Lindolfo Paoliello lança um olhar sobre as guerras de cada um
Há um homem que acende o charuto no incêndio da casa alheia. A cena, roubada de Machado de Assis com a licença que só os cronistas têm, atravessou mais de um século para dar título ao 13º livro de Lindolfo Paoliello. Em “A Guerra de cada um” (Bretas/Del Rey), o jornalista e cronista mineiro reúne duas décadas e meia de textos em que o Brasil arde, brinca, comove e, sobretudo, se revela nos detalhes que quase ninguém para a fim de olhar.
Fundador da Lindolfo Paoliello Consultoria de Comunicação Social, em Belo Horizonte, e duas vezes presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), entre 2015 e 2018, Paoliello integra o Conselho Editorial do Diário do Comércio, ao lado de Adriana Machado, Claudio de Moura Castro e Teodomiro Diniz. Cronista desde os 19 anos, publicou parte dos textos agora reunidos, produzidos nas décadas de 1980 e de 2000, no Jornal de Casa e no próprio DC. Inserido na tradição de Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade, carrega de Machado de Assis a elegância da linguagem, o gosto pelas digressões e a proximidade construída com o leitor.
A filiação não é autoproclamada. Nas avaliações estampadas na capa do livro, o crítico Reynaldo Bairão, do “Jornal de Letras”, aponta Paoliello como o herdeiro legítimo da linhagem que vai de Machado de Assis a Olavo Bilac, de Lima Barreto a João do Rio. “O Globo” destacou nele o escritor plural, que fala de Minas e do mundo com um olho no drama humano, e a “Gazeta do Povo” ressaltou sua capacidade de observar criticamente o sistema e o povo do País.
A trajetória listada nas orelhas da obra sustenta o parentesco literário: Paoliello dividiu a antologia “Crônicas Mineiras” (Ática, 1984) com Affonso Romano de Sant’Anna e figurou ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e Sérgio Porto em “Crônicas Brasileiras”, publicada em 1994 pela University Press of Florida, nos Estados Unidos. Da bibliografia constam ainda “Nosso Alegre Gurufim”, indicado para o vestibular da PUC Minas, e “As Cores das Palavras”, que ganhou edição especial em braile pela UFMG. Sua produção já foi, inclusive, objeto de estudo: “A Crônica de Lindolfo Paoliello”, da professora e crítica literária Letícia Malard, saiu pela Del Rey em 2021.

Foi justamente de Machado que veio a faísca do título. Na cena, narrada no romance “Quincas Borba” (1891), um homem ébrio, ao passar por uma choupana em chamas, encontrou a dona inconsolável diante do fogo. Confirmada a propriedade, pediu licença para acender ali o charuto. Da anedota, Machado extraiu a lição de que não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Paoliello transportou a cena para os anos 1980, quando uma empresa brasileira despontava entre as maiores fabricantes de veículos de guerra do mundo, e a amargura virou crônica.
“Peguei esse tema de uma casa pegando fogo e o homem acendendo o charuto ali, comparando-o com a preocupação com uma grande empresa brasileira que estava se tornando, naquela época, a maior produtora de veículos de guerra e de outras armas do mundo (…) Que pena que aquilo estivesse, naquele momento, ocorrendo num país chamado Brasil, que é o país da alegria, do acolhimento e, sobretudo, de uma população que se caracteriza pelo seu espírito pacífico. E espero que o Brasil não viva de acender o charuto na miséria alheia”, pontua.
Para o autor, a escrita pretende transformar cenas simples em reflexão literária. “A crônica é tão brasileira quanto a marchinha de carnaval. Ela critica, ela brinca com os fatos e está sempre de bom humor. Este livro é uma coletânea que mostra o papel da crônica de expressar contextos. Uma coletânea é um trabalho de edição comandado por um propósito. Desta vez, quis proporcionar às pessoas o dom da referência”, explica.
JK inspira as reflexões de Lindolfo Paoliello
Atualmente, Paoliello publica na plataforma Capa Brasil e segue interessado nos temas cotidianos, capazes de levantar uma reflexão sobre o sentido da humanidade.
Um personagem real que mereceu seu olhar atento foi Juscelino Kubitschek, ex-prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais e presidente do Brasil. O ano de 2026 foi escolhido como Ano JK, em celebração aos 50 anos de sua morte e aos 70 anos de sua chegada à Presidência da República.
“Na linha de celebrar o legado de JK, escrevi duas ou três coisinhas simples sobre ele ao longo do tempo. Uma delas é a crônica ‘O memorável Nonô’, que era o seu apelido. E eu terminei essa crônica com um texto muito bonito, de uma grande figura da literatura e da política brasileira, o embaixador Afonso Arinos: ‘JK foi uma das mais interessantes aventuras humanas que eu conheci’. Essa citação mostra que as palavras ‘aventura’ e ‘humanidade’ têm tudo a ver. Ele teve a coragem de viver uma grande aventura. De modo geral, as pessoas receiam a emoção e a aventura. Eu sou fã das duas coisas. A emoção é um sentimento que provoca mudanças. E o JK viveu as aventuras dele provocando grandes emoções”, avalia.
O lançamento de “A Guerra de cada um” em Belo Horizonte está marcado para o dia 9 de julho, no Parrilla Savassi 158, na região Centro-Sul. A obra estará disponível nas livrarias físicas e virtuais a partir do dia 15 de julho.
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