Ecossistema de startups verdes em Minas Gerais avança, mas ainda enfrenta desafios estruturais
Os ecossistemas de inovação voltados para negócios verdes têm avançado em Minas Gerais ao longo dos últimos anos, com o surgimento de novas startups. Esses novos negócios contribuem para o desenvolvimento de uma economia sustentável e para a geração de empregos de qualidade. No entanto, o cenário atual também escancara a necessidade da criação de um mercado consumidor no Estado.
O presidente do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-Tec), Marco Crocco, destaca o grande potencial desse mercado em Minas, devido ao grande volume de produção científica voltada para essa área. Ele relata que esse segmento vem evoluindo, com investimentos em soluções voltadas para a descarbonização, por exemplo.
“Praticamente todo hub de inovações ou parque tecnológico tem, pelo menos, uma empresa que atua nessa área. Isso é uma tendência mundial, portanto, obviamente, Minas Gerais também está envolvido”, diz.
Já a coordenadora da divisão de divisão de empreendedorismo e ambientes de inovação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Manuela de Oliveira Botrel, relata que Minas Gerais possui um ecossistema de inovação consolidado e em crescimento, com destaque crescente para startups e empresas de base tecnológica que desenvolvem soluções sustentáveis.
“Observamos uma maior maturidade dessas iniciativas, impulsionada pela articulação entre as empresas, universidades, centros de pesquisa, parques tecnológicos e as incubadoras”, pontua.
No entanto, o presidente do BH-Tec ressalta que a grande questão envolvendo os ecossistemas mineiros de tecnologia verde não está necessariamente ligada à existência de novas soluções, mas sim à dificuldade na difusão dessa tecnologia. Crocco afirma que o ponto a ser abordado é a dificuldade para aplicação dessas soluções em larga escala.
Segundo o especialista, um dos principais fatores que geram esse tipo de barreira é a falta de política pública, por parte do governo estadual, para fomentar um mercado consumidor na região. Ele explica que essa ausência de mercado local contribui para a “morte” de muitas startups verdes no Estado.
“Elas não encontram mercado para a aplicação dessas soluções porque tudo ainda é muito novo. Ainda não há uma penalização, como um custo elevado, para as empresas que não adotam este tipo de solução”, completa.
Outra solução citada pelo dirigente seria a implementação de uma política de compras públicas e de facilitação para o acesso a esta tecnologia. Além de maior fiscalização e penalização para atividades poluentes, a ponto de criar um incentivo para que as empresas do setor privado busquem novas soluções mais sustentáveis.
Principais dificuldades para as startups verdes de Minas Gerais

A CEO da startup mineira Reuso Recivla+, Yula Merola, pontua que a maior dificuldade para este tipo de empresa é a venda dos serviços oferecidos por elas. Ela relata que um dos maiores desafios para as startups de impacto socioambiental é a confusão que muitos fazem entre este tipo de negócio e entidades filantrópicas e organizações não governamentais (ONGs).
Segundo a empresária, as pessoas ainda não entenderam que é possível atuar nesse segmento e gerar lucro. Ela avalia que a sociedade ainda precisa entender o conceito de responsabilidade compartilhada. A especialista relata que muitas empresas que contratam este tipo de serviço, fazem pensando apenas em cumprir alguma obrigação legal, sem muita consciência sobre a importância do tema.
“Em Minas Gerais, nós ainda precisamos trabalhar um movimento de divulgação, eu sinto muita falta disso no Estado. Nós temos que mostrar a importância de ter empresas de impacto socioambiental”, afirma.
Além disso, Yula Merola relata que a confusão que muitos fazem entre este tipo de negócio e entidades filantrópicas e organizações não governamentais (ONGs) é outro grande desafio das startups de impacto socioambiental. Segundo ela, as pessoas ainda não entenderam que é possível atuar nesse segmento e gerar lucro.
Já a sócia-fundadora da startup mineira ESGpec, Heloise Duarte, avalia que o fato de a temática de sustentabilidade ser muito recente proporciona alguns desafios, como a dificuldade para se conectar com potenciais parceiros. “A abertura é muito boa, mas a falta de conhecimento consolidado também é um desafio”, acrescenta.
No entanto, ela também pondera que o fato de o mercado de negócios verdes estar em um estágio inicial também pode ser visto como um ponto positivo, pois proporciona muitas oportunidades. “Há muitas pessoas inovando e esse ecossistema é muito aberto para a colaboração, o que é algo muito positivo”, diz.
A empresária explica que, como a startup trabalha com o segmento de pecuária leiteira e Minas possui uma grande bacia leiteira e players bem estabelecidos, a empresa não tem enfrentado muitas dificuldades quanto ao mercado interno. No entanto, ela pontua que muitos empreendedores no ecossistema de inovação sofrem com a dificuldade de definir um mercado de atuação.
“Eu sinto que as pessoas investem pouco tempo em conhecer o mercado e ouvir o cliente. Muitas vezes, os desafios que elas estão enfrentando é por falta de definição do público no planejamento e um estudo mais profundo”, diz.
Manuela de Oliveira destaca a forte base acadêmica e científica do Estado, que contribui para o desenvolvimento de soluções inovadoras para o mercado. Ela ainda cita o ambiente institucional cada vez mais favorável ao empreendedorismo. No entanto, a especialista também lembra que ainda existem alguns desafios importantes a serem superados.
Entre eles, está a questão envolvendo o acesso a financiamento, especialmente em estágios iniciais do negócio, a necessidade de maior conexão com o mercado e a escalabilidade dessas soluções. “Também é fundamental avançar na formação de empreendedores com visão de negócios e capacidade de transformar conhecimento técnico em produtos e serviços viáveis”, acrescenta.
Quanto as vantagens, a CEO da Reuso Recivla+ menciona a possibilidade de levar um novo modelo de serviço para as empresas clientes que possibilitam a criação de parcerias voltadas para a sustentabilidade. Além disso, há ainda a contribuição para algumas políticas públicas com foco nesse tema.
“A partir do momento em que eu começo a coletar resíduos de empresas e de condomínios, por exemplo, eu estou, indiretamente, contribuindo para políticas públicas e isso é algo muito positivo”, diz.
Demais desafios e exemplos a serem seguidos

A falta de políticas públicas para negócios de impacto sustentável, segundo Crocco, faz com que Minas fique para trás, se comparada com os outros estados. Ele ressalta que isso proporciona um cenário de perda de novos negócios e de inúmeras soluções no mercado, por falta de apoio. “Não há uma política pública para atacar esse grande problema, que é a necessidade de criar um mercado para essas soluções”, diz.
Já Yula Merola ressalta a necessidade da criação de mais editais públicos para incentivar o mercado de tecnologias sustentáveis, mesmo que seja para o início da jornada empreendedora. “Se o governo do Estado de Minas Gerais nos apoiar, toda a sociedade também nos apoiará”, acrescenta.
Ela ainda ressalta que a dificuldade na atração de investidores para as teses de negócios é outra questão a ser abordada. A empresária relata que as startups de outros segmentos tendem a ter maior facilidade para obter recursos no mercado se comparadas com aquelas voltadas para economia verde.
A especialista destaca que o Brasil possui alguns casos como São Paulo (SP) e Florianópolis (SC), que podem servir de exemplos para Minas Gerais sobre a importância de reunir diferentes atores da sociedade para discutir temas relacionados à sustentabilidade. “Já existem também algumas aceleradoras que estão beneficiando startups de impacto, mas ainda está no começo”, completa.
O CEO do BH-Tec avalia que o grande exemplo a ser seguido é o case da China, que possui um programa de desenvolvimento de startups em setores considerados estratégicos. Ele esclarece que o País possui muitas políticas públicas de aceleração, mas não há muito apoio para as etapas seguintes do negócio.
Heloise Duarte relata que o segmento de atuação da ESGpec está passando por grandes desafios ligados, principalmente, pela questão da geração de renda para o produtor. Ela entende que o aumento da eficiência por meio da sustentabilidade é uma questão que garante a sobrevivência no mercado. Ela ainda menciona a oferta de linhas de crédito para aqueles com maior preocupação com o meio ambiente.
“Nós temos condições de fazer isso de forma diferenciada, devido às bacias leiteiras que temos em Minas Gerais e por essa tradição de criar empresas de tecnologia, com muitas startups no agro. O cenário aqui em Minas é positivo”, avalia.
Cenário no mercado de trabalho

Quanto à questão da geração de emprego qualificado, a coordenadora da divisão de divisão de empreendedorismo da UFU explica que os negócios verdes têm um alto potencial de geração de empregos qualificados, especialmente em áreas como engenharia, tecnologia, gestão ambiental e inovação.
“Esses empreendimentos demandam profissionais com competências multidisciplinares e contribuem para a retenção de talentos no estado, além de estimular a formação de mão de obra especializada alinhada às demandas contemporâneas da economia sustentável”, completa.
Já Crocco esclarece que as startups, de qualquer área, tendem a atrair um perfil de trabalhadores mais capacitados. O especialista pontua que quanto mais negócios deste tipo surgirem, maiores serão as oportunidades de trabalho de níveis mais elevados em Minas.
Ele avalia que o cenário da geração de mão de obra para o setor tecnológico no Estado é bastante positivo, com números que superam muitos outros estados do País. No entanto, o dirigente ressalta que a evasão de profissionais mineiros é muito elevada e é uma questão a ser resolvida. “Isso já é uma verdade há muito tempo”, afirma.
A CEO da Reuso Recivla+ lembra que, ao longo dos últimos cinco anos, os currículos das universidades mineiras passaram a adicionar disciplinas voltadas para o tema da sustentabilidade e empreendedorismo. Para a especialista, isso fará com que os novos talentos se formem conscientes da importância dessa pauta para qualquer setor da economia.
“Ele terá o compromisso de trabalhar esse tema em seu local de trabalho. Eu já estou vendo esse movimento”, diz.
Esse cenário, conforme Yula Merola, contribuirá para o desenvolvimento tanto de Minas Gerais quanto de todo o País. Ela ainda ressalta a necessidade de pautar cada vez mais assuntos ligados ao desenvolvimento sustentável. Além disso, é preciso, segundo a empresária, entender que o aporte de recursos em iniciativas sustentáveis não é gasto, mas sim investimento.
“As pessoas e as empresas já estão entendendo que mudanças climáticas impactam seus negócios e que toda essa discussão sobre melhorias no ambiente que estão presentes na sociedade traz benefícios”, avalia.
Quanto ao cenário para o futuro, Manuela de Oliveira avalia que as perspectivas são bastante positivas. Ela relata que a tendência é de crescimento contínuo desse segmento, impulsionado por políticas públicas, maior conscientização da sociedade e exigências do mercado por práticas sustentáveis.
“Minas Gerais reúne condições estratégicas, como diversidade econômica, presença de muitas instituições de ensino e pesquisa e um ecossistema de inovação, que favorecem o protagonismo do estado no desenvolvimento de soluções sustentáveis nos próximos anos”, conclui.
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