Feira Nacional do Artesanato, em dezembro, será primeiro evento do Expominas após reabertura | CREDITO: CHARLES SILVA DUARTE

“Primeiro a fechar e o último a abrir”. Assim se define o setor de eventos durante a pandemia. Enquanto as cidades brasileiras começam a liberar o retorno de festas, reuniões e espetáculos, impondo protocolos de segurança sanitária – alguns mais, outros menos rígidos – e a Europa volta a endurecer as regras, o setor usa a sua principal matéria-prima – a criatividade – para traçar estratégias e já começar a viver no “novo normal”.

Cadeia produtiva gigantesca, que se confunde com outras de igual importância, como a do turismo e entretenimento – os eventos sociais, corporativos ou espetáculos -, a área de eventos aposta em tecnologia e uma versão híbrida da vida, em que o presencial e o virtual estarão de mãos dadas – devidamente higienizadas com álcool em gel – para levar a melhor experiência para o consumidor.

Então, você já se animou a se aglomerar em uma feira de negócios ou para assistir seu artista preferido cantar? O certo é que os encontros não deixarão de existir, mas qual será o formato mais seguro? Estarão público e patrocinadores dispostos a pagar por ele? Com vocês, o novo normal do setor de eventos.

Oliveira: será preciso prestar atenção no preço dos ingressos | Crédito: Divulgação/Abrape

Custos fixos são a dor de cabeça dos gestores

Impedidos de acontecer desde meados de março, os eventos e espetáculos deixaram uma enorme saudade em todo o mundo. Mas como ninguém é de ferro, logo surgiram apresentações na varanda, encontros via videoconferência, as infalíveis lives e até peças de teatro apresentadas em drive-ins passaram a ocupar a necessidade de arte, cultura e convivência que todos nós sentimos.

Mas nada disso foi suficiente para suprir toda a necessidade de socialização e, muito menos, as necessidades financeiras de toda a cadeia produtiva. Segundo estudo Global Entertainment & Media Outlook 2020-2024, da empresa de consultoria e auditoria PwC Brasil, em termos mundiais, 2020 terá a queda mais acentuada nos 21 anos de história da pesquisa, com retração de 5,6% em relação a 2019 – mais de US$ 120 bilhões em termos absolutos.

Os chamados “custos fixos” são a grande dor de cabeça dos gestores. Enquanto o público se mantém afastado, compulsoriamente ou por opção, contas como água, luz, telefone e aluguel se mantêm praticamente inalteradas. Até aí, é uma dor comum a quase todos os setores. O problema maior começa na implantação dos protocolos de segurança já que o setor vive de juntar o maior número de pessoas no mesmo lugar.

Insumos como álcool em gel, álcool 70%, termômetros e luvas tiveram os preços majorados na medida em que foram sumindo do mercado. Nem a regularização da distribuição fez com que retornassem aos patamares de fevereiro de 2020. A implantação e manutenção de tecnologias de controle sanitário e de presença também impactam diretamente sobre o custo permanente nas planilhas de produtores e gestores, além do treinamento das equipes.

Para o conselheiro da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape) e diretor da Artbhz, Lúcio de Oliveira, é ainda preciso prestar atenção em mais um detalhe: o preço dos ingressos.

“Estamos acostumados a ser criativos e full time e essa é a nossa única chance. Nesse momento, os custos estão subindo, o público reduzido e não posso aumentar o valor do ingresso. As pessoas estão com a renda reduzida, não há como jogar essa conta para elas”, afirma Oliveira.

Como exemplo ele cita o show “Amor no Caos”, com o Cantor Zeca Baleiro, que será realizado no Cine Theatro Brasil Vallourec, na região do hipercentro, no dia 31 de outubro. Foram disponibilizadas duas opções de ingresso: presencial e on-line.

“Vamos ter, assim como já está sendo adotado em outros espaços, pequenas ilhas para grupos familiares separados uns dos outros, por exemplo. Cada um vai buscar um tipo de solução e vamos aprendendo uns com os outros. Em Belo Horizonte, por exemplo, o decreto que permitiu a volta de parte dos eventos foi um avanço importante, mas não nos atende totalmente. Ele diz respeito aos espaços que já possuem alvará para eventos. Precisamos começar a trabalhar os espaços eventuais, como estacionamentos de shoppings e praças. Se tivermos eventos autorizados, vamos conseguir coibir os eventos piratas, esses, sim, sem controle e que colocam a população em risco de contaminação”, avalia o conselheiro da Abrape.

Vieira: é bom lembrar que o público disponível é o mesmo | Crédito: Divulgação/Appa

Projetos culturais bem estruturados farão toda a diferença

Novos modelos de negócios estão surgindo no setor de eventos, mas enquanto se consolidam, é preciso sobreviver. Um ponto fundamental para que a cadeia produtiva se sustente é não apenas convencer o público a comparecer – virtual ou presencialmente – mas, especialmente, convencer os patrocinadores.

Um projeto bem construído faz toda a diferença. Saber apresentar a ideia, incluir números e estimativas, pontuar ganhos de alcance, imagem e engajamento ao participar da retomada do setor é fundamental.

Para o presidente da Appa – Arte e Cultura, Xavier Vieira, a pandemia acelerou alguns futuros possíveis. A digitalização já estava acontecendo, porém não era tão perceptível até que o isolamento social se tornasse a única opção para evitar a contaminação e preservar vidas durante a pandemia.

Sediada no bairro Carmo, região Centro-Sul, a associação cultural gerencia e executa projetos artístico-culturais por meio de mecanismos de fomento, como leis de incentivo à cultura, fundos culturais, convênios, termos de parceria, entre outros.

“Vivemos um momento em que o público disponível é o mesmo e o volume de produções é crescente. Estão surgindo novos modelos de financiamento para as casas de evento, com as assinaturas, por exemplo. A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais já faz isso há muito tempo, mas agora podem surgir novos serviços com combos de serviços digitais”, explica Vieira.

Ainda que a vacina seja disponibilizada para a toda população e isso leve de volta as pessoas aos eventos, os modelos não vão voltar aos padrões pré-pandemia e patrocinadores e público devem exigir a continuidade das experiências virtuais.

Algumas ferramentas tendem a maximizar o potencial de “experiência única” do modelo presencial: networking on-line (Q&A direto, perguntas durante os chats); contato com palestrantes antes (outros chats privados) e depois do evento; sorteio de “cabine virtual” para conversa privada com palestrante, “salões” de expositores, um lobby virtual para networking; entre outras.

“Devemos pensar em estratégias para a monetização dos canais no Youtube e criação de produtos como making-offs, entrevistas, para compor a receita. Depois disso tudo os patrocinadores vão exigir os resultados do virtual. Tecnologias como holografia e realidade aumentada, que agora ainda são caras, também serão democratizadas com o tempo. O importante é oferecer experiências que aproximem o público de uma sensação ‘real’ e dê possibilidades únicas, exclusivas, gerando o engajamento que os patrocinadores tanto almejam”, ensina o presidente da Appa.

Márcia Ribeiro: é preciso seguir todos os protocolos de segurança | Crédito: Divulgação/Expominas

Sucesso de um evento seguirá sendo medido pela demanda

Antes da Covid-19 era fácil caracterizar um evento de sucesso: era aquele que lotava o espaço de realização e que as pessoas brigavam por um ingresso ou convite. Naqueles tempos, os olhos de produtores e patrocinadores brilhavam ao imaginar que da próxima vez poderiam alugar um lugar ainda maior.

Para o diretor da Associação Brasileira das Empresas de Venda de Ingressos (Abrevin), Donovan Ferreti, o setor passa por um momento transitório e que o sucesso de um evento seguirá sendo medido pela demanda que desperta, tendo todos os ingressos disponibilizados à venda comercializados.

“A grande oportunidade que ficará depois deste momento é exatamente poder ultrapassar este limite físico dos locais onde os eventos ocorrem, possibilitando o atendimento de mais fãs que não teriam a oportunidade de acompanhar o evento ao vivo, seja por um fator financeiro ou simplesmente por não haver mais ingressos à venda”, afirma Ferreti.

Apesar dos mecanismos de venda, em si, já serem bastante digitalizados, com venda e entrega pela internet, uso de QR Code etc, a atividade não passou incólume pela necessidade de inovação nesse período e aos novos custos impostos.

“As novas integrações e a necessidade de se garantir a segurança deste conteúdo gera custos adicionais, principalmente os ligados à infraestrutura, meios de pagamento, prevenção a fraude e ao conteúdo que se está disponibilizando. Basicamente a alteração se dará nas disponibilidades deste evento, podendo o consumidor optar pela experiência presencial ou remota”, destaca o diretor da Abrevin.

O medo de grandes aglomerações, já que os cientistas apontam na possibilidade de surgimento de novas epidemias, e as novas tecnologias também colocam em cheque a necessidade de grandes espaços de eventos.

A diretora de Negócios e Marketing do Expominas, Márcia Ribeiro, está na expectativa do primeiro evento após a desmobilização do hospital de campanha montado no espaço: a Feira Nacional do Artesanato (FNA), na primeira semana de dezembro. Para ela, seguir à risca todos os protocolos de segurança é condição básica para a volta do setor enquanto a vacina não chega à população.

“Se neste início teremos perda de público presencial, teremos o ganho gigantesco da audiência nos ambientes digitais. Penso que os formatos vão coexistir. A primeira grande feira que o Expominas vai receber é a FNA. O realizador preparou um mapeamento total de todos os ambientes da feira. O visitante, além de frequentar o evento presencialmente, poderá visitar a feira on-line e fazer suas compras pelo WhatsApp e receber em casa. Certeza que teremos recorde de público neste formato inovador. O mercado de eventos é essencial para vários setores da economia. Lançar e promover produtos e serviços em feiras é gerar vendas e novos negócios para a produção industrial. A indústria precisa dos eventos de negócios e nós sabemos o quanto podemos ajudar na retomada”, completa Márcia Ribeiro.