Reajuste no estacionamento de shoppings de BH preocupa lojistas e consumidores
Em um momento em que o consumidor brasileiro convive com juros elevados, crédito mais caro e orçamento doméstico pressionado, qualquer custo adicional na experiência de compra ganha peso. É nesse cenário que a Multiplan reajustou em maio os valores cobrados nos estacionamentos de seus três shoppings em Belo Horizonte, o BH Shopping, o DiamondMall e o Pátio Savassi.
A hora passou de R$ 21 para R$ 23, alta de 9,52%, e o período de carência foi reduzido de quatro para três horas. O efeito combinado das duas mudanças é significativo: o consumidor que antes pagava R$ 21 por quatro horas passará a desembolsar R$ 46 pelo mesmo período, aumento de 119%.
A Associação dos Lojistas de Shopping Centers de Minas Gerais (Aloshopping/MG) avalia que a mudança pode prejudicar as vendas dos empresários instalados nos malls. O argumento é direto: quanto maior o custo da visita, menor o incentivo para o deslocamento presencial, especialmente em um ambiente em que o e-commerce oferece conveniência sem esse tipo de despesa.
Em nota, a Multiplan informou que os ajustes decorrem de uma adequação operacional: “Os shoppings esclarecem que a tarifa-base do estacionamento passou de R$ 21 para R$ 23 a hora, o que representa um reajuste de 9,52%. Após o período promocional, que passou de quatro para três horas, permanece a cobrança fracionada a cada 15 minutos, no valor de R$ 5,75. Vale ressaltar que, no período promocional, as três primeiras horas custam R$ 23. As alterações fazem parte de um processo periódico de adequação operacional, considerando investimentos contínuos em segurança, tecnologia, manutenção da infraestrutura e qualidade dos serviços oferecidos aos clientes.”
Setor vê risco de perda de clientes com nova política de estacionamento
O reajuste nos valores e a redução do período de permanência inicial geram preocupação quanto à sustentabilidade econômica do ecossistema de compras e lazer. O superintendente da Aloshopping/MG, Marcelo de Oliveira Nunes da Silveira, alerta para os impactos negativos da mudança na cobrança de estacionamento em shopping centers.
“É profunda a nossa preocupação com as recentes alterações nas políticas de cobrança de estacionamento em centros comerciais de Belo Horizonte. A redução do período de carência/valor fixo de quatro para três horas, somada à cobrança imediata de hora subsequente, configura um retrocesso estratégico para o ecossistema do varejo.” Conforme Silveira, hoje, os shoppings não são apenas locais de compras, mas centros de convivência, lazer e serviços. Ao reduzir o tempo de permanência protegido pelo valor inicial, cria-se uma pressão psicológica e financeira sobre o consumidor, impactando de forma negativa o período de estadia.
“O cliente, compelido a monitorar o relógio para evitar a cobrança subsequente, tende a abreviar sua estadia, impactando diretamente o setor de alimentação e entretenimento, que demanda naturalmente maior tempo de permanência.”
O aumento indireto do custo de visitação, conforme Silveira, também reduz a jornada dos clientes e, consequentemente, a taxa de conversão das lojas. “Para o lojista, o estacionamento é o pedágio de acesso ao seu estabelecimento. Quando esse custo se torna desproporcional ou complexo, o consumidor opta por outros canais de compra, como o e-commerce ou o comércio de rua, drenando o faturamento que sustenta o aluguel percentual e os encargos comuns de um shopping.”
Para Silveira, o aumento dos valores nos níveis registrados nas unidades da Multiplan prejudica o varejo. “Como economista e representante de classe, entendo que o estacionamento é uma fonte de receita para o empreendedor do shopping, mas ele não pode se tornar um fim em si mesmo que canibaliza o negócio principal, o varejo. Essa nova estrutura de cobrança aumenta o custo operacional indireto para os lojistas, que já lidam com uma carga tributária elevada e custos de ocupação crescentes.”
Reajustes nos estacionamentos mudam lógica de permanência nos malls
O aumento nos preços e as mudanças nas políticas de cobrança dos estacionamentos prejudicam consumidores e lojistas, na avaliação do coordenador do Mercado Mineiro, Feliciano Abreu. Segundo ele, além da alta nos valores, houve redução do tempo promocional, o que amplia o impacto para quem frequenta os shoppings.
“A mudança não é justa para o consumidor, principalmente porque muita gente nem foi avisada. Hoje, paga-se mais por menos tempo de permanência. O reajuste não foi apenas no preço, houve também perda no benefício oferecido. No fim, quem sente os efeitos são os consumidores e os lojistas. O inquilino de shopping deve sofrer ainda mais em um cenário econômico já difícil”, afirmou.
O Mercado Mineiro acompanha os reajustes feitos em BH e na região metropolitana. A última pesquisa, elaborada pela entidade, mostrou que estacionar em Belo Horizonte e na região metropolitana ficou mais caro, com reajuste médio de 16%, alta três vezes acima da inflação em um ano.
Enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano de 2025 em 4,26%, o preço da hora em estacionamentos na RMBH subiu 16% entre março do ano passado e março deste ano. Já a fração de 15 minutos teve aumento de 10,11%.
Conforme Abreu, o reajuste limita os gastos do consumidor. “Muitas vezes, a pessoa ia ao shopping fazer uma compra e até gastava mais porque não tinha o custo do estacionamento. Hoje, muita gente deixa de ir justamente por causa do preço para estacionar”, explicou.
O cenário sugere um ponto de inflexão. O shopping center foi construído sobre a lógica da conveniência, e o estacionamento sempre foi parte dessa promessa. Quando ele se transforma em custo relevante na decisão de visita, a equação muda. O consumidor não deixa de consumir, ele redireciona o gasto. E o varejo físico, que ainda se recupera dos efeitos estruturais acelerados pela pandemia, tem pouca margem para absorver essa perda de fluxo sem consequências para o faturamento.
O que muda nos estacionamentos dos shoppings da Multiplan
- Tarifa-base passou de R$ 21 para R$ 23
- Reajuste foi de 9,52%
- Período promocional caiu de quatro para três horas
- Após as três horas, permanece cobrança fracionada a cada 15 minutos
- Cada fração de 15 minutos custa R$ 5,75
- Consumidor que antes pagava R$ 21 por quatro horas agora desembolsa R$ 46
- Aumento efetivo para permanência de quatro horas chega a 119%
- Entidades do varejo avaliam que a medida pode reduzir fluxo e permanência nos shoppings
- Pesquisa do Mercado Mineiro aponta alta média de 16% nos estacionamentos da RMBH em um ano, acima da inflação oficial de 4,26% em 2025
Ouça a rádio de Minas