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ALESSANDRA ALKMIM*

Você já ouviu falar sobre capitalismo consciente? Pode parecer incomum combinar capitalismo com consciência, mas a partir de agora pode ir se acostumando porque esse movimento chegou para ficar e conquistar sua importância no mundo corporativo.

Para entender melhor, imagine que, a partir de agora, as empresas não se preocupam mais com o lucro. O lucro passa a ser uma consequência do propósito.

Ao imaginar esse novo modelo, estamos refletindo sobre um tema que vem se tornando pauta frequente das organizações do futuro: o capitalismo consciente.

O Manifesto de Davos (leia-se Fórum Econômico Mundial) lançou, no fim de 2019, um novo documento para abordar as realidades de nosso tempo – mudanças climáticas, automação e globalização e o apoio a um modelo de capitalismo mais consciente, humanizado, focado não apenas nos lucros para os acionistas, mas para todas as outras partes interessadas – os stakeholders – como os colaboradores, a sociedade, fornecedores, governo, investidores, entre outros. E mais, o manifesto reforça que “as empresas devem pagar sua parte justa dos impostos, defender os direitos humanos em todas as suas cadeias de suprimentos globais e incentivar um mercado competitivo”.

O fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, durante o evento no final de janeiro de 2020, afirmou que as organizações não representam apenas uma entidade que gera lucros, sendo igualmente um organismo social. Segundo Klaus Schwab, ao mesmo tempo em que as empresas devem recompensar os investidores que assumem riscos, também precisam ser responsáveis pelas comunidades e pela sociedade em geral. Para ele, “as pessoas estão revoltadas contra as ‘elites econômicas’ que as traíram, ao mesmo tempo que os nossos esforços para manter o aquecimento global limitado a 1.5°C estão a falhar em toda a linha”. E acrescenta: “porque o mundo se encontra numa terrível encruzilhada que este ano temos de desenvolver o Manifesto de Davos para 2020 de forma a reimaginarmos o propósito e os scorecards que as empresas e governos devem seguir”

Para Raj Sisodia e John Mackey, líderes globais do movimento Capitalismo Consciente – Mackey é CEO da WholeFoods Market, líder mundial na venda de alimentos naturais, orgânicos e sem conservantes, e Sisodia é professor e pesquisador da Universidade Babson, tradicional escola de negócios dos Estados Unidos, e autores do livro “Capitalismo Consciente: Como Libertar o Espírito Heroico dos Negócios”, grande parte do capitalismo e da lógica dos negócios, que por tanto tempo permaneceu inconsciente, agora começa a aflorar no nível da consciência.

Abaixo seguem algumas reflexões dos autores extraídas do livro e que promovem o reencontro do capitalismo com suas raízes.

Durante anos o capitalismo foi acusado de explorar trabalhadores, ludibriar consumidores, promover desigualdades ao beneficiar ricos em detrimento de pobres, homogeneizar a sociedade, fragmentar comunidades e destruir o meio ambiente.

Mas onde entra o capitalismo consciente? O que significa tornar-se mais consciente como indivíduo e como empresa?

Talvez a maior mudança vivida hoje por nós, seres humanos, seja a elevação de nossa consciência. Ser consciente significa estar totalmente desperto e lúcido para enxergar a realidade com clareza e para entender todas as consequências de nossas ações, em curto e longo prazos.

Isto significa estarmos atentos ao que se passa dentro de nós mesmos e na realidade externa, bem como aos impactos disso tudo sobre o mundo. Significa também, ter um forte compromisso com a verdade e agir de modo mais responsável, de acordo com o que entendemos ser verdadeiro.

A verdade é que precisamos de uma nova filosofia para os negócios pela qual possamos nos orientar e trabalhar. O futuro da vida no planeta e o destino das próximas gerações serão fortemente afetados pelas escolhas feitas hoje.

O capitalismo consciente é um paradigma em desenvolvimento para os negócios que simultaneamente cria vários tipos de valor e bem-estar para todas as partes interessadas: financeiro, intelectual, físico, ecológico, social, cultural, emocional, ético e até mesmo espiritual.

A prática do capitalismo consciente não se resume a ser virtuoso ou a trabalhar bem para fazer o bem. Trata-se de uma forma de pensar o negócio com muito mais consciência de seu propósito maior, de seus impactos sobre o mundo e de suas relações com os diversos públicos e stakeholders. Reflete uma noção mais profunda sobre a razão da existência das empresas e como elas podem criar mais valor.

O capitalismo consciente se baseia em quatro princípios: propósito maior, integração de stakeholders, liderança consciente e cultura e gestão conscientes. Todos se interligam e se reforçam mutuamente. Eles representam os elementos essenciais de uma filosofia empresarial integrada, que tem de ser entendida de forma holística para poder de fato se manifestar.

Os impactos positivos que as empresas que adotam o capitalismo consciente exercem no mundo não são apenas consequências de uma atuação mais correta, mas também decorrem de uma postura mais humanizada e sábia. Essa sabedoria permite aproveitar de forma benéfica o poder motivacional dos propósitos mais elevados e os extraordinários níveis de envolvimento dos colaboradores que resultam quando paixões pessoais intensas se alinham com propósitos corporativos conscientes.

*Co-Founder Escola de Palestrante, VP ACMinas, Pres. Cons. Mulher Empreendedora ACMinas, Canal Inovação em Pauta, ADDHERE