Crédito: Freepik

Em meados de março, eles se tornaram o epicentro das preocupações do mundo inteiro. Os idosos, grupo mais suscetível aos terríveis, e ainda pouco compreendidos, riscos trazidos por um novo vírus da família corona, se tornaram, ao longo do ano, uma das forças motrizes da combalida “economia de guerra” imposta.

A chamada “economia prateada”, que vinha mostrando a cara no “país do futuro” já há algum tempo, definitivamente se jogou no mundo digital e não está mais disposta a enfrentar modelos de negócios ou atendimento adaptados ou preconceituosos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que haverá mais de 2 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais até 2050, em comparação com cerca de 900 milhões em 2015. Globalmente, segundo o Bank of America Merrill Lynch, esse mercado movimenta cerca de US$ 7,1 trilhões, fazendo dele a terceira maior atividade econômica do mundo.

Dados da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos revelam que no Brasil, em 2050, haverá mais de 68,1 milhões de pessoas acima de 60 anos. E, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o grupo dos maduros já representa quase 20% do consumo, movimentando R$ 1,6 trilhão por ano.

E, se alguém ainda não tinha entendido o potencial de consumo desse público, a pandemia deixou tudo muito claro. Além de tomarem gosto pelos aplicativos e descobrirem um mundo de consumo inexplorado – com o auxílio emergencial muitos puderam, pela primeira vez – ascender a novas categorias de consumo.

E, assim, surge um novo normal prateado para empresas que se dedicam exclusivamente a eles ou que querem conquistar também esse público e os seus “silver dollars”, expressão em inglês que, por si só, é capaz de explicar a importância da economia da longevidade.

Público maduro compõe mais de 60% dos lares brasileiros

Orgulhosa de seus cabelos grisalhos, a consultora de negócios e conselheira da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Cristina Franco, há tempos observa o mercado da longevidade não só em causa própria, antecipando o futuro, mas também por uma questão de negócios. Para ela, a informação de que existe, pelo menos, uma pessoa com mais de 50 anos em 64% dos lares brasileiros, é definitiva para que as empresas compreendam que não podem deixar de atender o público maduro com deferência se quiserem se manter no mercado.

“Além da presença, boa parte desses idosos é responsável pelo sustento das famílias, então eles são um grupo de peso na decisão de consumo. Desde 2015, apontamos para os associados da ABF essa importância. A pandemia colocou isso à mostra entendendo que eles seriam os maiores entrantes nessa onda de digitalização por serem o maior grupo de risco. O uso da tecnologia para a comunicação familiar explodiu substituindo a interação física e logo isso foi para o jeito de consumir. É fato que vamos seguir utilizando todas essas tecnologias. Os empresários têm que buscar soluções de varejo para esse público. O grande benchmark é a Prevent Senior – até antes da pandemia – que é uma empresa de saúde voltada para os idosos. Antes disso, as empresas de saúde tinham um certo preconceito com esse público. Eles foram os primeiros que apostaram na longevidade e são um sucesso de mercado”, explica Cristina Franco.

Crédito: divulgação/Associação Brasileira de Franchising

Cuidados – Criada para cuidar dos idosos, a Home Angels, franquia com mais de 100 unidades, viu na pandemia a necessidade de ajustar processos e também novas oportunidades. Segundo o sócio-fundador da Home Angels, Artur Hipólito, a franquia fecha o ano crescendo em 25% a base de assistidos e a meta para o ano que vem é crescer 50% sobre 2020.

“Tivemos que encarar a pandemia como os supermercados e as farmácias, não podíamos abandonar nossos clientes. Conseguimos crescer nesse momento da pandemia. Aí que vem a adaptabilidade. Quais os valores que estão sobre a mesa? Buscamos nos reinventar, considerando que o nosso colaborador já é da área da saúde, isso manteve a empresa funcionando. Era preciso fortalecer a relação com o assistido, com o colaborador e também com o franqueado. Implantamos a assistência 0800 em plantão. A cuidadora liga a qualquer hora a orientação médica. Pode até mandar um médico na casa da pessoa que pode até providenciar uma remoção. Isso sem aumentar o preço para o cliente final, levamos conforto para eles”, destaca Hipólito.

Em sentido parecido trabalha a rede de casas de repouso Vitória Spa. O conceito da marca foge do tradicional, com espaços amplos, área verde e cerca de 3 mil metros quadrados para 30 hóspedes, em média. De acordo com o fundador da rede, João Gustavo Brassolatti, logo de cara a grande dificuldade foi o afastamento de funcionários e a proibição de visitas de familiares e passeios com os hóspedes.

A implementação de novos protocolos de higiene, novas ferramentas digitais e a majoração de preços de equipamentos de proteção individual (EPIs) que tiveram o uso aumentado elevaram os custos da operação em 50%. Mesmo assim, a rede segue em expansão. Em Minas Gerais, a unidade de Uberlândia, no Triângulo, deve ganhar uma companheira. Uberaba, na mesma região, também já está em negociação.

“Somos um serviço essencial e não podemos terceirizar o atendimento dos nossos clientes. O grande impacto foi a visita dos idosos. Muitos iam para a casa dos filhos e voltavam. Pensamos no que fazer para minimizar isso. Começamos a fazer a digitalização dos contatos, intensificamos as interações recreativas, com terapia ocupacional. Redobramos os cuidados de higiene, testagem quinzenal, que era uma coisa cara naquela época. Nos antecipamos aos órgãos de saúde proibindo as visitas e entramos com suplementações que aumentasse a imunidade dos idosos. Tivemos casos em apenas uma das unidades, com 10 infectados assintomáticos. Esses cuidados vão ficar para sempre e modelos mais tradicionais com espaços reduzidos e 30 pessoas em um espaço de 300 metros quadrados não serão sustentáveis porque os filhos terão medo de deixar seus pais neles”, afirma Brassolatti.

Crédito: Divulgação/Vitória Spa

Pandemia proporcionou salto nos negócios

Se a digitalização foi a mola propulsora que manteve a economia funcionando nos últimos sete meses e promete continuar sendo no pós-pandemia, é claro que os idosos não estariam de fora dessa onda. Quem não perdeu tempo diante desse cenário foram as startups. Muitas que já dedicavam especial esforço ao público prateado viram na pandemia a oportunidade de dar um salto nos negócios.

Fundada em 2017, a Bxblue é uma plataforma onde servidores públicos e aposentados podem comparar ofertas de consignado, escolher a que mais lhe agradar e contratar on-line, pelo próprio site. A Bxblue tem parcerias com os principais bancos do mercado e permite que seus usuários contratem crédito com taxas bem abaixo da média do mercado.

De acordo com o cofundador da Bxblue, Roberto Braga, o negócio ganhou velocidade a partir da pandemia porque impedidos de sair de casa, os idosos tiveram que aprender a resolver problemas por meio de aplicativos, desde pedir o almoço até empréstimo bancário.

“Nascemos para ser on-line, em 2017, e, desde o início pensávamos que era inconcebível ser obrigado ir a uma agência bancária. Sentimos que essa população se digitalizou queimando etapas, então não é o idoso que deve estar pronto para o produto tecnológico, é o produto que tem que estar pronto para o idoso. Um exemplo de gargalo era mandar a foto de comprovação. Eram muitos passos, entrando e saindo da plataforma. Passamos a dar o passo a passo em mais fases, colocando exemplos de certos e errados para comparação. Aprendemos que apesar de sermos digitais, o usuário gosta de ter o contato humanizado. Trabalhamos muito para ter esse equilíbrio. Fazemos o processo on-line e temos um botão para o atendimento com o atendente”, explica Braga.

As oportunidades não cessam. A organização global Aging2.0, em parceria com o Hype60+ e a Ativen (mentoria nacional focada exclusivamente em projetos destinados aos maduros), realizou, em 2018, a 1ª Chamada de Negócios da Longevidade. O objetivo foi revelar os negócios voltados para o público sênior mais atraentes para investidores e aceleradoras. A iniciativa gerou alguns dados: 73% das startups tinham menos de cinco anos de funcionamento. 15% eram comandadas por pessoas com idade entre 60 e 65 anos, e ,10%, acima de 65 anos. 21% dos negócios foram acelerados com o apoio de investidores e parceiros. 35% faturavam entre R$ 1 mil e R$ 50 mil e 40% não tinham faturamento. A segunda chamada foi realizada no meio do ano passado.

Crédito: Higor Barreto

Sediada em Belo Horizonte, a Far.me é uma startup que faz a dispensação de medicamentos de forma personalizada. De acordo com a CEO na Far.me, Samilla Dornellas, é extremamente comum, nesta população, a falta de qualidade da terapia medicamentosa, o uso de medicamentos potencialmente inadequados e duplicidade terapêutica. Tais fatores contribuem para uma maior ocorrência de reações adversas e interações medicamentosas.

A pandemia fez com que os negócios fossem acelerados a ponto de a startup avançar pelo território paulista antes do planejado. “Idosos, familiares e profissionais de saúde podem ter suas rotinas facilitadas. Muitas vezes o idoso está ali, tomando alguns medicamentos há anos, vai juntando outros medicamentos, aumentando a possibilidade de erro e confusão em pontos como controle de estoque, ida a farmácia, pesquisa de preços, por exemplo. Nós fazemos essa gestão. Os idosos gostam de ter um suporte ativo, isso dá segurança. A personalização é imprescindível. Assim que surgiu a pandemia, foi uma janela de oportunidades. A partir da telemedicina é natural que tenhamos a prescrição digital e receber os medicamentos em casa. Nosso objetivo é que a Far.me conseguia fechar esse ciclo”, afirma Samilla Dornellas.