A crise da escuta em ano eleitoral
Estar informado é essencial. Entender o que acontece em nosso país, na política e no mundo nos ajuda a compreender melhor a realidade em que vivemos, avaliar os acontecimentos com mais clareza e tomar decisões mais conscientes, especialmente na escolha de bons representantes.
Por isso, as notícias falsas, que apresentam conteúdos imprecisos e informações enganosas como se fossem verdadeiras, acabam sendo um desserviço, pois conduzem as pessoas pelo caminho da desinformação e do erro.
No fim, vivemos em uma democracia repleta de opiniões, mas, muitas vezes, desprovida de critérios e fundamentos para separar as notícias falsas das verdadeiras. Como nem todos os meios de comunicação são fidedignos, a crítica acaba surgindo antes da reflexão.
O avanço da inteligência artificial torna esse cenário ainda mais preocupante. Dados do 1º Panorama da Desinformação no Brasil, elaborado pelo Observatório Lupa, mostram que os conteúdos falsos ou deepfakes produzidos com o auxílio de IA passaram de 39 casos identificados em 2024 para 159 em 2025, um crescimento de 308%. Em 2025, esses conteúdos já representavam cerca de 25% das verificações realizadas. Além disso, quase 45% apresentavam viés ideológico e mais de 75% exploravam a imagem ou a voz de pessoas conhecidas, principalmente figuras políticas. A desinformação também passou a circular de maneira mais dispersa entre diferentes plataformas digitais, ampliando o desafio de identificar o que é verdadeiro em meio ao enorme volume de informações.
Na Grécia Antiga, existia a Ágora, principal espaço de Atenas, que funcionava como mercado e local de reuniões públicas. Esse lugar era o centro da vida democrática, onde aconteciam eleições, discussões e assembleias. Falar e ser ouvido, opinar e ser compreendido eram ações indispensáveis nesse ambiente, realidade que também vivenciamos em nossos dias.
Em nossa Ágora virtual, marcada por muitas falas, pouca escuta e escassa reflexão, onde as fake news ganham espaço, é indispensável desenvolver critérios para que as notícias falsas não se destaquem e a mentira possa ser reconhecida e invalidada. Com o avanço da inteligência artificial, esse cuidado precisa ser ainda maior, já que imagens, áudios e vídeos manipulados podem conferir aparência de realidade a acontecimentos e declarações que nunca existiram.
Essa preocupação se torna ainda mais necessária em ano eleitoral, quando, muitas vezes, notícias falsas são usadas para deslegitimar candidatos e comprometer suas candidaturas. Partir da verdade e da coerência, seguindo pelo caminho correto, precisa ser uma prioridade.
É por meio do diálogo, da discordância respeitosa e da apresentação de outros pontos de vista que uma ideia vai sendo construída. Na política brasileira, essa prática também é muito necessária. Diante dos inúmeros problemas que o nosso País precisa enfrentar, como as desigualdades, os desafios ambientais, entre tantos outros temas, o diálogo construtivo torna-se indispensável.
Em um mundo marcado por certezas e polarizações, dialogar é indispensável para que a verdade tenha voz e faça diferença. Em ano eleitoral, ouvir, refletir, pesquisar e verificar as fontes tornam-se atitudes necessárias para não sermos conduzidos pelo engano. Diante de tecnologias capazes de tornar a mentira cada vez mais convincente, a qualidade da democracia dependerá também de nossa capacidade de não apenas falar, mas de escutar com atenção, questionar com responsabilidade e buscar os fatos antes de formar e compartilhar opiniões.
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