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O prisma da segurança alimentar

Segundo a ONU, a insegurança alimentar aguda dobrou na última década
O prisma da segurança alimentar
Foto: Reprodução Adobe Stock

Afinal, o que define a segurança — ou a insegurança — alimentar? Esta não é uma questão de relativismo, mas de múltiplas perspectivas que variam conforme o ângulo do observador.

Recentemente, a ONU alertou para o agravamento global do problema: a insegurança alimentar aguda dobrou na última década. Segundo o “Global Report on Food Crises 2026”, cerca de 266 milhões de pessoas em 47 países enfrentaram níveis críticos de fome em 2025. O estudo revela que a fome deixou de ser apenas fruto da escassez; ela hoje reflete falhas estruturais nos sistemas globais.

Em focos críticos como Sudão, Iêmen, Haiti e a Faixa de Gaza, a crise não decorre da falta de alimentos no mundo, mas de uma combinação perversa de conflitos armados, eventos climáticos extremos e crises econômicas. Mitigar esse cenário exige investimentos internacionais, fortalecimento de sistemas locais e políticas que tratem a alimentação como pilar de estabilidade global. Contudo, a “boa vontade” isolada é insuficiente para resolver males cujas raízes se entranham profundamente no solo social e político.

Enfrentar o desafio exige ações coordenadas entre Estados, setor privado e organismos internacionais. É preciso notar, entretanto, que a segurança alimentar assume contornos distintos em regiões estáveis. Na Europa, o tema é tratado como estratégia de Estado e política pública para garantir o acesso a produtos seguros, além de uma preocupação com as ondas migratórias oriundas de crises em outros continentes.
Já o Brasil vive um cenário híbrido. Embora tenhamos saído do “Mapa da Fome” da ONU, a insegurança ainda persiste em bolsões de vulnerabilidade. O País convive simultaneamente com desafios de padrão europeu e, até certo ponto, carências africanas.

Lidar com essas duas realidades não exige uma escolha excludente, mas compromisso. Para o setor privado, a segurança alimentar deve ser um guia de perenidade e sustentabilidade. Para o setor público, o foco deve permanecer no desenvolvimento econômico como alavanca de crescimento justo, capaz de anular o principal vilão da insegurança alimentar: o baixo poder aquisitivo que impede o acesso à comida de qualidade.

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