão financeira de pequenos negócios, especialmente aqueles comandados por mulheres, a influenciadora belo-horizontina Pamela Margarida, de 40 anos, acompanhou esse movimento de perto. À frente do perfil @facoascontas, ela viu sua audiência crescer de cerca de três mil seguidores, em 2020 – quando começou a criar conteúdo – para 55,1 mil atualmente, um aumento de 1.737%. O conteúdo vai desde orientações para mensurar resultados até dicas de precificação de produtos e serviços.

“Tive um crescimento de cerca de 900% no primeiro ano do meu perfil, saindo de três mil para 30 mil seguidores. De 2021 a 2025 o avanço foi de cerca de 10% ao ano”, revela Pamela Margarida, que antes mesmo de começar a influenciar nas redes já dava aulas, cursos e consultorias desde 2015. “Sou administradora e especialista em educação empreendedora. Sempre trabalhei para microempreendedores individuais (MEI)”, conta a influencer.

Pamela Margarida
Pamela Margarida, que produz conteúdo para pequenas empreendedoras, teve crescimento de 1.737% em sua audiência desde que criou o perfil @facoascontas. | Foto: Pamela Margarida/ Faço as contas

Segundo ela, o boom do empreendedorismo feminino durante a pandemia impulsionou a busca por esse tipo de conteúdo. “Muitos começaram por necessidade, para compensar a perda de renda. Hoje, quem permaneceu busca aprofundamento e entende que precisa cuidar também das finanças pessoais”, afirma.

Conteúdo didático e referenciado

Falar de maneira prática, traduzindo pautas aparentemente complexas para o cotidiano dos seguidores, é, segundo Pamela Margarida, sua maior estratégia de comunicação. Em um dos posts recentes, ela explicou a taxa de juros do crédito rotativo no Brasil, que, em fevereiro, atingiu 436% ao ano. “Ao traduzir esse número, mostrei que a dívida pode quintuplicar em um ano. Muita gente se assustou. Embora a informação de extremo encarecimento pareça óbvia, não é para todo mundo”, reforça.

A influenciadora digital também destaca, com orgulho, que todo o conteúdo produzido é embasado em fontes oficiais sobre a área. ”Eu estudo muito, dou valor à literatura, mas sem me apegar ao academicismo. Além disso não uso nenhum termo técnico e nem trago informações que não vão se converter em dicas práticas para o seguidor”, reforça.

Pioneira nas criptomoedas

Diferentemente de Pamela Margarida, que já estava inserida na área de finanças mesmo quando ainda não produzia conteúdo para as mídias digitais, a influenciadora mineira Giovana Simão, de 29 anos, trocou de áreas e mudou-se da formação original, em engenharia agronômica na Universidade de São Paulo (USP), para o universo das criptomoedas em 2019.

Natural de Camanducaia, município com pouco mais de 26 mil habitantes no Sul de Minas, ela conta que o interesse pelo tema nasceu ainda na graduação, quando começou a integrar grupos de estudo que abordavam, entre outros assuntos, o Bitcoin (BTC) e as finanças descentralizadas. Movida pelo entusiasmo com os conhecimentos adquiridos, Giovana Simão decidiu, em 2020, abrir um canal no Instagram, o @bitdasminas. Com a rápida aceitação da audiência, o que era um hobby virou negócio.

“Na pandemia eu tive um boom. Em pouco tempo já estava com 30 mil seguidores”, conta. Atualmente seus conteúdos sobre as moedas digitais chegam a 172 mil pessoas no YouTube e a mais de 94 mil seguidores. “Lá em 2019, fui uma das primeiras mulheres a falar sobre criptomoedas, um universo muito masculino e machista. Então, o Bit das Minas, como o próprio nome reforça, vem para aumentar a representatividade feminina no setor”, destaca e lembra que, um ano depois da criação do perfil, já conseguia viver apenas da criação de conteúdo.

O sucesso foi tamanho que, em 2023, Giovana Simão figurou na renomada lista Forbes Under 30, na categoria finanças. A publicação anual coloca em evidência jovens com menos de 30 anos que estão se destacando em áreas como negócios, tecnologia, esportes, artes, ciência, entre outras. “Também já fui reconhecida como uma das mulheres mais influentes nesse segmento pela revista Claudia, um dos maiores veículos femininos do País”, diz.

Mercado volátil exige mudanças de rotas

Apesar de já ter se consolidado como um forte nome de influência no nicho em que atua, Giovana Simão reconhece que o mercado é volátil e, às vezes, exige mudanças de rota em sua carreira. “A gente só ganha dinheiro e só cresce em audiência se os investimentos estiverem em alta. Se o mercado cai e o Bitcoin está em baixa, torna-se desafiador produzir conteúdo nesse cenário. As nossas ondas de crescimento oscilam”, declara.

Giovana Simão
De Camanducaia para a lista da Forbes, Giovana Simão é pioneira na educação do mercado cripto para mulheres. | Foto: Nany de Sá/ Bit das Minas

Nos últimos episódios de queda ampla dos investimentos em cripto, a produtora de conteúdo conta que precisou fechar sua empresa, uma agência de marketing especializada na área e teve que buscar outras formas de empreender. “Agora, por exemplo, estamos em um momento de baixa. Vou migrar meu olhar para finanças no geral e começar a falar de organização financeira e da importância de investir a longo prazo”, revela. Ela acrescenta estar sempre atenta às tendências do mercado para captar os assuntos do momento.

Experiência que vira conteúdo

O mentor financeiro Rodrigo Schumacher, de 47 anos, levou quase duas décadas de experiência no setor bancário para o ambiente digital. Após passar por instituições como Santander, Caixa Econômica Federal, Itaú e HSBC, passou a atuar, em 2017, com treinamentos em finanças e comportamento. Nessa toada, o perfil profissional, @rodrigoschumacherfinancas surgiu como alternativa para ser sua vitrine corporativa. “O Instagram é uma das minhas frentes de trabalho. Cerca de 30% dos meus clientes vêm desta rede social”, revela.

Graduado em administração, com MBA pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Schumacher, que comanda um centro de treinamento em finanças em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), atribui o crescimento dos finfluencers ao aumento do endividamento entre os brasileiros. Segundo a última Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias endividadas no País atingiu 80,4% em março, maior nível da série histórica. “As pessoas estão entendendo que não basta ter dinheiro. É preciso saber administrá-lo. Por isso buscam conhecimento”, diz

Rodrigo Schumacher
O mentor financeiro Rodrigo Schumacher levou a experiência de mais de 20 anos de mercado para as redes sociais. | Foto: Divulgação/ RSF

Com mais de 12 mil seguidores, Schumacher produz conteúdos voltados a quem quer investir, sair das dívidas ou organizar a vida financeira. “O mais importante é viver o que se ensina. Eu só falo do que realmente faço”, afirma. Em seu canal no Youtube, o mentor compartilha vídeos de seis minutos até quase duas horas de duração sobre temas variados no universo das finanças, incluindo desde orientações para quem deseja construir a vida financeira dos filhos a dicas de como converter gastos em milhas.

Colega de profissão, o consultor Erasmo Vieira, de 58 anos, também vem ampliando sua presença nas plataformas digitais. Após duas décadas como palestrante na área de inteligência financeira, época em que atuou em instituições como a Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais (Ocemg) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Vieira passou a usar as redes sociais como extensão do trabalho. “Por estar no palco falando para instituições conhecidas, as pessoas, naturalmente, passam a me seguir”, conta.

Após mais de 9 mil seguidores terem chegado de forma orgânica desde 2021, quando começou a usar o Instagram @erasmovieiraconsultor para fins profissionais, há pouco mais de cinco meses, o consultor investe em um trabalho de marketing, monitorando métricas e conteúdos que mais engajam. “Meu objetivo, ao desenvolver um olhar mais estratégico para o perfil, é aumentar as contratações de palestras”, afirma.

Erasmo Vieira
Erasmo Vieira fala sobre inteligência financeira para grandes empresas. | Foto: Divulgação/ Arquivo pessoal

Nascido em Barão de Cocais, na região Central de Minas Gerais, mas morando em Belo Horizonte há mais de quatro décadas, Vieira é autor do livro Viva em paz, que propõe uma reflexão sobre a relação entre dinheiro, emoções e qualidade de vida. A obra defende ainda que a verdadeira tranquilidade financeira não está apenas em ganhar mais, mas em desenvolver consciência sobre hábitos, escolhas e propósito.

Dicas para quem deseja ser um finfluencer

“É importante ter nicho. Quanto mais específico for o influenciador, melhor será sua comunicação.” – Pamela Margarida

“É preciso resiliência, estar alinhado ao seu propósito e sempre se questionar porque começou e onde quer chegar.” – Giovana Simão

“É um trabalho sério. Lidamos com dívidas e sonhos, o que exige responsabilidade.” – Erasmo Vieira

“É essencial buscar capacitação, conhecimento especializado, se respaldar em informações verídicas e, principalmente, praticar o que ensina.” – Rodrigo Schumacher

Outros dados do FInfluence 10

  • O número de influenciadores de finanças avançou 12,6% no segundo semestre de 2025, totalizando 904 perfis;
  • No segundo semestre de 2025, os influenciadores de finanças publicaram 468 mil conteúdos nas redes sociais, quase o triplo do volume registrado em 2020, quando cerca de 160 mil posts foram mapeados;
  • O Instagram se consolida como principal canal de distribuição, com maior frequência de posts e engajamento. A média de interações por publicação avançou 27,4%, refletindo maior aderência aos formatos e à lógica do algoritmo;
  • O YouTube se consolida como plataforma de aprofundamento, com conteúdos mais longos e didáticos.

Os números fazem parte da décima edição do FInfluence que, desde 2020, monitora o comportamento dos influenciadores de finanças no Brasil no YouTube, X, Instagram e Facebook. A proposta, segundo o levantamento, é identificar tendências, padrões de engajamento e a evolução do debate financeiro no ambiente digital.

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