O caos do coração de uma mãe, o que ele nos ensina sobre liderança
Em uma fala recente, ao receber o prêmio no Oscar de 2026, a atriz Emma Stone trouxe uma expressão que traduz, com rara precisão, uma das experiências humanas mais intensas: “O caos do coração de uma mãe”.
Não é desordem.
É o espaço onde convivem amor profundo, responsabilidade, medo, proteção e uma força silenciosa que sustenta o outro, mesmo sem garantias.
O amor de uma mãe é, talvez, uma das experiências que mais dão sentido à vida. Ele reorganiza prioridades, redefine o que importa e desloca o centro do indivíduo para o outro. É presença contínua. É a capacidade de permanecer, cuidar sem controlar, proteger e, ao mesmo tempo, permitir autonomia. É, silenciosamente, uma das formas mais sofisticadas de liderança.
Em um contexto cada vez mais presente, muitos de nós vivemos o que se convencionou chamar de geração sanduíche, aqueles que cuidam simultaneamente dos filhos e dos pais, sem esquecer (ou tentando não esquecer) de si mesmos. Não é um fenômeno novo, mas é uma realidade que se intensifica com o envelhecimento da população e as transformações sociais.
São profissionais que sustentam múltiplas responsabilidades emocionais, físicas e financeiras, muitas vezes de forma invisível. E essa realidade revela algo profundo: o cuidado não é uma dimensão separada da vida. Ele atravessa tudo, inclusive o trabalho.
Essa experiência nos convida a repensar o que significa liderar.
Durante décadas, liderança foi associada a estratégia, eficiência e controle. Esses pilares seguem importantes, mas já não são suficientes.
O desafio hoje é outro: sustentar e inspirar pessoas, relações e criar ambientes que não adoeçam as pessoas.
Os dados reforçam esse cenário. Estudos da McKinsey indicam que apenas cerca de 20% das pessoas estão engajadas no trabalho globalmente. A maioria opera com níveis reduzidos de conexão e energia.
Não é apenas um tema de clima ou bem-estar.
É um tema de capacidade de sustentar desempenho e, sobretudo, de preservar a saúde das pessoas.
Nesse contexto, a experiência de Viktor Frankl revela algo essencial. Ao atravessar os campos de concentração, ele percebeu que aqueles que mantinham um vínculo com algo maior, muitas vezes o amor por alguém, encontravam uma razão para continuar, mesmo no caos.
É o sentido, ancorado no amor e no vínculo com o outro, que torna a vida suportável, mesmo quando a realidade não pode ser mudada.
Essa mesma lógica aparece nas chamadas blue zones, regiões onde as pessoas vivem mais e melhor. O que se repete não é apenas o estilo de vida, mas algo mais profundo: vínculos fortes, pertencimento e propósito.
O que sustenta a vida, no longo prazo, é a conexão humana.
Esse é o centro da discussão nas organizações hoje: a saúde social.
A qualidade das relações, como confiança, pertencimento e segurança psicológica, deixou de ser complementar e passou a ser estrutural.
E aqui emerge um ponto essencial: a necessidade de sentir que se importa com alguém e que aquilo que se faz tem significado para alguém.
Quando uma pessoa percebe isso, ela se engaja, contribui e permanece. Quando essa percepção se perde, o que desaparece não é apenas a motivação, mas o vínculo.
O amor de uma mãe é, talvez, a forma mais primária e poderosa de pertencimento.
É o primeiro lugar onde alguém aprende que importa, que é visto, que é cuidado.
E é dessa experiência que nascem a segurança e a capacidade de se relacionar com o mundo.
Talvez seja exatamente isso que falte em muitas organizações: ambientes onde as pessoas não apenas desempenham suas funções, mas se sentem relevantes, vistas e conectadas a algo maior.
A liderança contemporânea exige integrar saúde física, emocional e social. Quando isso não acontece, surgem exaustão, conflitos e perda de valor. Ainda assim, muitas organizações seguem tratando cuidado como excesso, ignorando o custo silencioso dessa escolha.
Neste Dia das Mães, fica o convite: reconhecer que é exatamente esse tipo de vínculo, profundo, humano e verdadeiro, que também precisa ser cultivado nas organizações.
Porque, no fim, liderar é cuidar. São os relacionamentos que sustentamos, algo que nenhuma inteligência artificial jamais será capaz de substituir.
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