Diretores defendem Anvisa em meio ao caso Ypê e denunciam desinformação e ataques racistas
Diretores da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) defenderam nesta terça-feira (13) a atuação do órgão regulador em meio a ataques de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por causa da determinação de recolhimento de parte dos produtos de limpeza da marca Ypê.
O diretor Thiago Lopes Cardoso Campos relatou ter sofrido ataques racistas em publicações nas redes sociais.
“Eu confesso que isso dói, porque nenhuma pessoa deveria precisar provar diariamente que pertence ao lugar que ocupa. Dói porque eu sei quantas pessoas negras, antes de mim, foram silenciadas, interrompidas ou expulsas simbolicamente desses espaços”, disse ele.
O presidente da Anvisa, Leandro Safatle, disse que a circulação de informações falsas e distorcidas “coloca vidas em risco”.
“Quando pessoas são expostas a conteúdos inverídicos sobre medicamentos, vacinas, tratamentos ou riscos sanitários, estamos diante de uma prática profundamente irresponsável e perigosa”, afirmou.
Na quinta-feira (7), a agência determinou o recolhimento de detergente, sabão líquido para roupas e desinfetante de todos os lotes da Ypê com a numeração final 1 fabricados em Amparo, no interior de São Paulo. A Anvisa ainda suspendeu a produção dos produtos sob o argumento de que havia falhas no controle de qualidade.
Na última semana, teorias fantasiosas foram disseminadas por líderes e militantes bolsonaristas para defender a Ypê diante da decisão da Anvisa. Entre as postagens virais, pessoas tomam banho e lavam um frango com detergentes da marca, e até simulam que bebem o produto.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) ainda publicou uma foto com detergente da marca no sábado (9), enquanto o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), defendeu a marca em um vídeo em que aparece lavando louça.
A Anvisa retirou da pauta da sua reunião desta quarta-feira (13) votação sobre recurso da Ypê, que deve ser avaliado nesta sexta-feira (15). No mesmo encontro, os diretores defenderam o órgão regulador e relataram que se tornaram alvos de ataques.
“Há diferença entre discordar de uma decisão e tentar destruir a humanidade de alguém.
Há quem não consiga lidar com um homem negro ocupando um espaço de decisão e autoridade institucional. Por isso, transformam minha aparência, minha identidade e meus traços em alvo de violência”, disse Thiago Campos.
“Não permitirei que o ódio me constranja, me intimide ou me faça hesitar diante das decisões que eu precise tomar para proteger a saúde da população brasileira”, afirmou ainda.
O diretor Daniel Meirelles, que é responsável pelo setor de fiscalização, disse que a Anvisa toma rotineiramente medidas que envolvem recolhimento de produtos, “justamente pelo tamanho do mercado que a agência regula”. Ele afirmou que tem “confiança plena e irrestrita” nas ações da área técnica.
A diretora Daniela Marreco, da área de medicamentos, afirmou que a Anvisa tem recebido ataques na mídia. “Como servidora, sempre pautei minha atuação pela técnica e pela ciência e sempre estive aberta ao diálogo. As ações da Anvisa são pautadas unicamente pelo interesse público em atender à nossa missão institucional, de promover e proteger a saúde”, disse.
O presidente do órgão, Leandro Safatle, declarou que inspeção conjunta da agência e de órgãos do governo de São Paulo e do município de Amparo, feita em abril, encontrou “falhas graves” na fábrica da Ypê relacionadas à “qualidade microbiológica, com identificação da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes de produtos acabados”, além de “deficiências no controle de materiais de embalagem”.
A empresa informou que as equipes da fábrica de Amparo “intensificaram o trabalho para atender a 239 ações corretivas, com o objetivo de cumprir as exigências da vigilância sanitária”, segundo nota divulgada pela Anvisa.
A Química Amparo, dona da Ypê, afirma ter mudado o sistema de tratamento de água, principal ingrediente usado na fabricação de seus produtos líquidos, após uma fiscalização da Anvisa, em novembro de 2025, ter encontrado contaminação bacteriana em lotes da empresa.
Na ocasião, a agência determinou o recolhimento de 14 lotes de produtos após detecção da bactéria em três tipos de lava roupas líquido. A fabricante voltou a ser alvo de sanções na última semana pela reincidência nas falhas no controle de qualidade.
Conteúdo distribuído por Folhapress
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