Empresas usam projetos sociais para resolver falta de mão de obra e fortalecer negócios, diz estudo
Projetos sociais mantidos por empresas têm sido usados para enfrentar gargalos que afetam a operação dos negócios, como a falta de qualificação profissional e dificuldades na cadeia produtiva. É o que aponta um estudo da BISC (Benchmarking do Investimento Social Corporativo) sobre tendências do investimento social corporativo no Brasil, apresentado na sede da B3 nesta terça-feira (28).
Segundo o levantamento, iniciativas voltadas à capacitação profissional aparecem como uma forma de resolver problemas que limitam o crescimento das empresas. “Por exemplo, se o profissional que usa seu produto não tem formação técnica, o segredo para destravar o potencial do negócio e o aumento de renda do trabalhador está na capacitação e no fortalecimento da profissão”, diz Marise Barroso, executiva e conselheira independente entrevistada pelo estudo.
É o que acontece, por exemplo, no setor de construção civil, que enfrenta um apagão de mão de obra qualificada. O Sinduscon-SP (sindicato patronal da construção civil em São Paulo) e o Sintracon-SP (sindicato dos trabalhadores) estruturaram um plano de carreira nacional, com apoio do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), para guiar o trabalhador da base até os cargos técnicos e de liderança.
A estratégia faz parte de uma mudança mais ampla no papel do investimento social corporativo, que passou a integrar o planejamento estratégico das companhias e é estruturado com foco em resultados de longo prazo.
O levantamento indica ainda que empresas têm buscado alianças com organizações da sociedade civil e instituições de ensino para ampliar o alcance das iniciativas.
Áreas tradicionais ainda concentram grande parte dos investimentos. Educação permanece como o tema mais recorrente entre projetos sociais corporativos, especialmente em iniciativas voltadas à qualificação profissional.
Programas voltados ao desenvolvimento de jovens aparecem com frequência entre as iniciativas destacadas, sobretudo em regiões com menor acesso a oportunidades educacionais ou profissionais.
Empresas também têm direcionado projetos sociais para territórios onde mantêm operações, como cidades com fábricas ou centros logísticos.
De acordo com o estudo, grandes empresas identificam nas ações sociais oportunidades para reduzir riscos operacionais e ampliar a eficiência dos negócios. Problemas de desigualdade social e falta de infraestrutura local são vistos como fatores capazes de limitar a produtividade.
Outro aspecto destacado pelo levantamento é o fortalecimento do papel da governança do investimento social dentro das empresas. Em muitas organizações, as áreas responsáveis por projetos sociais passaram a se aproximar da alta liderança e a dialogar com setores como relações institucionais e planejamento corporativo.
Empresas passaram a adotar ferramentas de monitoramento para medir resultados sociais e identificar retornos indiretos associados às iniciativas, como melhoria de reputação.
Ao mesmo tempo, o modelo levanta debates sobre os limites entre interesse público e privado, já que parte dos projetos pode priorizar áreas que trazem benefícios diretos às companhias.
O estudo foi elaborado a partir da revisão de literatura acadêmica e de pesquisa de campo realizada ao longo de 2025. A investigação reuniu dados quantitativos e qualitativos coletados entre maio e setembro, incluindo entrevistas, análise documental e um levantamento aplicado a empresas, institutos e fundações integrantes da rede de investimento social analisada.
Segundo o texto, participaram as instituições B3 Social, Fundação Cargill, Fundação Sicredi, Instituto C&A, Instituto Coca-Cola Brasil, Instituto Lojas Renner, Instituto Votorantim, Instituto Ultra, Gerdau, Neoenergia, RD Saúde, Santander, Serasa Experian, Unilever e Vale.
Ouça a rádio de Minas