Cartas do médico Guimarães
“Uma pequena preciosidade!” (escritor José Dias Lara, de saudosa memória)
Retorno a um personagem fascinante. Correspondência de anos atrás, de um fraternal amigo, já não mais entre nós, o escritor José Dias Lara adicionou aos meus arquivos escritos inéditos, de notável sabor histórico, de ninguém mais, ninguém menos que João Guimarães Rosa. Como o atento leitor deve se recordar, ainda recentemente andei deitando falação sobre Guima nas celebrações da semana Roseana, reportei-me aos insuspeitados, singulares e, como se viu, confessos dons extrassensoriais do autor de Grande Sertão.
O respeitado homem de letras Dias Lara foi governador do Lions, e membro da Academia Mineira de Leonismo, ocupando a cadeira que tem Rosa como patrono. Estudioso do fascinante universo Rosiano, esse bom amigo colecionava valiosas informações sobre vida e obra de Rosa. Lara brindou-me, de certa feita, conforme suas palavras, com “uma pequena preciosidade”. Disse-me, na época:
“Sabe-se que Guimarães era de falar pouco e escrever muito, particularmente cartas: era um missivista de escol. E isto já fazia, bem antes de tornar-se o notável escritor que todos conhecemos. Ainda era o dr. João, médico em Itaguara, nos idos de 1932; são desse tempo as cartas de que lhe envio cópias – uma pequena preciosidade – uma delas com fórmula medicamentosa para manipular. Linguagem simples para seu povo muito simples. Eram os primeiros passos de um bom médico, que se fez grande nas letras.”
O destinatário das cartas mencionadas, redigidas na ortografia da época, com caligrafia firme e desenvolta, é um senhor de nome Manoel, residente no Mambre, próximo a Itaguara, onde o médico João Rosa clinicava. Em tom assaz cordial, evidenciando o grau de amizade existente entre eles, Rosa acompanha o tratamento de pessoa próxima ao companheiro Manoel. Indica procedimentos incluindo aí, receitas médicas caseiras, de uso corrente naqueles tempos. Abaixo a reprodução das cartas-receitas:
“Itaguara, 22 maio 932. Prezado Manoel, Abraços. Seguem os apetrechos. Faça o serviço com jeito, e mande-me a ferramenta logo depois. Explique ao povo da casa o modo de usar os remédios. Recomende quanto à hygiene. Mande fazer também uma lavagem intestinal. Será bom você mandar-me uma informaçãozinha por escripto. Recomendações aos seus. Abrace por mim o velho. Estou com saudade do agradável Mambre e, principalmente, dos seus bondosos moradores. Muito grato por todas as finezas; desculpe-me os incômodos. Do amigo J. Guimarães Rosa.” // “Prezado Manoel, Cumprimentos aos seus. Continue a mandar fazer as lavagens intestinaes, bem como as vaginaes. A doente deve tomar, na maior quantidade possível, chá de cabellos de milho adoçado. A alimentação deve ser reforçada, com prudência, porém. Um apertado abraço do amigo Guimarães Rosa!”
Mais cartas do Dr. Guimarães na sequência.
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