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Ademir Furtado*

Pelo pouco conhecimento que tenho sobre a história das religiões creio que um tema central, que causou vários conflitos, foi a questão do livre arbítrio. Salvo melhor entendimento, esse foi um ponto crucial nas discussões que levaram à reforma protestante. E o apóstolo Paulo já alertava, na epístola aos Coríntios, que tudo é permitido, mas nem tudo convém, o que deixa explícita a preocupação com a responsabilidade que alguém deve assumir pelos próprios atos.

Daí se desenvolve outra linha de raciocínio muito importante que é o determinismo causal. O indivíduo é livre para praticar a ação que julgar acertada, porem essa ação poderá ter desdobramentos que fugirão ao controle desse indivíduo, o que relativiza bastante a liberdade de agir e coloca outro valor essencial: a responsabilidade moral do agente.

Não há aqui interesse, muito menos competência, para um tratado de filosofia moral, menos ainda reflexões teológicas. Basta, para o meu propósito, apenas trazer o assunto para a nossa atualidade pandêmica, no que se refere aos cuidados de prevenção ao contágio do vírus que já matou milhares de pessoas, e ainda está longe de ser controlado.

Da janela da minha sala, onde enfrento com resignação cristã esse isolamento, observo na rua, pessoas caminhando sem máscaras, em grupos, como se nada de mais grave estivesse acontecendo no mundo. Entro nas redes sociais e me espanto com internautas defendendo o direito de sair para a rua quando e como lhes apetecer. Daí que me vem à mente aquela reflexão sobre os desfechos incontroláveis de uma ação. Um indivíduo decide, por conta de seu livre arbítrio, que tem o direito de sair para a rua sem a devida proteção, e assim o faz.

Porém, uma vez que ele seja contaminado, não terá como controlar a transmissão do vírus para outras pessoas, isto é, estará pondo em risco a vida de outros cidadãos que optaram pelo direito de se manter saudáveis. Qualquer um pode fazer da própria vida o que bem entender, desde que não coloquem em perigo as vidas alheias.

A contenda sobre o uso das máscaras tem uma analogia bem apropriada com outra norma cuja finalidade é poupar vidas: as regras do Detran para a condução de veículos motorizados. Já ouvi manifestações contrárias ao controle de velocidade no trânsito com o argumento justamente do direito inerente a uma pessoa de se matar se assim o quiser. Sim, na situação hipotética de uma autoestrada vazia, onde um motorista se desloca totalmente sozinho, pode-se dar a ele o direito de se suicidar em alta velocidade, pois, em caso de acidente, estará se divertindo numa viagem solitária para o além.

Mas no perímetro urbano, ou mesmo numa estrada movimentada, uma colisão de automóveis, com todas as probabilidades traria trágicos desenlaces também para aqueles indivíduos que certamente pretendiam uma condução mais tranquila, baseados no ensinamento daquele ditado popular que recomenda ir devagar para chegar mais rápido. Como se vê, nesse caso, até o direito ao suicídio tem suas limitações.

A conclusão disso tudo é que no caso da pandemia o argumento para abster-se do uso de máscaras é apenas um subterfúgio para encobrir um egoísmo patológico, aquela postura infantil que leva as crianças a desejarem sempre o prazer momentâneo, sem a mínima noção sobre as possíveis dificuldades que podem acrescentar para outros viventes.

Um egoísmo que veste uma máscara de convicção ideológica, reflexão filosófica, ou qualquer outra aparência de maturidade intelectual, apenas para esconder, talvez até de si próprio, a total falta de empatia por qualquer coisa que não diga respeito exclusivamente aos desejos imediatos. Mas esse desprezo pelos interesses coletivos, sobretudo quando se trata de saúde pública, demonstra apenas um enorme descaso pela própria vida, como os animais que, muitas vezes levados apenas pelos instintos, ignoram os cuidados necessários à preservação da espécie.

*Graduado em Letras e escritor, autor dos romances Se eu olhar pra trás e O conto do anu.  www.ademirfurtado.com.br