Trabalho desenvolvido por equipe do IFMG atenderá região sem tratamento de esgoto na zona Norte da Capital | Crédito: Divulgação

Uma ideia inovadora para levar sistemas de saneamento básico a áreas de Belo Horizonte que não possuem rede de esgoto acaba de ser premiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID. Concorrendo com outras 169 propostas de países da América Latina e Caribe, o projeto desenvolvido por estudantes e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG) foi um dos vencedores do evento “e-Hackathon en Agua, Saneamiento e Higiene”, realizado virtualmente em língua espanhola, nos dias 11 e 12 de setembro. O resultado foi anunciado no dia 17, e premiou três projetos, sendo o do IFMG o único brasileiro.

Na proposta submetida, o grupo apresentou um modelo de negócio colaborativo entre empresa, cooperativa e instituição de ensino, de modo a viabilizar, com essa parceria, a instalação e manutenção de soluções sustentáveis e de baixo custo no bairro Granja Werneck. A área, que também é conhecida como Ocupação Izidora, está localizada na região Norte de Belo Horizonte, na divisa com o município de Santa Luzia, conta com cerca de 8 mil famílias e aproximadamente 30 mil moradores.

Professor de Engenharia Civil no Campus Santa Luzia do IFMG, Daniel Augusto de Miranda explica que, para desenvolverem o trabalho, durante os dois dias de maratona on-line, foi necessário fazer uma pesquisa prévia, na qual identificaram o local como um assentamento informal cuja maior demanda é o saneamento básico.

Com a ajuda de pesquisadores que já atuam na área, ele e os alunos puderam conversar com lideranças locais e partir para a elaboração do trabalho. Segundo o docente, o projeto pretende atender quatro ocupações (Helena Grecco, Esperança, Vitória e Rosa Leão) que formam o conjunto Izidora. É uma área de aproximadamente 10 quilômetros quadrados localizada entre as rodovias MG-010 e MG-020, marcada pela transição dos biomas Mata Atlântica e Cerrado.

“O professor Tiago Castelo Branco, que atua na PUC e na UFMG, foi um dos grandes colaboradores, pois já tem um trabalho consolidado na região. Ele compartilhou uma série de materiais e nos colocou em contato com as lideranças da comunidade. Nas reuniões que fizemos, perguntamos qual seria o maior problema e todas responderam que era a falta de tratamento de esgoto”, conta Daniel Miranda.

Tratamento de efluentes – No modelo de negócio proposto, o objetivo é que os moradores, após se organizarem em cooperativas, sejam capacitados pelo IFMG para poderem construir e instalar os dispositivos sustentáveis. A ideia é que as famílias adotem no tratamento de efluentes o tanque de evapotranspiração (para tratamento das águas negras, oriundas do vaso sanitário) e o círculo de bananeiras (para tratamento das águas cinzas, coletadas de pias, lavatórios e chuveiros).

“O custo estimado de instalação de um tanque de evapotranspiração é de R$ 1.000, ao passo que o de um círculo de bananeiras gira em torno de R$ 100. Estes valores são para atender cinco pessoas e não consideram despesas de mão de obra, já que seria executada por moradores das ocupações capacitados pelo IFMG”, explica o docente.

Além de Daniel Miranda, a equipe é formada pelos estudantes Katy Marilym de Matos Neves e Nelson Xavier Ribeiro Neto, ambos do curso de Engenharia Civil, e pelo engenheiro e ex-aluno do IFMG, Lorenzo Perpetuo Pinto. Com o reconhecimento, o grupo receberá como prêmio o investimento do BID, no valor de US$ 5 mil, para a execução do plano de negócios; uma tutoria com especialistas durante o ano de 2021; e a participação de um dos membros na edição latino-americana do programa Young Water Fellowship.

“Vamos receber assessoria do BID e encontrar a melhor maneira de empregar o valor e em que momento ele deverá ser utilizado. A ideia é fazer tudo no esquema de parceria, respeitando os trâmites legais para viabilizá-la. Nossa expectativa é atender, em cinco anos, de 15 a 20% da população dessas ocupações”, afirma Daniel Miranda.

O evento e-Hackathon foi uma iniciativa do BID com intuito de estimular e apoiar jovens pesquisadores a desenvolver soluções inovadoras para fazer frente aos desafios mais urgentes relacionados ao abastecimento de água, saneamento e higiene. O projeto do IFMG – Campus Santa Luzia já havia sido classificado entre os 30 finalistas. Para a disputa final, foi produzido um vídeo de apresentação da proposta.

“Essa grande conquista é uma ação fundamental em benefício da consolidação e fortalecimento dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais, identificados a partir do mapeamento do potencial de desenvolvimento socioeconômico e cultural no âmbito do Instituto Federal. Saímos fortalecidos deste evento e preparados para promover o bem estar social com muita responsabilidade e profissionalismo. É realmente uma grande vitória para a educação pública brasileira”, conclui.