Mercado publicitário mineiro projeta R$ 2 bilhões em movimentação em 2026

Agências de publicidade de Minas miram crescimento no mercado nacional
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Mercado publicitário mineiro projeta R$ 2 bilhões em movimentação em 2026
Foto: Reprodução Adobe Stock

O mercado publicitário de Minas Gerais deve movimentar cerca de R$ 2 bilhões em 2026, o valor que passará pelas agências apresenta uma projeção de crescimento real, descontada a inflação, entre 0,5% e 1% no ano. O incremento tem como um dos principais fatores a Copa do Mundo, que trouxe resultados favoráveis para o setor. A alta poderia ser ainda maior, porém, o cenário de maior cautela diante das incertezas provocadas pelas eleições deve frear, em parte, o resultado.

Segundo o diretor-presidente do Sindicato das Agências de Propaganda do Estado de Minas Gerais (Sinapro-MG) e diretor de Planejamento na Fazcom!, Gustavo Garcia de Faria, sem o período de eleição, o avanço do mercado publicitário mineiro poderia superar 2% em termos reais. “Se a gente não tivesse esse hiato, a gente poderia crescer até acima de 2%”, explicou.

O mercado mineiro é um dos mais importantes do País e reúne em torno de 300 agências com CNPJ ativo, enquanto 90 agências estão associadas ao Sinapro. As empresas empregam diretamente mais de 6 mil pessoas e movimentam uma cadeia que inclui mais de 3 mil fornecedores, entre produtores de vídeo e áudio, fotógrafos, gráficas e influenciadores, além de mais de 2 mil veículos contratados em favor das marcas. A mediana de faturamento das agências em Minas Gerais está em torno de R$ 7 milhões por ano. Cerca de 50% da base fatura até R$ 2,5 milhões, enquanto aproximadamente 5% das empresas registram mais de R$ 100 milhões anuais.

Para Faria, além de movimentarem a cadeia de comunicação, incluindo, rádios, jornais, revistas, televisões, as agências exercem uma função de conexão entre os diferentes elos do mercado. “A cadeia da comunicação é muito sinérgica, e as agências são o elo entre todas as partes”, observou.

Inteligência artificial transforma rotina das agências

Apesar das boas expectativas de crescimento, o setor também enfrenta desafios e entre os principais está a incorporação da inteligência artificial (IA) às atividades do setor. A tecnologia já interfere nas funções técnicas dos profissionais e até na administração dos negócios, mas as agências mineiras ainda estão em diferentes estágios de adoção dessa ferramenta.

“A incorporação da IA às práticas do mercado, não só nas funções técnicas dos profissionais e das agências, mas na administração do próprio negócio, assim como em outros setores, é um desafio. Temos agências em diferentes estágios de desenvolvimento de IA e nosso trabalho, como representante de todos no sindicato, é tentar ter equiparação entre todas. São necessárias ações para desenvolvimento e para capacitação, não só para a equipe, mas para os empreendedores e donos das agências, que precisam entender a mudança que a IA está promovendo e acelerando o modelo de negócio”, disse.

Gustavo Garcia de Faria
A incorporação da IA às práticas do mercado […]assim como em outros setores, é um desafio, afirma Faria | Foto: Arquivo pessoal / Gustavo Garcia de Faria

Outro movimento que vem alterando o setor é a expansão das grandes plataformas digitais, como Meta, Google e TikTok. As chamadas big techs modificaram a forma de desenvolvimento e distribuição da comunicação e contribuíram para transformar os modelos de remuneração das agências. Paralelamente, os veículos tradicionais e a mídia exterior também passaram por processos de reinvenção. Com isso, a jornada de consumo de informação se tornou mais fragmentada, com diferentes perfis e possibilidades de contato entre marcas e consumidores.

“As agências precisam se desenvolver para uma categoria de parceiro das marcas que antes elas não ocupavam e nem era tão demandado. Mas agora isso é uma questão existencial”, disse Faria.

Falta de profissionais desafia o setor

A transformação tecnológica ocorre ao mesmo tempo em que o setor enfrenta dificuldades para encontrar profissionais com as competências necessárias. “A inteligência artificial pode substituir algumas funções objetivas, mas as agências continuam dependendo de características humanas para a construção estratégica, criativa e cognitiva das campanhas”, destacou.

Ainda segundo Faria, o mercado não vem formando pessoas em volume suficiente para atender à demanda. A publicidade também disputa profissionais com a Creator Economy (economia dos criadores) e com as startups digitais. Para quem já está no setor, a exigência é de uma reciclagem contínua, em um ambiente no qual conhecimentos e práticas precisam ser revistos em intervalos cada vez menores.

As diferenças geracionais também entram nos desafios. “Algumas agências reúnem até quatro gerações de profissionais, o que aumenta a complexidade da gestão das equipes. É preciso formar quem ainda não possui as competências necessárias, reciclar profissionais já experientes e, ao mesmo tempo, responder a demandas cada vez mais rápidas. A adaptação passou a ser permanente. A gente tem que desconstruir tudo que a gente sabe e, a partir disso, construir algo novo, em questões de meses”, contou.

A dificuldade de acompanhar essa transformação pode levar profissionais a deixar a área ou empresas que não conseguem desenvolver adequadamente seus talentos. O cenário é agravado pelo achatamento das margens. Conforme Faria, as negociações entre clientes e agências estão cada vez mais agressivas, reduzindo a capacidade de investimento das empresas em qualificação e desenvolvimento. Em alguns casos, a negociação passa a ser feita pela sobrevivência do negócio, e não pela sua expansão.

Agências buscam atuar como parceiras estratégicas

“A relação entre agência e clientes precisa considerar que a agência deixou de ser apenas uma prestadora de serviços e passou a atuar como parceira estratégica das marcas. O valor da comunicação, nesse contexto, deve ser avaliado também pela capacidade de contribuir para o resultado dos negócios”, disse.

Apesar das dificuldades, o setor identifica oportunidades justamente nas transformações que pressionam as empresas. A capacidade de acompanhar mudanças tecnológicas, culturais e comportamentais e traduzi-las em estratégias para as marcas pode se tornar um diferencial competitivo. Minas Gerais também possui uma cultura de relacionamento próximo com os clientes, marcada por escuta ativa e participação na realidade dos negócios. Essa característica pode ser potencializada pelas novas ferramentas.

“A gente, aqui em Minas, tem um diferencial que é misturar qualidade técnica desse repertório intelectual que está empregado nas agências com um investimento mais competitivo”, explicou Faria.

A possibilidade de atender clientes de qualquer localidade também amplia o horizonte das agências mineiras. Empresas do Estado já buscam negócios em outras unidades da Federação e avançam na prospecção internacional. A tecnologia reduz as barreiras geográficas e permite que o conhecimento desenvolvido em Minas seja levado a outros mercados.

“O grande desafio das agências é aprender rapidamente a utilizar as novas ferramentas para transformar a experiência acumulada em escala e competitividade. A aposta é combinar criatividade, pensamento estratégico e conhecimento do comportamento das pessoas com a capacidade de processamento e produção proporcionada pela tecnologia”, disse.

Descentralização do setor pode impulsionar publicidade em Minas

Em conjunto com os sindicatos, a Federação Nacional das Agências de Propaganda (Fenapro) tem trabalhado pelo fortalecimento dos mercados regionais e pela descentralização do setor, antes focado em São Paulo. A avaliação é de que o desenvolvimento das agências estaduais pode estimular novas marcas e ampliar o volume de investimentos em comunicação.

“A Fenapro tem trabalhado muito com o desenvolvimento dos mercados regionais e estaduais. Existe o movimento para a evolução e o desenvolvimento regional, inclusive de investimentos, políticas públicas e de descentralização do conhecimento. A ideia é levar mais conhecimento para que todos os setores percebam que o desenvolvimento de mercado pode trazer um dinheiro novo para comunicação como um todo, na casa dos R$ 5 bilhões no Brasil. Quando a publicidade cresce, o Brasil cresce junto e é uma grande oportunidade para Minas Gerais”, destacou.

O setor também aposta na capacidade de desenvolver marcas regionais que ainda não mantêm investimentos contínuos em publicidade. A expansão, nesse caso, pode gerar novos negócios para toda a cadeia.

Sobre o autor

Michelle Valverde

Repórter do Diário do Comércio desde 2009. Graduada em Jornalismo pela Newton Paiva.

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