Novo gestor da Filarmônica quer afinar Minas com o mundo
A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais completa 18 anos como uma das duas melhores do Brasil, ao lado da Filarmônica de São Paulo, e opera com 90 músicos vindos do mundo todo em uma sala construída especialmente para ela. A Sala Minas Gerais, que completa 10 anos em 2025, é comparável às melhores do mundo, segundo o próprio novo diretor-presidente do Instituto Filarmônica, Wilson Brumer, que conhece de perto salas de concerto em dezenas de países por sua trajetória à frente de empresas como Vale, Usiminas e Aperam.
Para Brumer, Minas Gerais tem um ativo estratégico que ainda não usa como deveria. A ideia de que “Minas trabalha em silêncio” ficou no passado. Hoje, a Filarmônica precisa estar no roteiro de todo investidor que chega ao estado, ao lado do Inhotim, do Mercado Central e das cidades históricas. “Somos parte do processo de desenvolvimento econômico e social de Minas Gerais”, afirma.
Mas o papel da instituição vai além dos palcos e da internacionalização. Com 15 mil crianças de escolas públicas recebidas por ano, concertos nas praças e programas voltados para a juventude, a Filarmônica se posiciona também como instrumento de transformação social. “A música não é coisa de elite”, diz Brumer, que conta uma história reveladora: em uma reunião interna, ao narrar como levou 20 jovens de Contagem para tocar no Japão quando era cônsul, uma das presentes na sala revelou ser uma daquelas meninas. O episódio aconteceu em 2016.
Nesta entrevista exclusiva ao Diário do Comércio, Brumer fala sobre gestão, modelo de financiamento, os planos para ampliar o alcance da instituição e por que, para ele, gerir uma orquestra não é tão diferente de gerir uma mineradora.
Você tem um currículo extenso no setor público e na iniciativa privada, tendo passado por Cemig, Codemig, Vale, Usiminas e Aperam, entre outros. Como esse gestor de grandes empresas veio parar no Instituto Filarmônica?
Primeiro, preciso reconhecer o trabalho de quem me antecedeu. O Diomar Silveira ficou 19 anos à frente da Filarmônica e fez um trabalho excepcional. Sem ele, dificilmente a Sala Minas Gerais e a orquestra teriam chegado ao estágio atual. Cabe a mim, agora, entregar algo melhor do que recebi.
Eu já participava do conselho de administração desde maio do ano passado, e o presidente Paulo Paiva entendeu que era o momento de fazer uma transição.
Quanto à mudança de área, costumo dizer que não há tanta diferença assim. No fundo, a gente está sempre gerindo pessoas, independentemente do tamanho ou do setor da empresa. Cada organização pela qual passei tinha seus desafios, suas demandas, sua estratégia. Vou trazer um pouco dessas experiências para cá.



O Instituto Filarmônica é uma associação civil sem fins lucrativos. O que isso significa na prática e como a instituição é financiada?
Significa que o nosso objetivo não é apresentar lucro ao final do ano, mas sim aplicar adequadamente os recursos que obtemos e mostrar os resultados dessa aplicação.
O modelo de financiamento funciona como uma parceria público-privada. O Estado contribui anualmente com um aporte fixo, e cabe a nós buscar complementação junto ao setor privado, por meio de patrocínios e parcerias. A bilheteria e o uso da Sala Minas Gerais também compõem essa equação. Nenhuma dessas fontes, isoladamente, seria suficiente para manter a operação.
Sempre defendi que tudo o que puder ser gerido pelo setor privado deve ser. Ao Estado cabe ser promotor, facilitador e articulador, não necessariamente executor. Esse instituto é um bom exemplo disso.
A face mais conhecida do Instituto é a Orquestra, com suas apresentações na Sala Minas Gerais. Mas ela tem um papel que vai além dos palcos: são 90 músicos vindos do mundo todo. Qual é o papel da Filarmônica na internacionalização de Belo Horizonte e de Minas Gerais, e como isso se conecta ao fortalecimento da identidade mineira?
Devemos ter muito orgulho do que temos aqui. A nossa Filarmônica e a de São Paulo são as duas orquestras mais equiparáveis em termos qualitativos no Brasil. E Minas precisa usar mais esse ativo.
Sempre defendi que tudo tem o seu momento. A ideia de que “Minas trabalha em silêncio” teve sua valia, mas o mundo mudou. Precisamos nos adaptar e mostrar mais o que temos.
A começar pela casa. A Sala Minas Gerais foi construída para a Filarmônica, não adaptada como tantas outras no Brasil. Conheço muitos países e posso dizer, sem falsa modéstia, que essa sala não deve nada a muitas das melhores do mundo.
Tenho conversado com o governo nesse sentido: quando chega um potencial investidor, por que não incluir a Filarmônica no roteiro, ao lado do Mercado Central, do Inhotim, da Praça da Liberdade e das cidades históricas? Minas tem boas universidades, infraestrutura razoável, logística competitiva e um povo acolhedor. A Filarmônica é mais um ativo nesse conjunto. Somos parte do processo de desenvolvimento econômico e social do Estado.
A Orquestra e a Sala Minas Gerais parecem resumir bem um equilíbrio que é quase uma marca de Minas: tradição e modernidade convivendo lado a lado. Uma sala com tecnologia de ponta apresentando música clássica para todo tipo de público. O número expressivo de músicos estrangeiros na Orquestra é um sinal desse nível de qualidade?
Sem dúvida. E a pandemia ajudou um pouco nisso: muitos músicos estrangeiros vieram em um momento em que as alternativas escasseavam. O importante é que ficaram, formaram família aqui e certamente serão embaixadores de Minas Gerais no mundo.
Mas quero falar de outro ponto igualmente importante: a música como fator de transformação social. Ouvi muito a ideia de que “isso é coisa de elite”. Não é verdade.
Vou contar um caso. Quando era cônsul do Japão, soube de um festival de pequenas orquestras em uma cidade japonesa e, ao mesmo tempo, fiquei sabendo que um casal em Contagem cuidava de uma orquestra de jovens. Os chamei e propus: o consulado não tinha dinheiro, mas poderíamos tentar viabilizar a viagem de outras formas. Os meninos venderam camisas, as famílias fizeram sua parte, negociei com a companhia aérea e com hotéis. Levamos cerca de 20 jovens para tocar durante 15 dias no Japão.
Contei esse caso em uma reunião aqui no Instituto e disse que tinha certeza de que aquilo havia mudado a vida daqueles meninos. Em seguida, uma jovem levantou a mão e disse: “Isso aconteceu em 2016. Eu sou uma daquelas meninas.”
Isso resume bem o que acreditamos. Temos monitores que visitam escolas públicas, depois trazemos os alunos para a Sala, são 15 mil crianças por ano. Aos domingos, há programação para a juventude. Fazemos apresentações em praças. Outro desafio é desconstruir a ideia de que a música clássica exige conhecimento prévio ou é para um público mais velho. Os concertos para a juventude mostram que não é assim.

Mesmo quem não consegue estar presente nas apresentações pode acompanhar a Filarmônica?
Sim. Muitos concertos são transmitidos pelo YouTube, pela Rádio MEC e pela Rede Minas.
Se fôssemos uma empresa, eu diria que temos vários produtos. Os concertos de quinta e sexta-feira são o carro-chefe, e cada semana traz um programa diferente. Recebemos convidados que trabalham ao lado da Orquestra em apresentações únicas, nas quais ela não acompanha, mas protagoniza o espetáculo. Há duas semanas, por exemplo, apresentamos uma ópera. São diversos formatos, diversas oportunidades de acesso.
Como empresas e pessoas físicas podem contribuir com o Instituto Filarmônica?
Sem patrocínio empresarial, não sobrevivemos. E sempre defendo que precisamos mostrar aos patrocinadores que a parceria agrega valor a eles, não apenas a nós. Outro ponto importante: quero afastar a ideia de que patrocinar é fazer uma doação. Na maioria dos casos, via Lei Rouanet, a empresa está direcionando para cá um recurso que pagaria em imposto. A decisão é sobre onde alocar, não sobre abrir mão de dinheiro.
Também precisamos diversificar a base de patrocinadores. Uma empresa que hoje tem condições de apoiar pode, amanhã, não ter mais. Quanto menor a dependência de poucos, mais sólida fica a operação.
No campo das pessoas físicas, temos mais de 1.500 Amigos da Filarmônica, com a mesma lógica: é redirecionamento de imposto, não doação. E temos mais de 3.500 assinantes, que nos garantem uma receita recorrente.
Estamos desenvolvendo algumas iniciativas novas. Uma delas é um banco de ingressos: quando um assinante não puder comparecer, poderá ceder o ingresso para um Amigo da Filarmônica ou para outros públicos, como estudantes de música. A cadeira não ficará vazia, e a sala ganha novo público.
Estamos criando também “As Amigas da Filarmônica”, voltada para empresas menores, em articulação com órgãos de classe. A ideia é que essas empresas recebam ingressos para distribuir a colaboradores e clientes, gerando valor para todos os lados.
Por fim, estamos estruturando um fundo patrimonial para atrair mecenas dispostos a contribuir sem expectativa de retorno financeiro. Só poderemos usar a rentabilidade do fundo, nunca o principal. Já foi aprovado pelo conselho e espero ter tudo regulamentado até o final do ano para iniciar as aproximações.
Já falamos sobre fontes de financiamento, mas como é composto o orçamento do Instituto na prática?
O Instituto faz a gestão da Sala Minas Gerais, que é patrimônio do Estado, por meio da Codemig.
Defendo que o orçamento nunca deve ser tratado como uma estatística que se repete ano a ano. Sempre começo do zero: revemos tudo o que fazemos, onde é possível reduzir custos, onde a tecnologia pode ajudar. É um exercício anual de revisão.
Para cumprir esse orçamento, contamos com diferentes fontes. O Estado responde por entre 35% e 40% do total. O restante vem de patrocinadores privados, do aluguel da Sala para eventos e da bilheteria, que é importante, mas que, em lugar nenhum do mundo, sustenta sozinha uma operação como essa.
Filarmônica de Minas Gerais
2007
Criação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.
2016
Jovens de Contagem participam de intercâmbio musical no Japão, caso citado como exemplo de impacto social.
2019
Filarmônica consolida presença nacional entre as principais orquestras do País.
2020–2021
Pandemia amplia presença de músicos estrangeiros, muitos dos quais se estabelecem em Minas.
2025
Sala Minas Gerais completa 10 anos como espaço dedicado à Orquestra.
2026
Filarmônica completa 18 anos e passa a ser conduzida por nova gestão, com foco em expansão de público e relevância econômica.
Atualidade
- 90 músicos de diversas nacionalidades
- 15 mil estudantes atendidos por ano em programas educacionais
- Mais de 3.500 assinantes e 1.500 apoiadores pessoa física
- Modelo de financiamento baseado em parceria público-privada
Próximos passos
- Ampliação do alcance institucional e internacional
- Criação de fundo patrimonial para atrair mecenas
- Expansão de programas de formação de público
- Inclusão da Filarmônica como ativo em estratégias de atração de investimentos para Minas
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