Com gráfica em BH, Arado transforma imaginário rural em projetos para Anitta e grandes marcas

Com abordagem caipira, negócio leva o imaginário rural brasileiro a marcas e personalidades como Anitta, Tok&Stok, prefeitura de Januária
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Com gráfica em BH, Arado transforma imaginário rural em projetos para Anitta e grandes marcas
Oratório de Anitta, parte da divulgação e da experiência visual do álbum EQUILIBRIVM Part. II, foi desenvolvido em BH | Foto: Divulgação/Estudio Arado

O Estúdio Arado se destaca na cena cultural por unir design, história e tradição pautados no imaginário rural brasileiro. Com oito anos de atuação, o negócio amplia possibilidades ao reunir a produção em gráfica própria em Belo Horizonte, com máquinas tipográficas dos séculos XIX e XX, um instituto de pesquisa, desenvolvendo projetos autorais para nomes como Tok&Stok, prefeitura de Januária e, mais recentemente, da cantora Anitta, com a idealização dos álbuns Equilibrium e Equilibrium II.

A produção gráfica é um dos motores de crescimento do negócio, que também produz livros, cadernos, vestuário e decoração, com destaque para os calendários autorais, responsáveis por 30% do faturamento. Com o sucesso dos trabalhos, o crescimento chega a 90% ao ano, e a produção segue em expansão, com meta de triplicar a tiragem de calendários em 2026, chegando a 15 mil unidades.

O diferencial passa pela abordagem caipira, que foge do estigma de brasilidade historicamente concentrado no eixo carioca, que concentra em símbolos como Bossa Nova, Carnaval, futebol. Apoiado em referências como Câmara Cascudo, Amadeu Amaral e Pereira da Costa, o Arado amplia esse imaginário para o interior do País, conectando histórias, costumes e tecnologias regionais a movimentos contemporâneos.

Para falar sobre a trajetória da empresa, o processo criativo e os bastidores da produção, o Diário do Comércio conversou com Luis Matuto, sócio do Estúdio Arado.

Luis, o Estúdio Arado nasceu desse interesse pelo imaginário rural brasileiro. Como surgiu essa ideia e o que levou vocês, desde o início, a transformar pesquisa sobre cultura e tradição em um negócio de design?

O projeto começa como uma iniciativa do meu sócio, o Bruno Brito. Ele é de Jacareí, no Vale do Paraíba, em São Paulo, e estava no mestrado. Pesquisando o universo rural dentro da prática artística dele, sentiu a necessidade de criar um perfil no Instagram para desenvolver os ensaios, mostrar os desenhos e também vender. Ali nasce um projeto de pesquisa e divulgação, ainda bem embrionário. Em 2018, eu já estava desenhando e pesquisando o universo rural, mais voltado para o Sul de Minas Gerais, tentando retratar as coisas de lá, enquanto ele seguia com o Arado. Em 2020 fui convidado para ser sócio, e começamos a montar o embrião do estúdio, desenvolvendo produtos e atendendo clientes. No início, eram, na maioria, clientes pequenos, e dali foi se desenvolvendo.

Existe uma história de família por trás dessa paixão pelo imaginário rural brasileiro?

Sempre gostei de ficar ouvindo histórias de velho. Sou muito ligado aos meus avós e bisavós. Visitar meus bisavós na roça era como um parquinho mágico. E acho que só quando você sai do interior é que entende o quanto aquilo era legal. Então tem a vivência mesmo, de acolhimento e memória boa. Meu contexto é parecido com o do meu sócio, e também tem muita curiosidade: meu avô era pernambucano, metade da minha família tem origem em Pernambuco. Ele só tinha até a quarta série, mas era um cara muito estudioso, tinha uma biblioteca, adorava a história das coisas. Essa curiosidade de entender como as coisas eram feitas, como os costumes surgiram e se desenvolveram, acho que vem muito dessa formação.

Luis Matuto
Foto: Diário do Comércio / Giulia Simmons

Um dos diferenciais do Arado está na própria produção. Estamos em um espaço que vocês chamam de “gráfica caipira”. De onde surgiu a ideia de resgatar essas máquinas para produção dentro de uma proposta contemporânea?

Desde 2010 eu tenho contato com isso, sou formado em design gráfico pelo Uni-BH. Desde a faculdade, sempre gostei de ofícios, também por origem: meu pai é marceneiro, eu trabalhava com ele na marcenaria, e meu avô era carpinteiro, mestre de obras. A produção manual sempre foi muito forte. Descobri os tipos móveis, a tipografia, e bati na porta do Ademir Matias, um tipógrafo que ainda vive em produção, e de lá não saí mais. A partir do conhecimento dessas máquinas e dos processos de gravura, passamos a utilizar essa expertise na criação de produtos e cartazes, explorando equipamentos que já eram considerados obsoletos para chegar ao resultado que buscávamos. Então pensamos: “vamos testar”. Trabalhamos com regulagens diferentes: aumentamos a carga de tinta e distribuímos de forma desigual. Para isso, precisávamos de uma gráfica que estivesse disposta a trabalhar dessa maneira. E as máquinas obsoletas tinham uma entrada mais barata, o que foi fundamental. Hoje temos máquinas que vão da década de 1960 aos anos 1990. A mais antiga é do século XIX, um “feijãozinho”, que é uma máquina tipográfica, e a mais nova é de 1991. Hoje, todas estão em uso.

E vocês desenvolvem diferentes tipos de projetos. Como desenvolveram essa cadeia de portfólio? Como isso é planejado?

Há alguns anos, a gente ficava imaginando o que o Arado poderia ser. Já entendíamos que a pesquisa era importante e que precisávamos ter propriedade sobre aquilo que estávamos falando. Aos poucos, veio a vontade de experimentar, de criar produtos, e também foram surgindo os clientes. Não fazemos apenas trabalhos autorais, nem apenas cartazes para nós mesmos. Temos uma cadeia de clientes, principalmente nos setores de alimentação, cultura e terceiro setor. Esses são hoje os nossos principais segmentos.

Ao longo dos anos, o Arado esteve envolvido em projetos bastante diferentes, da identidade de Januária, passando por trabalhos para a Tok&Stok e, mais recentemente, para a Anitta. Como esses projetos chegam até vocês e como funciona o processo criativo até o produto final?

Januária veio por meio de um cliente de engenharia cultural, uma empresa intermediária que estava desenvolvendo um projeto de place branding para a cidade e chamou um estúdio parceiro, que nos convidou para participar. Durante a pesquisa, descobrimos Manuel Ambrósio, um folclorista muito importante de Januária, além de outros elementos culturais da região do Peruaçu. O trabalho era desenvolver a marca de turismo da cidade e, quando fomos apresentar o projeto, o retorno foi muito positivo. Depois de algum tempo, comecei a ver os desdobramentos. As pessoas passaram a pintar a marca nas paredes e fizeram uma versão em cimento na prainha da cidade. Ela foi se consolidando e passou a fazer parte do dia a dia e da paisagem de Januária. Quando lançamos a coleção com a Tok&Stok e divulgamos o vídeo de lançamento, esse gancho nostálgico e emotivo apareceu novamente. Nos comentários, havia pessoas dizendo que aquilo as levava para outro tempo, para memórias de infância. Acho que esse é um ponto forte que nos deixa orgulhosos: essa construção de narrativa visual, conseguimos contar histórias. Já o trabalho com a Anitta foi uma loucura. Quando trabalhamos com produtos múltiplos e pulverizados, existe essa vontade de estar na casa das pessoas. Fomos contatados e descobri que era a Anitta nos chamando para desenvolver a identidade de lançamento e as peças gráficas dos álbuns Equilibrium. Fingi normalidade, mas por dentro estava comemorando. Tive a oportunidade de trabalhar com a Nidia Aranha, hoje diretora criativa de audiovisual, que faz trabalhos muito interessantes e coordenou não só o meu trabalho, mas todo o visual do projeto. Foi muito legal trocar ideias com ela durante o processo de conceituação do visual da Anitta. Fomos ampliando o escopo do projeto e, ao todo, foram cinco meses de trabalho no projeto que conta momentos da vida e da carreira da Anitta de uma maneira muito pessoal e que depois teve desdobramentos. Foi um projeto muito marcante porque mostrou que essa linguagem interiorana, simples, caipira, dos impressos pode chegar a uma artista de alcance global. A Anitta não é apenas uma das maiores artistas do Brasil, mas também da América Latina e do mundo. Me senti muito honrado.

E todos esses trabalhos também dialogam com um imaginário de brasilidade. Como vocês trabalham para ampliar esse conceito, que durante muito tempo esteve associado a referências mais cariocas, como a Bossa Nova, o Carnaval e o futebol?

Uma das principais frentes é a pesquisa, que consideramos fundamental. Temos amigos pesquisadores e fazemos viagens e excursões para festas populares, que são uma fonte importante de pesquisa para mim. O Brasil é enorme, e essa vontade de construir uma espécie de enciclopédia, de documentar o interior, nos levou a buscar uma compreensão maior desse universo. Quando olhamos para os autores que orientam nossa pesquisa, como Câmara Cascudo, Amadeu Amaral, Pereira da Costa, entre outros, é muito interessante perceber como podemos conectar o interior do Brasil, suas histórias, culturas e costumes, com movimentos contemporâneos. São Paulo, por exemplo, não existiria da forma como conhecemos sem a imigração nordestina. As tecnologias do interior de Goiás, como uma simples bica d’água na cozinha, também são fantásticas. A gente procura comunicar para um Brasil muito maior do que apenas o Brasil do litoral, da cadeira de plástico na praia. Sertão é tudo aquilo que está para além do litoral.

Falando agora do Arado como negócio: ao longo desses anos, que perfil de cliente vocês buscavam conquistar e como essa prospecção funciona hoje?

No início, a gente achava que atenderia principalmente pequenos produtores e restaurantes. Só que a força dessa narrativa acabou atraindo clientes com um perfil que não imaginávamos. Boa parte dos nossos clientes veio por inbound: não fazíamos uma captação ativa. Hoje, porém, já estamos investindo em tráfego pago. A demanda ficou maior do que conseguimos atender apenas com quem chega pelo boca a boca, então estou pensando em desenvolver um time comercial para buscar projetos em outras regiões do Brasil. A maior parte dos nossos clientes de serviço não é mineira. Temos muitos clientes de São Paulo, alguns do Centro-Oeste e outros do Nordeste, mas a maioria está mesmo em São Paulo. Minas Gerais representa cerca de 20% dos nossos clientes hoje. Então, ainda precisamos trabalhar melhor essa fatia do mercado aqui.

Qual é a capacidade de produção do Arado hoje? Vocês trabalham com uma meta de ampliar esse volume ano a ano?

Em termos de produção, fomos dobrando o volume ao longo dos anos. Em faturamento e crescimento, vínhamos crescendo até 2024 a uma taxa de 90% ao ano. No ano passado, tivemos crescimento zero, principalmente por uma questão de investimento: montamos o galpão e as lojas físicas, no Mercado Central de Belo Horizonte e em Paraty (RJ). Apesar disso, aumentamos a produção de calendários e de outros produtos. Para o calendário deste ano, por exemplo, vou triplicar a produção, chegando a cerca de 15 mil unidades. Na última produção, conseguimos vender 5.800 calendários, um objeto que geralmente é oferecido como brinde ou presente. Com a artesania e a manufatura, conseguimos agregar valor a um objeto que normalmente não é valorizado e hoje corresponde a 30% do nosso faturamento total.

Estúdio Arado
Foto: Diário do Comércio / Giulia Simmons

E como você imagina o Arado daqui a cinco anos? Em termos de crescimento, que mercados e perfis de clientes vocês pretendem alcançar e que novos projetos gostariam de desenvolver?

Quero abrir mais lojas físicas. Dá trabalho, mas é uma frente que considero importante. Também quero consolidar a parte editorial do Arado, essa construção de livros e objetos de conhecimento. Quero crescer, aprimorar a gestão da empresa e fazer um crescimento saudável. O Arado sempre teve um crescimento orgânico, sem recorrer a financiamentos: foi construído com autoinvestimento. Agora, precisamos entender como crescer mais, de uma maneira saudável, para que seja um projeto contínuo e de longo prazo. Vamos fazer dez anos, o que já é uma marca relevante para uma pequena empresa. Quero consolidar o crescimento do Arado para que seja um projeto de 20, 30 anos. E entender, para além do faturamento, como construir um legado também como instituto de pesquisa, mantendo a identidade do imaginário rural brasileiro e, ao mesmo tempo, expandindo e aprofundando essa pesquisa. Tenho um amigo, o Bidu, que sempre diz: “A novidade está no interior”. Pelas viagens que tenho feito e pelos projetos que estamos desenvolvendo, de fato, é assim. Quero aprofundar ainda mais essa ideia e pensar em um futuro mais interessante. O futuro tem um coração antigo.

Sobre o autor

Leonardo Morais

Repórter de economia e negócios do Diário do Comércio, com experiência em jornalismo digital e produção multimídia. Graduado pela PUC Minas, foi premiado com o 2º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, Fotojornalismo (2024). LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/leomoraisj/

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