Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Flávio Vinte *

 Essencial para a organização financeira de uma empresa, o fluxo de caixa é um dos principais responsáveis pelo encerramento de alguns negócios no Brasil. É por meio dele que o empresário mantém o controle de contas a pagar e receber do empreendimento, por isso, sem um planejamento eficiente, o risco de falência por atraso de pagamentos, como salários dos funcionários, encargos, impostos, aluguel e fornecedores, torna-se alto e, cada vez mais, real.

No cenário de crise causado pela pandemia, o planejamento das finanças é ainda mais importante para a sobrevivência de qualquer empresa, principalmente se há queda no consumo de produtos e serviços. Porque, a partir do momento em que o empreendedor retira dinheiro do caixa para a compra de um produto, o ciclo financeiro da empresa é iniciado. Esse item fica armazenado até ser vendido e, quando a venda é realizada, o consumidor pode precisar de um prazo para pagamento, o que torna o ciclo ainda mais longo. Ele só é finalizado quando esse dinheiro volta para o caixa da empresa e é possível pagar os fornecedores. Mas com a crise econômica e a ausência de venda, esse processo pode ser ainda mais demorado.

Além disso, com a diminuição no consumo, se o empresário fizer uma previsão errada e comprar a mesma quantidade de produtos que adquiria antes da pandemia, por exemplo, o estoque ficará mais tempo parado. Com isso, o risco do prazo para pagar os fornecedores ser menor que o pagamento dos clientes é grande. Dessa forma, é essencial existir um planejamento para quitar as obrigações e os produtos adquiridos neste período, sem o risco de ir à falência.

Uma pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o impacto da crise do coronavírus mostra que o País já perdeu 716 mil empresas durante a quarentena. O número representa mais da metade de 1,3 milhão de firmas que estavam com atividades paralisadas temporária ou definitivamente na primeira quinzena de junho em função do isolamento social.

Segundo o levantamento, os efeitos da pandemia atingiram todos os setores da economia, mas foram mais intensos nos principais segmentos geradores de emprego no País: serviços e pequenas empresas. Entre as que não voltarão a abrir as portas, 99,8% eram de pequeno porte.

Outro desafio que as micro e pequenas empresas vêm enfrentando são as dificuldades de acesso às linhas de crédito de instituições financeiras. Por conta do choque econômico negativo que essas entidades sofreram, em especial aquelas ligadas a setores que dependem do movimento nas ruas, como o varejo, por exemplo, diversos empreendedores precisaram recorrer às medidas de auxílio do governo federal. Com isso, a demanda se tornou alta e nem todos conseguiram ser atendidos.

Informação que pode ser confirmada a partir de dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que ouviu 6.080 microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte entre os dias 3 e 7 de abril. Trinta por cento dos empresários tiveram que buscar empréstimos em instituições financeiras para manterem seus negócios, 29,5% destes empreendedores ainda aguardam uma resposta das instituições financeiras e 59,2% simplesmente tiveram seus pedidos negados.

Com os imprevistos que surgiram neste ano, o momento é de repensar o planejamento financeiro para minimizar os impactos causados pela crise. E manter o controle do fluxo de caixa permite projetar o saldo disponível para que exista sempre capital de giro para as obrigações ou eventuais gastos, além de diminuir os custos e redobrar o controle de saídas e entradas de dinheiro.

Como o cenário tem se mantido instável, o período pede projeções mais curtas, como para os próximos dois ou três meses. E, caso seja necessário, readequar o planejamento. Momentos de crise pedem agilidade na tomada de decisões e rápidas adaptações às exigências do mercado.

*Empreendedor e CEO da Vivaçúcar