Crédito: Luciana Montes

Imagine que a estrutura de um comércio tradicional da cidade ao ar livre, composto por 1,8 mil expositores, fosse suspensa em virtude de uma pandemia.

Foi o que ocorreu com a tradicional Feira Hippie em Belo Horizonte, sem funcionar nos quarteirões da avenida Afonso Pena desde o último dia 22 de março, obedecendo ao decreto municipal que busca reduzir a contaminação do coronavírus.

A situação impactou diretamente a renda dos artesãos e, sensibilizada, Silvia Piastrelli, 36, filha e neta de profissionais da Feira Hippie na parte de locação e montagem de barracas, criou o perfil @falafeiraoficial, no Instagram, para divulgar o trabalho e o contato dos expositores.

A página já conta com mais de 80 mil seguidores e Silvia Piastrelli participa da mentoria gratuita do Centro Newton de Empreendedorismo (CNE) para alavancar as vendas dos artesãos neste momento.

“Eu nasci na feira. Com a pandemia, pensei em criar a página no Instagram para ajudar os artesãos. Muitos só têm a fonte de renda ali, expondo aos domingos. Conheci o trabalho e as mentorias do CNE pela professora Isis Boostel, que é cliente da Feira Hippie”, afirma.

O contato de Silvia Piastrelli com os professores do CNE começou em 29 de abril e, desde então, a equipe vem construindo o modelo de negócio para as vendas on-line dos artesãos.

As mentorias feitas até o momento incluem áreas financeira e administrativa, temas como formação de preço, formalização de negócio, tecnologia digitais, marketing digital, vendas on-line, análise de mercado, distribuição e logística reversa, parcerias, treinamento e engajamentos dos artesãos.

O treinamento virtual, oferecido pelo Centro Universitário Newton Paiva de 7 a 14 de julho para os expositores, envolve assuntos que vão desde a formalização do negócio, formação de preço até o desenvolvimento de estratégias de marketing.

Os detalhes podem ser vistos pelo link.

“O CNE buscou entender a dor dos artesãos que precisavam vender seus produtos e, a partir daí, passou a aprimorar o trabalho já desempenhado no @falafeiraoficial com a divulgação do trabalho dos artesãos, para vendas on-line”, compartilha Isis Boostel, mentora dos programas de pré-aceleração do CNE e professora da Newton, nas áreas de Administração e Logística.

O treinamento é aberto a todos os artesãos e pessoas interessadas em aprimorar seu negócio ou até mesmo tirar sua ideia do papel.

“Após aplicar uma pesquisa aos expositores, foram identificados os principais gaps e desenvolvemos estratégias voltadas para inovação. O treinamento visa mudar o mindset do artesão para ele entender o quanto é importante adequar o negócio físico para o ambiente virtual”, completa Isis Boostel.

O curso será ministrado pela plataforma Zoom, com material disponível aos participantes e certificados fornecidos pela Newton Paiva.

Projeções para vendas virtuais – Além da capacitação, o CNE tem acompanhado toda a validação do modelo de negócios com o público e o objetivo é desenvolver o marketplace da Feira Hippie, com os artesãos cadastrados e prontos para venderem seus produtos pela internet.

Para isso, o projeto caminha, durante o segundo semestre, para a etapa de treinamentos, aprofundando nas práticas relacionadas à presença on-line, compra e gestão de estoques e ao controle financeiro.

“Antes desse movimento, os artesãos acreditavam somente na barraca do domingo. A maioria não tem familiaridade com internet e nem é formalizada”, observa Silvia Piastrelli, que também é artesã e fabrica bijuterias.

“Esse trabalho está sendo ótimo para abrir a mente de todos e ajudar a se adaptarem. Eu falo que agora eles têm a opção de venderem durante a semana também. Isso já é uma transformação grande.”

Novos começos – A mentoria do CNE direcionada aos profissionais da Feira Hippie reforça o impacto de ações empreendedoras.

“A crise acaba trazendo e evocando uma força muito grande no empreendedorismo. E o brasileiro é muito criativo”, analisa Isis Boostel. A mentora de pré-aceleração explica as duas formas pelas quais o brasileiro costuma empreender: por necessidade ou por oportunidade, ao identificar a chamada dor de mercado.

“As pessoas que estão buscando conhecer o seu consumidor, a dor de mercado e as tendências vão ter sucesso de atuação neste novo enfrentamento e neste novo mundo que estamos criando juntos”, acredita.

Um dos meios para esse sucesso, na visão da docente, é a atenção para a tecnologia. Isis Boostel avalia que a tecnologia tem permitido às empresas ganharem mercado, aumentarem escalas, além de trazer oportunidades para readequar os negócios.

“Hoje se eu vendo de forma presencial, eu preciso estar pronto para vender de forma on-line, para falar com meu consumidor e criar novas estratégias. A gente tem que se readequar a esse mercado não só neste momento. A crise acelerou esse movimento”, pontua.

Ainda de acordo com a professora, o período é um convite à empatia e à valorização do pequeno empreendedor. “Essa pandemia tem nos dado momento de nos encontrar, de poder aprender, de poder entender o consumidor, o que ele tem valorizado. Só assim a gente pode entregar produtos com valor e que atendam à necessidade do ele prima para daqui para frente.” (Da Redação)