Movimento Minas 2032

Dia Mundial da Água: solução é atuação intersetorial e urgente nas cidades

Ações devem gerar mais resultados, sobretudo de caráter preventivo e não somente pós-danos
Atualizado em 23 de março de 2026 • 16:38
Dia Mundial da Água: solução é atuação intersetorial e urgente nas cidades
A gestão das águas, com uso de tecnologia da informação e do conhecimento científico precisa estar no centro das políticas públicas e na consciência coletiva | Foto: Reprodução IA / Adobe Stock

Minas Gerais enfrenta, em 2026, um dos períodos mais críticos de chuvas dos últimos anos, com volumes acima da média e eventos extremos cada vez mais frequentes. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que só em janeiro a capital mineira registrou 15% mais chuva do que o esperado, enquanto fevereiro já figura entre os mais chuvosos da série recente. Em episódios como o ocorrido na Zona da Mata, em Juiz de Fora e Ubá, acumulou em 24 horas o maior índice pluviométrico das últimas três décadas, deixando 72 mortos e milhares de desabrigados.

O cenário, marcado por alagamentos, deslizamentos e milhares de desalojados, evidencia um desafio que vai além do clima: a vulnerabilidade das cidades diante da água. Neste Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, especialistas alertam que a combinação entre mudanças climáticas, urbanização desordenada e sistemas hídricos degradados amplia os riscos hidrológicos e reforça a urgência de investir em saneamento, especialmente drenagem e gestão de recursos hídricos, com destaque para a recuperação de corpos d’água urbanos.

A conselheira da Sociedade Minas de Engenheiros (SME) e coordenadora da Comissão Técnica de Recursos Hídricos e Saneamento da instituição, a engenheira Patrícia Boson, avalia que as águas nas cidades precisam de atenção redobrada. Isso porque além das chuvas estarem mais intensas e com maior frequência, os solos que as recebem estão bastante alterados, especialmente nas áreas urbanas, com o crescimento desordenado naqueles pontos naturalmente vulneráveis, sujeitos a erosão. Contudo, a especialista reforça que falta uma coalizão intersetorial para a solução do problema.

“São raros os exemplos de cidades que têm Plano Diretor de drenagem atualizado, moderno e operante. Isso facilita perdas, especialmente a morte de pessoas que poderia ser minimizada e, até, evitada. Os cortes orçamentários drásticos na agenda das infraestruturas, especialmente de saneamento, onde se encontram os serviços de drenagem, é outro fator que aumenta o problema das águas nas cidades. E falta uma ação intersetorial coordenada entre governos, empresários e Terceiro Setor”, destaca.

Patrícia Boson avalia, ainda, que a gestão das águas pluviais, enriquecida pela vanguarda da tecnologia da informação e pelo conhecimento científico precisa estar no centro das políticas públicas e na consciência coletiva para que essas ações conjuntas e organizadas possam gerar mais resultados e sejam preventivas e não exclusivamente pós danos.

Terceiro Setor deve ser articulador e executor de iniciativas

O Terceiro Setor pode e deve ser um articulador e executor importante conectando empresários e governos pelo cuidado com a água. Destaque para o projeto AtuAção, iniciativa da SME, em parceria com a Associação Mineira dos Municípios (AMM), a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e o Serviço Geológico do Brasil.

Trata-se de um projeto voltado para o desenvolvimento de uma plataforma, configurando-se em um espaço virtual (ambiente web e app) para divulgação de informações de interesse para prevenção e mitigação dos efeitos das cheias e inundações nas cidades. O propósito do AtuAção é informar, capacitar e indicar as melhores práticas para que os munícipes e respectivas lideranças sociais, empresariais e dos poderes executivo e legislativo estejam preparados e com acesso às mais modernas ferramentas do conhecimento, técnicas e de gestão apropriadas para lidar com os eventos hidrológicos adversos.
Na linha da capacitação, a SME em parceria com a AMM, promoveu nos dias 19 e 20 de março, o curso: A Gestão das Águas Pluviais e os Municípios – Preparando Lideranças para o Enfrentamento dos Impactos das Mudanças Climáticas.

Na mesma pauta, a Fundação Salvar ­ – Organização da Sociedade Civil (OSC) organizada pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) — tem pelo menos quatro projetos relacionados à prevenção e mitigação dos riscos hidrológicos urbanos mobilizando mais cerca de R$ 1,2 milhão, impactando aproximadamente 7,2 milhões de pessoas em mais de 40 cidades do Estado.

Fundação Salvar
A Fundação Salvar tem projetos relacionados à prevenção e mitigação dos riscos hidrológicos urbanos | Foto: Divulgação Fundação Salvar

“Temos priorizado projetos que colaborem com a gestão hídrica urbana porque sabemos que é a vida das pessoas que está em jogo. Conseguimos apoio de prefeitura e empresários e hoje impactamos quase um terço da população do Estado. É possível e é preciso fazer mais e de forma mais colaborativa para termos melhores resultados. Para isso, empresas, poder público, instituições e cidadãos devem tomar para si a responsabilidade de cuidar das águas” enfatiza a vice-presidente da Fundação Salvar, major Deywes Ferreira.

Um dos projetos da instituição é o da Redução do Risco de Desastres Hidrológicos, em Patos de Minas (Alto Paranaíba) e região. A iniciativa busca ampliar a resiliência dos municípios frente a enchentes e inundações e prevê a aquisição de equipamentos de salvamento, treinamento técnico e uso de tecnologias para mapeamento de áreas de risco. Com investimento estimado em R$ 238 mil, o projeto impacta diretamente mais de 890 mil pessoas em 39 municípios.

Na mesma região, o Água Pura, Vida Segura: Proteção dos Mananciais tem como objetivo a formação de militares e voluntários, além de ações de educação ambiental voltadas à população. Com investimento aproximado de R$ 239 mil, o projeto contribui diretamente para a preservação de áreas de proteção ambiental, redução da poluição e aumento da capacidade de resposta a emergências, beneficiando cerca de 170 mil pessoas.

Cuidar do velho Chico é a proposta do Preservação das Veredas da Bacia do São Francisco, que tem como objetivo proteger um dos ecossistemas mais importantes do Cerrado, atuando na redução dos danos causados por incêndios florestais e na preservação da fauna, flora e recursos hídricos.

As veredas, conhecidas como “esponjas naturais”, são fundamentais para a conservação das nascentes e abastecimento dos lençóis freáticos, sendo áreas estratégicas para o equilíbrio ambiental. Com investimento de R$ 241.846,85, o projeto prevê a aquisição de equipamentos e ações de proteção ambiental para as comunidades da bacia do Rio São Francisco que somam mais de 6 milhões de pessoas.

Despoluição da Lagoa da Pampulha tem papel estratégico na redução de riscos urbanos

A Bacia Hidrográfica da Pampulha, que se estende por cerca de 97 km² e abrange áreas de Belo Horizonte e Contagem, tem 507 nascentes e 44 córregos/afluentes que drenam águas pluviais, esgoto, sedimentos e carga difusa de uma população estimada em até 400 mil habitantes.

Esse conjunto volumoso de cursos d’água, somado à elevada população, à urbanização intensa e às chuvas de verão, torna a bacia um sistema vulnerável, que historicamente compromete a qualidade da água da lagoa.

Depois de uma década de trabalho de despoluição, a lagoa apresenta avanços consistentes na recuperação ambiental. Análises realizadas em dezembro de 2025 por três laboratórios independentes indicaram que o índice de qualidade da água (IQA) saiu de níveis “críticos” (Classe 4), antes de 2016, para patamares classificados como “bons” e até “ótimos” desde 2024, segundo monitoramentos contínuos, pontua Tiago Finkler Ferreira, biólogo, doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, CEO da Hydroscience e coordenador do projeto de recuperação da lagoa da Pampulha

O especialista reforça, ainda, que os resultados de pesquisas mais recentes consolidam uma trajetória de melhoria iniciada há uma década, que representa um importante sistema de retenção hídrica, contribuindo para a redução de alagamentos em períodos chuvosos, o controle do escoamento superficial e a melhoria da resiliência urbana frente a eventos climáticos extremos.

Porém, Tiago alerta que, apesar do excelente resultado de despoluição, os avanços registrados só serão ampliados e mantidos se houver atenção contínua e investimentos em saneamento, já que fatores como chuvas intensas e carga orgânica dos afluentes impactam todo o sistema.

“Essa trajetória de redução de fósforo, algas e cianobactérias mostra que é possível ter uma Pampulha limpa e, além da navegabilidade, a recuperação dessa bacia está diretamente ligada à gestão sustentável e à segurança das águas urbanas. Isso é fundamental para a adaptação climática de Belo Horizonte e cidades do entorno, sendo sua despoluição primordial para a segurança hidrológica da população que a compõe”, ressalta o especialista.

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