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Alergia ao protagonismo

Fenômeno se manifesta de forma sutil no ambiente corporativo e na vida profissional atualmente
Alergia ao protagonismo
Foto: Reprodução Adobe Stock

Vivemos um tempo em que visibilidade virou moeda. Nunca foi tão fácil aparecer, opinar, se posicionar, mas, curiosamente, nunca foi tão comum encontrar pessoas que desejam o palco, mas evitam o papel principal. Querem reconhecimento, crescimento, melhores salários, mas hesitam diante do que sustenta tudo isso, que é a responsabilidade.

Existe uma espécie de “alergia ao protagonismo” que se manifesta de forma sutil no ambiente corporativo e na vida profissional. Ela aparece quando alguém diz que quer liderar, mas evita decisões difíceis. Quando busca promoção, mas resiste à cobrança. Quando quer autonomia, mas não abre mão da zona de conforto. No fundo, há uma confusão comum: protagonismo não é aparecer, é assumir.

Ser protagonista nunca foi apenas sobre destaque. Sempre houve, e sempre haverá, um peso atrelado a esse lugar, que implica responsabilidade, exposição e risco. Quando alguém decide assumir esse papel, passa a lidar com expectativas maiores, com a necessidade de tomar decisões, muitas vezes sob pressão, e com a possibilidade real de errar.

A exposição não garante apenas aplausos. Ela também traz julgamentos, críticas e consequências. Nem tudo está sob controle, muitas decisões são influenciadas por variáveis externas, contextos complexos e fatores imprevisíveis. Ainda assim, quem ocupa o lugar de protagonista precisa responder por elas.

Talvez seja justamente isso que afasta tanta gente. Não é o crescimento que assusta, mas o preço que vem com ele. Porque protagonismo tem preço e tem peso. Não é possível dissociar uma coisa da outra. Ao assumir mais espaço, perde-se também o direito de terceirizar culpas. Os resultados, sejam eles bons ou ruins, passam a ter dono. Há sempre uma conta a ser paga. E a maturidade profissional passa, inevitavelmente, por reconhecer essa conta antes mesmo que ela chegue.

O problema é que muitos querem os benefícios do protagonismo sem aceitar seus custos. Querem avançar, mas sem desconforto. Querem liderar, mas sem pressão. Querem reconhecimento, mas sem risco. E isso simplesmente não se sustenta, pois não dá para ser protagonista agindo como espectador.

O mercado está cheio de profissionais talentosos, tecnicamente preparados, com grande potencial de crescimento. Mas falta algo que não se aprende de uma hora para outra, que é a disposição genuína de assumir. Assumir decisões, erros, aprendizados e consequências. Desenvolver essa competência exige mais do que ambição. Exige consciência. É preciso entender que crescer não é apenas conquistar espaço, é sustentar esse espaço com consistência, coragem e responsabilidade.

No fim das contas, protagonismo não é sobre estar pronto. É sobre estar disposto.

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