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O capitalismo consciente é uma evolução dos modelos de gestão que se deu ao longo dos anos, em que o cruzamento dos benefícios socioambientais com os benefícios econômicos resulta em um valor compartilhado por toda a cadeia do abastecimento.

A prática do capitalismo consciente é baseada em quatro princípios: Propósito Maior, Cultura Consciente, Liderança Consciente e Orientação para Stakeholders. Dario Neto, Diretor Geral do Instituto Capitalismo Consciente, fala a seguir sobre o movimento e seus poderosos impactos nas empresas conscientes.

O que é capitalismo consciente e por que pode ser bom para os negócios?

O capitalismo consciente é um movimento global que dissemina uma abordagem para negócios pautada em propósito e relações de amor e cuidado com todas as partes conectadas à cadeia de valor de um negócio – os stakeholders. Capitalismo consciente é bom para os negócios pois propõe um caminho através do qual negócios não apenas prosperam e geram prosperidade aos seus acionistas, como também o fazer sem deixar ninguém para trás por meio de prosperidade coletiva, reduzindo desigualdades.

Se voltarmos no tempo, antes da pandemia, alguns até poderiam dizer que seria uma visão romantizada imaginar que as empresas deveriam se render ao capitalismo consciente. Como você vê esse antes e esse agora?

A discussão definitivamente caminha com força para o centro das discussões nos ecossistemas de negócios e mercado de capitais. Para isso o fator acelerador da pandemia foi e tem sido absolutamente fundamental. A prática ainda terá cauda longa e a velocidade de execução (e não apenas de discussão) terá relação direta com a transição no perfil de consumo com maiores níveis de exigência em práticas conscientes e sustentabilidade por parte do consumidor, bem como com a velocidade com que o mercado de capitais e financeiro avançar com olhar de longo prazo e critérios elevados ASG.

Na sua visão, quem se interessa mais por esse modelo de capitalismo?

Toda e qualquer líder e organização que já percebeu que este não é mais um jeito de fazer negócios e investir, mas sim o único jeito capaz de viabilizar prosperidade coletiva e sustentável, dado o contexto de absoluta urgência e emergência quando se fala da agenda climática e da desigualdade reinante que se acentua no planeta. Alguns se interessam pois já perceberam que o não alinhamento a essa nova ordem nos negócios pode ser fatal nos próximos 10 a 15 anos, enquanto outros se interessam pois têm interesse genuíno em coconstruir essa nova economia e acreditam fortemente que negócios podem ser agentes de mudança e impacto socioambiental positivo.

Qual o impacto do capitalismo consciente nas micro e pequenas empresas?

Absolutamente relevante. Quando olhamos a relação de uma grande empresa consciente com outra menor enquanto fornecedora, podemos testemunhar os impactos positivos de relações nutridas com cuidado e abordagem ganha-ganha-ganha, já que ciclos de pagamentos são mais curtos, contratos e relacionamento muito mais pensados para relações de prosperidade mútua e de longo prazo. Se olhamos micro e pequenas empresas isoladamente também, capitalismo consciente é perfeitamente aplicável.

Um bom produto ou solução, um bom modelo de negócios e tecnologia são fundamentais, mas o amor e o cuidado com o fornecedor, o funcionário e a comunidade podem ser exercitados independentemente do tamanho e definitivamente trazem prosperidade coletiva. Dizemos no Instituto que a melhor forma de se dar bem é fazendo o bem e que a qualidade de hoje, seja no produto ou nas relações, é a quantidade de amanhã.

Quais são as maiores dificuldades que as empresas enfrentam ao adotar a prática do capitalismo consciente e quais são as mudanças de paradigma provocadas por esse novo modelo?

Somos formados e educados socialmente com o paradigma reinante no capitalismo de que o “ótimo individual é o ótimo coletivo”. Ele é que nos fez e faz olhar só para o curto prazo e só para o acionista em detrimento das demais partes impactadas pelos negócios. Quase tudo ao nosso redor está construído nessas bases. Romper o olhar de curto prazo, a necessidade do lucro a qualquer custo, abrir mão do pensamento individualista é o grande desafio das organizações.

Se as lideranças das organizações começam a quebrar paradigmas e construir novos, isso viabiliza a adoção de uma série de práticas conscientes transformadoras que podem ir de inclusão e diversidade a diminuição dos múltiplos de remuneração. O que é capaz de acelerar substancialmente a adoção dessas práticas, no entanto, é quando os acionistas são impactados e compreendem essa nova agenda de negócios. Em geral, capitalismo consciente é sobre distribuir poder e capital, logo confiança, transparência e autonomia são direcionadores culturais importantes para as relações e mais inclusão e permissibilidade no capital também.

Como aplicar o capitalismo consciente na prática?

Tenha um propósito para a sua organização para além de gerar lucros, garanta que este propósito se materializa em seus produtos e serviços de verdade, aja concretamente em inclusão e diversidade, remunere justamente as pessoas e busque achatar os múltiplos entre quem menos ganha e quem mais ganha, dê preferência a fornecedores locais e conscientes, encurte ciclos de pagamento de fornecedores sempre que possível, atue em sua cultura e sistema de gestão para que ele se humanize e cuide das pessoas, crie mecanismos de acesso ao capital da organização e nutra com amor e cuidado toda e qualquer relação.

Os líderes das empresas conscientes perceberam que sua verdadeira missão vai muito além que entregar produtos ou serviços de qualidade, ela está voltada para algo maior e nobre que é desenvolver seres humanos melhores para o mundo, ter um mundo melhor para recebê-los, num contexto onde todos prosperam. Como podemos exercer a liderança consciente nestes tempos de incertezas?

A minha receita de liderança para a vida é combinar fé, com esperança e amor, em especial em tempos de grande incerteza. Acredito que o autocuidado espiritual é base para o desenvolvimento de competências emocionais essenciais para liderar em nosso tempo (consciência e domínio emocional) e a combinação de competências e comportamentos espirituais e emocionais equilibrados com pragmatismo e atitude (intra)empreendedora formam um bom tripé para uma liderança que gera resultados superiores no longo prazo com autocuidado e cuidado dos outros.

O legado que buscamos para nossas vidas tem muito a ver como o porquê fazemos o que fazemos! Qual o papel do propósito nas nossas vidas?

O propósito é a bússola. Ele oferece as condições de contorno e ajuda a dizer os “nãos” e os “sims” necessários na jornada para o seu cumprimento. Lembrando sempre que ele é evolutivo e não estático, assim como o propósito das organizações enquanto sistemas vivos que são.